Alguém aí quer saber como fica o semblante (mas que palavra bonita essa!) de um escriba em ritmo alucinado de fechamento? Aí está. Tempere o cardápio com o fato de que a foto acima foi tirada no Copacabana Palace, no Rio, pertinho da praia e com um clima animado de festival de publicidade em volta. Wave Festival. Espumantes já circulavam nas cercanias. E eu lá, na corrida contra o tempo – duas matérias em menos de duas horas.
E eis que Eduardo Lopes, fotógrado e DJ (grande camarada) flagra a tensão escancarada na face. E Carlinha, esta que aparece de costas, olha e parece não acreditar. Ou não, né? Bom, ela e toda a turma ficaram à espreita nessa hora, só espiando a loucura alheia. Mas alguém tinha de trabalhar, né?
A edição cabulosa das fotos é do próprio Edu. Valeu, camarada!
Mais uns dias e teremos aqui, no PdF, notícias sobre um bate-papo com Kid Vinil. A entrevista foi para jornal , mas, como o material é farto, aproveitarei partes aqui.
Garanto que a conversa foi muito bacana. Por hora, deixo uma entrevista com o Kid feita pelo Clemente, dos Inocentes, por ocasião do lançamento do Almanaque do Rock, do Kid.
Como diria o Frejat no lendário disco ao vivo, “agora o rock and roll vai rolar aí e vai direto. Vamu lá!”
>Como o Ponto de Fuga anda na toada de Matrix por esses dias, trago aqui um vídeo que, além de divertido, abre espaços para entendermos algumas das características principais das redes sociais digitais e da relação entre elas e o que poderíamos chamar de “mídia tradicional ( o mainstream da comunicação, como TV, cinema, revistas, jornais). Vou explicar melhor.
O Marcelo Coutinho, que é um estudioso de cibercultura (diretor do Ibope Inteligência, doutor em comunicação pela USP e professor de mestrado da Cásper Líbero), me falou em diferentes momentos sobre a cultura do remix no ambiente digital.
Nas redes sociais, observa ele, a remixagem de produtos culturais é uma realidade. Ou seja, filmes, vídeos, programas de TV etc, ganham nova forma ao serem reprocessados na rede por qualquer um. Dessa forma, os produtos têm vida prolongada e adquirem um novo significado, graças à participação e à interatividade. Esse fenômeno trará repercussões diretas na lógica da criação e no consumo de conteúdo por empresas e indivíduos daqui para frente. Mas, por hora, paremos por aqui. Mais adiante voltarei ao tema.
Depois desse preâmbulo, vamos nos divertir um pouco com a cultura do remix.
O vídeo abaixo é um exemplo desse fenômeno. É um barato.
Como seria se a Matrix rodasse no Windows XP? Bom, seria mais ou menos assim:
• Um dos problemas é que a bichinha ficaria lenta para chuchu se você baixasse uma pá de filmes:
• O Oráculo ofereceria a Neo ( o protagonista de Matrix) uns cookies e lembraria que, quando surgisse algum problema – e surgiriam vários, uma avalhanche –, seria necessário optar entre enviar ou não um relatório de erros;
• Neo iria implorar para aprender lutar kung fu em segundos para escapar do vilão da história, o agente Smith (“Mr Anderson, Mr Anderson, Mr Anderson, Mr Anderson) , e Cypher diria a ele que é impossível porque a versão gratuita de teste do referido software expirou;
Vá, veja logo antes que trave tudo e você tenha de dar um “reset”.
Obama e Michelle, que diferença em relação aos antigos inquiulinos da Casa Branca, não?
Bush se despediu à base da sapatadas e Barack Obama chegou ovacionado por milhões. É o porta-voz de uma euforia mundial poucas vezes na cena política internacional. Não é para menos. Ele chega com perfil, história e uma visão de mundo muito diferentes das do inquilino anterior da Casa Branca.
Seu discurso, reiterado na posse, é o pacificação, da colaboração, de um mundo multipolar, com o reconhecimento de que há novos protagonistas no tabuleiro geopolítico ( bem o posto do czar do Texas). Isso sem falar no fato de que Obama tem uma carisma inigualável. E sua mulher também, que não tem o perfil de dona-de-casa de mansão. E Jonh Favreau, que escreve os discursos, incluiu a frase que os brasileiros da Era Lula conhecem muito bem: “A esperança sobre o medo” (é um pouquinho diferentes na forma, mas o DNA é o mesmo). Coincidência? De jeito nenhum.
O povo quer Obama
Não, não pensem que estou achando que os EUA serão uma maravilha para o mundo, um país perfeito e bonzinho. Apenas vejo que algo realmente muda na paisagem americana. Ainda bem.
Para terminar, recorro a José Saramago, que publicou um post em seu blog com o qual concordo plenamente. Veja abaixo.
Donde?
By José Saramago
Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito.
Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida.
Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados.
No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.
O poeta Miró da Muribeca, durante uma performance entre goles de cervejas e boas risadas
Miró é um desses cabras porretas que encontramos pela vida. Sujeito bacana, agradável e muito, muito talentoso. Camarada que fica feliz em viver a vida ao lado dos amigos. E da poesia.
Poeta recifense com uma íntima relação com Sampa, Miro é um cronista das cidades, um repórter da poesia. Seus versos brotam das esquinas, dos bares, dos becos, das veias esburacadas vestidas de asfalto.
Miró é um velho-novo amigo que me foi apresentado por outro amigo do peito, o Dom Pixote Edson Lima, do Autor na Praça (da Benedito Calixto, em Pinheiros).
Edson Lima, uma grande figura
>Produtor cultural dos bons, Edson é um apaixonado por literatura. É daqueles que nadam contra a corrente não por achar bonito ser do contra, mas por insistir em seguir o coração, no que ele faz muito bem.
Edson é um devoto da cultura. Uma formiga cujo trabalho – por vezes sutil, que poucos vêem – produz frutos poderosos. Frutos para a cultura, por fomentar atividades vitais que se alastram subversivamente nos corações; para os amigos, por ser sincero e leal.
Mais que isso, Edson é um apaixonado por pessoas. Sua especialidade é conectar uns aos outros. Fazer com que gente interessante se conheça, tornando a vida uma jornada mais saborosa.
E assim conheci, de fato, Miró, com quem tomei contato rápido pela primeira vez há um ano, durante uma tarde sábado em que Edson o levou para um almoço organizado por outro amigo, o Cordeiro.
Um ano depois, Edson me “escala” – é isso mesmo, escalou – para um almoço com Miró. “Ele vai estar aí, vocês vão bater um papo muito legal”. Dito e feito.
Na Benedito, depois de algumas cervejas e bolinhos de bacalhau na barraca da Vera, esposa do Edson (outra pessoa iluminada), segui com Miró para o Museu da Língua Portuguesa, onde ele participaria de um encontro de poesia.
Mais tarde, foi a vez de Miro me apresentar outras grandes figuras – Ricardo, Mile e Silvana. Resumo da ópera: às 4 da manhã, sanduíche no Bar do Estadão, no centro, e a certeza de ter feito novos grandes amigos.
Na hora do apito final, o peito explodiu e as lágrimas escorreram. Não foram apenas umas gotinhas, dessas que pedem licença – foi um choro desbragado, de soluçar, de lavar a alma. Um choro que de tão alegre me fez voltar até um tempo feliz que guardo na memória: a recordação das épocas de menino em que brincava de astro de futebol, driblando a solidão de filho caçula que desenhava jogadas que só eu sabia como eram belas e mágicas.
Nos jogos imaginários na garagem de casa, eu sempre vestia a camisa do time do coração. Eram bordadas à mão pela minha mãe, que unia em vermelho, branco e preto os sentimentos mais valiosos que um ser humano pode dedicar ao outro. As camisas eram de algodão grosso, como não se fazem mais.
As partidas eram disputadas enquanto meu pai e sua Brasília laranja estavam fora, o que significava campo aberto para cobranças de falta na forquilha, cruzamentos de trivela, lançamentos em profundidade.
Foto: Araquém Alcântara
A camisa trazia invariavelmente o 11 às costas – o número do primeiro ídolo do futebol de minha vida. “Ele gosta do Zé Sérgio”, dizia minha mãe, referindo-se a um dos mais habilidosos e ágeis pontas-esquerdas que o futebol brasileiro produziu. Ainda hoje, se o assunto vier à tona, ela certamente se lembrará de tudo isso – e me fará sorrir.
Antes mesmo do apito final soar na partida entre São Paulo e Goiás, lá em Brasília, no Bezerrão, eu também me lembrava das primeiras vezes em que fui ao estádio. Meu pai querido, os três irmãos, mais velhos, cada um ao seu modo um espelho para mim.
Eu tinha cinco anos, mas me lembro bem daquele domingo de sol – que terminou com uma baita chuva – em que a festa deu lugar à desilusão e em que pela primeira vez vi uma multidão chorar. O Tricolor perdera a final do Brasileiro para um outro tricolor, o do Sul – o mesmo que agora disputou com o meu São Paulo o título de 2008.
Enrolado numa bandeira gigante – para mim tudo era gigante -, eu não entendia direito, mas sabia que alguma coisa muito triste havia acontecido diante de meus olhos. Por isso também chorei. Foi assim que aprendi aquilo que depois soube se chamar cumplicidade.
Foto: Caio Murilo
E assim também conheci a tristeza, que tinha um nome – Baltazar, o centroavante do inimigo – e bateu em nossos corações depois de uma matada no peito e um tirambaço da entrada da área. Uma tristeza classuda, de categoria, mas nem por isso menos dolorosa.
Foi ao sabor dessas reminiscências que comemorei o título de campeão brasileiro de 2008 pelo meu São Paulo – campeonato que teve como rival na reta de chegada o mesmo tricolor gaúcho que há 27 anos me apresentou a tristeza. Se naquele domingo de 1981 eu experimentava um dos sentimentos mais marcantes da vida, ao ver o nosso capitão Rogério erguer a taça tive a impressão de descobrir alguma coisa a mais sobre mim.
E assim me senti, pelo menos por breves instantes, como o menino que fazia jogadas incríveis com bolas de meia e tabelava com os próprios sonhos diante de um futuro que se desenhava a cada drible, a cada grito de gol.
O PF está vai passar por uma recauchutagem, como anunciado dois posts atrás. A essência continuará a mesma (cinema, crônicas, literatura, jornalismo, avacalhações). Mas, além de um leve botox e um retoque na maquiagem, a idéia é torná-lo ainda mais dinâmico e desencanado – leia-se mais livre, solto, diversificado.
Dinâmico aqui, contraditoriamente, não quer dizer necessariamente maior quantidade de posts (não tenho conseguido essa proeza ultimamente e será uma batalha consegui-la daqui pra frente). É claro que não ele deve hibernar como agora e retomará a regularidade nas publicações. Mas também não serei uma máquina de posts – nas última semanas, como pretendia mesmo “relançá-lo (qualquer semelhança com as jogadas marketeiras em voga não é mera coincidência), deixei-o dormindo.
O retorno contará com mais cenas da cidade, mais bastidores do jornalismo etc. E gostaria de contar com mais “vozes” no PF: colaboradores amigos que tenham o que dizer. Vamos ver. Os ingredientes já estão no forno. Sugestões e pitacos são muito bem-vindos.
No próximo post vai um “teaser”, como dizem os publicitários, do que vem por aí.
Sarau organizado por amigos do peito. Por falta de tempo, estou um pouco distante das atividades poéticas da turma, mas deixo aqui minha pequena contribuição. Vale a pena!
Amigos de Ponto de Fuga,
os comentários passarão a ser moderados. Fiquem tranquilos, não muda muita coisa, porque as mensagens vão para a rede assim que lidas pelo moderador. Fiquem à vontade para comentar, críticar, meter o pau, cantar, assoviar, falar o que quiserem – o que não vale é proferir ofensas ou enviar mensagens com o claro objetivo de atacar, ainda mais escondido sob o anonimato, como aconteceu aqui um dia desses. É que pousou nessas bandas uma mariposa envenada, disposta a espalhar verbos danosos. Então acionei o inseticida apropriado para situações como essas e está tudo certo.
Abraços
O Autor na Praça organiza homenagem a Raul Seixas na Benedito Calixto, dia 28 de junho, data de nascimento do grande roqueiro. Ponto de Fuga é um dos apoiadores do evento
Raul Seixas nasceu no dia 28 de junho de 1945
Ele já se passou por Elvis Presley e foi a mosca na sopa de muita gente. Vendeu discos de protesto, mandou Al Capone entrar na linha e depois se mandou. Mas, no próximo sábado, o velho Raulzito pega uma carona no trem das sete e retorna para um agito lá na Praça Benedito Calixto (em Pinheiros, São Paulo).
Trata-se de uma homenagem ao grande roqueiro brazuca, que nasceu no dia 28 de junho de 1945 e morreu em 28 de agosto de 1989. Fã incondicional de Raul e parceiro de O Autor na Praça, Ponto de Fuga é apoiador oficial do evento.
José Zaragoza, Ivald Granato e Raul
Organizadapelo projeto Autor na Praça, do produtor cultural Edson Lima, em parceria com o Raul Rock Club, fundado por Sylvio Passos, a tarde contará com sessão de autógrafos dos livros Vivendo a Sociedade Alternativa – Raul Seixas e seu tempo, de Luiz Lima; 10 anos Sem Raul Seixas, de Tiago Sotero e Mirela Barrella; O Sonho da Sociedade Alternativa, de Luciane Alves; Raul Seixas – a história que não foi contada, de Elton Frans.
