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Bertrand Morane (Charles Denner) é o homem que amava as mulheres. O solitário rodeado de damas gentis e solícitas em busca de prazer e afeto – assim como ele. “A verdade é que elas querem o mesmo que eu: elas querem amor. Todo mundo quer amor, todos os tipos de amor”.

Seu fetiche eram as pernas. Pernas magras, esguias, esbeltas, ou também roliças. “As pernas das mulheres são compassos que percorrem o globo terrestre em todos os sentidos dando-lhe equilíbrio e harmonia”, dizia Morane.

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Truffaut dizia que Charles Denner era perfeito

para o papel por não ser galã

Sempre sozinho, ia a restaurantes inspecionar o mulherio. “Você acha que gosta de amar, mas é só o conceito que você ama. Você é um tolo, mas quando me acaricia, penso em você”, afirmou uma tantas que lhe preencheram noites de solidão e ausência. Talvez Bertrand Morane fosse um homem impossibilitado para o amor. Para a entrega do amor. Um homem que sonhava amar e ser amado, mas impedido de exercer a plenitude amorosa. Um coração interditado.

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Brigitte Fossey faz a editora e amante que publica o livro de Betrand 

“Bertrand pensava que em quantidade encontraria a felicidade. Por que sentimos que temos de procurar em tantas pessoas o que nos foi ensinado que pode ser encontrado em uma única?”, diz no filme Brigitte Fossey, que interpreta uma das amantes, a editora responsável pela publicação de seu livro de memórias. Em tempo: Brigitte Fossey é a menininha de Brinquedo Proibido, de René Clement.  

Trata-se, na verdade, de um menino escondido atrás do homem. E que não conseguiu se libertar do fantasma da ausência e desprezo da mãe durante a infância. “Cadê o bebê?”, perguntou a babá que contratou certa vez. “O bebê…sou eu”.    

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Truffaut não traçou o perfil de um conquistador barato

 Diz Truffaut,

em O Cinema Segundo Truffaut: “Com as mulheres, temos as relações que tivemos com as mães. Agradava-me a idéia de ir além da suposição de que Bertrand tinha apenas sido vítima de uma mãe detestável. Ele tinha também sido seduzido por ela, e é isso que tenta reviver com as mulheres que encontra”.

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Geneviéve Fontanel, na pela da amante de cabeleiras ruivas  

 A despeito da vocação para sedutor, não estamos falando de um Don Juan ou um Casanova. Bertrand Morane não era o machão típico; era, sim, um homem da modernidade. Da explosão do mundo pop, da sociedade de consumo, da era da libertação feminina.  “Sabe como te vejo, apesar de jeito melancólico? Como um homem que não tenta provocar a sua virilidade. E sabe como vejo seu livro? Como um testemunho das relações homem-mulher no século XX”, diz a editora e amante.

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Bertand era democrático: ia de morenas, garotinhas, maduras e louras

No fundo, Betrand Morane era um homem que carregava no peito a dor de uma terrível desilusão. “Um cena de reencontro com uma antiga relação indica claramente que outrora esse homem volúvel experimentou sentimentos de uma tal violência que adquiriu para sempre o medo doentio de senti-los novamente…Pois o paquerador é também alguém que tem medo do amor”, afirmou Truffaut, para quem o personagem não é tão autobiográfico como alguns seriam capazes de supor.

Com Bertrand Morane, Truffaut coloca em cena um certo tipo de homem moderno, que expõe  fraquezas, sofrimentos e desejos, embora continue na pele do caçador. Mas é um caçador de si mesmo, ainda que para isso precise da figura feminina, na esperança de um afago que torne a vida um pouco menos dolorosa.   


Veja este trecho que intreressante: