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O blogueiro Paulo Henrique Amorim (foto retirada da internet)

Ele chega à porta do auditório da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), em São Paulo, e para por alguns instantes. Seu terno é bem cortado; sua postura, alinhada. O penteado não ostenta nem um fio fora do lugar.  

Enquanto passeia os olhos pela platéia, ergue a cabeça e abre ligeiramente a boca. Parece admirado e curioso. Praticamente lotada, a sala recebe cerca de 70 pessoas, que estão confortavelmente sentadas em cadeiras estofadas que se localizam em um nível inferior e de costas para quem adentra o ambiente.

Os instantes de observação são breves, porque logo ele é chamado por Gil Giardelli, seu anfitrião, para ocupar o lugar de destaque da noite.  Paulo Henrique Amorim está preocupado. O relógio já crava 20h, trinta minutos além do horário marcado para iniciar sua palestra no curso de Ações Inovadoras em Comunicação Digital, na ESPM.

Paulo Henrique Amorim, o jornalista veterano, vai contar suas aventuras num universo que ainda deixa desbaratado um bocado de gente com muitas primaveras a menos, incluindo vários coleguinhas da imprensa.  Vai relatar sua experiência de blogueiro. Contará como é ser jornalista na era digital.

 “Olá, tudo bem?”, ele diz.

Ele começa pelo cumprimento peculiar, a marca registrada que todos se acostumaram a ouvir em seus programas de TV. Claro, claro: com a mesma entonação característica, a voz anasalada, rouca, inconfundível.

 

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Ele não se furta a falar de web e jornalismo em palestras país afora

Vai logo pedindo desculpas pelo atraso. Ele odeia se atrasar. Culpa o trânsito e faz troça dos tucanos. Diz que os engarrafamentos colossais de São Paulo têm o bico dessa espécie de ave política que se mostra incapaz de dar um jeito no problema ( ele gravou um buzinaço feito por motoristas irritados e transformou em podcast em seu blog).

Com um humor que vai da ironia ao sarcasmo num piscar de olhos, Paulo Henrique  falou de tudo e mais um pouco. Falou que sua experiência profissional na internet começou há um punhado de anos, com projetos de web TV no UOL. Contou que um dia teve uma ideia sensacional, que mudaria o mundo e poderia enriquecê-lo. Algo de gênio, que ninguém nunca antes neste país havia pensado: fazer um chat sobre mercado financeiro assim que a Bolsa encerrasse o pregão. Um programa para que as pessoas entendessem a temperatura das finanças.  

“Conversei com o Marcelo Lacerda, fundador do Zaz (que posteriormente virou o Terra). Ele adorou”. Buscaram patrocinadores, o produto foi ao ar e, embora certa vez tenha tido a audiência do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga  (“Era o único na sala de bate-papo no dia!”), teve desconectar o projeto de sua vida. “Foi um retumbante fracasso”

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Blog dá audiência, mas o ganha-pão mesmo vem do trabalho na Rede Record 

A transformação da mídia em função da tecnologia digital é um dos temas sobre os quais dedica atenção. Perguntei  se ele concordava com a ideia de que o noticiário factual tenderia a ficar nas mãos de pouquíssimas agências de notícias (notícia como commodity), enquanto a demanda por conteúdo contextualizado e analítico abriria brechas para microempresas digitais criadas por jornalistas, como o seu Conversa Afiada, blog independente responsável por uma audiência mensal de 3 milhões de usuários únicos. Ele concordou.

“Está todo mundo buscando um novo modelo de negócios na área de mídia”, disse. E ressaltou a importância de investir em bom conteúdo. “Mandar quatro correspondentes para Bagdá custa caro. Quem vai pagar por isso?”

Sistemas de financiamento baseados no filantropismo de entidades ou investidores, que sustentariam coberturas ou projetos jornalísticos especiais, podem ser uma alternativa viável. “Esse é um caminho estudado agora nos EUA”.

 
YouTube tem vídeos com suas opiniões sobre a blogosfera

Sua aposta no meio digital é tamanha que ele quer transformar o Conversa Fiada em um produto bem mais amplo. A inspiração vem do bem-sucedido e balalado The Huffington Post, blog político americano que recebeu, em 2008, investimento de US$ 25 milhões – aplicado pela Oak Investment Partners, de Palo Alto, na Califórnia- , o que fez a empresa alcançar o valor de US$ 100 milhões.
O valor supera o de várias empresas de jornalismo impresso dos Estados Unidos. “Quero ser a Ariana Huffington. O blog dela, que é agressivo politicamente, se transformou em um portal”, afirma, taxativo. Ele se refere à fundadora do The Huffington Post. E completa, para não deixar dúvidas: “Quero se um portal!”.