Além dos autores e de Sylvio Passos, a homenagem ao velho Raul contará com a presença de um punhado de gente porreta, como o músico Edvaldo Santana, grande figura do rock paulistano, o poeta Costa Sena e o cartunistaJúnior Lopes. O escritor e músico Erton Moraes, do Movimento Trokaoslixo, e o produtor cultural Emerson Negão, entre outros convidados, também estarão na área.
Ao lado do amigo Paulo Coelho
E nem pense você, caro comparsa e ilustríssima amiga de Ponto de Fuga, que será um sábado ao som de Maluco Beleza e Gitã. Tá, tá, são grandes sucessos, mas a idéia da jornada na Benedito é o lado B de Raul, destacado por meio de letras, poemas, pensamentos e músicas do fundo do baú.
O cinema também está na agenda. Após o evento, haverá exibição, no Espaço Alberico Rodrigues – na própria praça – do curta-metragem Tanta Estrela por aí, dirigido por Tadeu Knudsen, e de um documentário organizado pelo Raul Rock Club.
Agora, uma promoção barata, oportunista e sem-vergonha deste brog: os 3 primeiros leitores que estiverem lá no dia e disserem a este blogueiro que viram a notícia da homenagem ao Raul no Ponto de Fuga, ganharão uma rodada de cerveja e uma outra surpresa supimpa preparada por este PF. Podem confiar. É para emoldurar e colocar na parede.
Com Marcelo Nova, parceiro dos últimos tempos
Agora, o serviço:
*O Autor na Praça comemora o 63º aniversário de Raul Seixas e os 27 anos de fundação do Raul Rock Club / Raul Seixas Oficial Fã-Clube.
*Espaço Plínio Marcos – Tenda na Feira de Artes da Praça Benedito Calixto – Pinheiros
*Dia 28 de junho de 2008, sábado, a partir das 14h.
*Exibição de filmes: 18h no Teatro do Espaço Cultural Alberico Rodrigues.
*Praça Benedito Calixto, 159 – Tel. 3064 3920.
* Tudo na faixa.
Realização: Edson Lima, Raul Rock Club, Jornal da Praça, Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto, Espaço Cultural Alberico Rodrigues e Max Design.
Apoio: Criart Comunicação, Restaurante Consulado Mineiro, Cantinho Português e Ponto de Fuga.
E agora fique com uma animação feita para pela Fritação Produções para a ótima Loteria da Babilônia, uma de minhas preferidas do saudoso e arretado Raul.
Tinha certeza de que as coisas seriam diferentes. Passou no jornal, no reclame, o Lula falou. Não tinha dúvidas. É a era desse tal deInvestment Grade. O Brasil tá bombando. Parcelamento em 60 X sem juros, sem entrada, sem saída, crédito consignado. Mas só com carteira.
Mas quem tem carteira? A Le Postiche tem. E no camelô também. No Largo Treze, o templo das quinquilharias. Eu jogava bola lá, no Centro Educacional.
Diziam que o técnico, o Eliseu – um cinquentão de meia idade metido a Telê – jogava do lado de lá. Vai saber. Foi no Largo Treze que comprei o disco do Gueto. G-U-E-T-O, uahahhhhhh! O Gueto achava que, nos anos 90, era misturando que a gente inventa. Não é solução, mas é uma bela rima.
Que importa? Importa que eu queria ser o Zico, Zé Sérgio, Pitta. Ou quem sabe o Careca. Me lembro do gol dele contra o Guarani, no final da prorrogação. O brinco de ouro despencou da orelha de princesa.
Eu queria ser o Careca. Fazer gol e imitar o Sinhozinho Malta, no Morumbi, eletrizar as multidões. Eu queria ser o Careca! Sei lá de onde surgiu essa conversa cabeluda, mas o fato é que o Careca é amigo do Maradona. E não se fala mais nisso.
Certas passagens da vida nos levam a um questionamento vital: o que fazemos de nossos dias? O que motiva nossas atitudes? Qual o papel do trabalho, da família, dos amores, dos amigos? Para onde conduzimos nossa vida? Ou não conduzimos e somos barco à deriva, ao sabor dos ventos?
Na maioria das vezes, são as circunstâncias adversas que disparam esse olhar interior. À parte o sofrimento do primeiro instante, é por meio desse movimento – o de olhar para si, investigar-se em meio ao turbilhão e se perguntar o que queremos para nossa vida – que podemos recobrar o valor daquilo que realmente importa e faz sentido. Assim os dias podem ser mais coloridos e saborosos.
Foto da web
Uma das coisas mais tocantes que li a esse respeito foi escrita por Ignácio de Loyola Brandão em A Veia Balarina(Global Editora), livro de 1997. Li-o há uns quatro, cinco anos, mas não me esqueço. No livro, o grande escritor narra como foi descobrir que uma artéria em seu cérebro poderia explodir a qualquer momento: ele tinha um aneurisma cerebral. A veia bailarina do título bela metáfora para aquela pequenina veia que se esquiva da agulhada, tem vontade própria a e diz “comigo não” Trata-se de um livro sobre a dor, o medo, as perdas acumuladas ao longo da vida, mas também sobre o recomeço, a redescoberta da existência
Cartier-Bresson
Vejam o seguinte trecho:
“De um episódio em que convivi com a possibilidade da morte, tirei uma lição das mais elementares. Descobri o essencial: a minha vida é esta, deste jeito. Vou vivê-la assim, com o que tem de bom e ruim, com alegrias e inquietações, sofrimento e felicidade, encargos, chatices, encontros e desencontros.
Ser contemplativo, sem perder a agressividade que me estimula a produzir, criar, andar em busca do sonho. Tentar não me deixar envolver pela mecanicidade, olhar para os outros, medir a intensidade do problema deles e a dos meus.
Viver a vida minha maneira e não ficar preocupado em mostrar apenas meu lado bom, a minha face fotogênica, porque isso acaba gerando uma tensão constante, uma preocupação em não me deixar apanhar desprevenido.
Cartier-Bresson
Não ter medo de me mostrar frágil. Fazer o que posso e tenho capacidade para fazer, não tentar corresponder a imagens ou realizações que esperam de mim. Devo saber o que esperar de mim, conhecer meus limites e minhas possibilidades.”Para encerrar: Loyola Brandão superou o problema de saúde e continua a nos presentear com belas crônicas e romances.
Longa foi premiado na Quinzena dos Realizadores, Cannes, 2007
Ainda na levada inglesa: Control, longa-metragem sobre Ian Curtis, vocalista da banda inglesa Joy Divisionque se suicidou aos 23 anos, não é uma cinebiografia bobinha, dessas que descartamos ao final de duas horas.
Ian Curtis gostava de David Bowie e Iggy Pop
Se convencional na forma, tem o mérito de levar para as telas, com competência, a arte atormentada de um jovem que não agüentou o peso de si mesmo. Despe a pele do astro para nos relevar, numa bela fotografia em preto e branco, a complexa alma de um homem cindido.
A bela Alaxandra Maria Lara faz Annik, amante de Curtis
Control é capaz de calar fundo, especialmente aqueles que se fizeram ouvindo Joy Division e, depois New Order, formado pelos remanescentes do grupo após a morte de Curtis, em 1980. É o meu caso. Para quem não ouviu ou não curte a banda, ainda assim vale o ingresso. É cinema, antes de tudo.
Riley, à esquerda, interpretou Curtis de modo impecável
De quebra, Control captura um pouco do espírito de desalento pós-contracultura, os ecos do punk, no final dos 70 e início dos 80, misturado à energia de uma juventude que queria explodir, mandar tudo às favas e fazer rock and roll. Anton Corbjin, diretor do filme, foi fotógrafo do Joy Division e fez videoclipes de várias bandas, entre as quais Depeche Mode e U2.
Cena do filme: Banda foi criada em 1976, em Manchester
Sam Riley, que interpreta Curtis, está simplesmente impecável. Não sei o que diriam os outros fãs da banda, mas, nas performances exibidas no filme, pareceu-me ver o próprio Curtis, assim como o fez Val Kilmer na pele de Jim Morrisson
em The Doors (Oliver Stone, 1991).
Cena: Curtis se suicidou pouco antes de turnê para EUA
Segundo o UOL, as músicas de Joy Division apresentadas no longa (as ótimas Love will tear us apart, She´s Lost Control e Transmission etc) são tocadas pela própria banda que está em cana, com o Riley nos vocais.
Última: Peter Hook, baixista do New Order, parece que não gostou do filme. Veja aqui.
Eu quero quem sabe /o segredo da madrugada / o desvelo, o sexo, uma jangada / Eu quero talvez o incerto,o incesto /o cerco dos laços de cetim/ E assim me vou: desnudando o olhar da libido / Embebendo em sigilo o orvalho de seu rosto.
Da liberdade de abrir as próprias veredas, sair da trincheira, pé na estrada. Da liberdade de olhar o futuro, sem amarras, conhecer fraquezas e desejos, defeitos e virtudes. Da liberdade de sorrir à toa. Da redescoberta, da desconstruçãoque edifica. Da liberdade de cantar em silêncio. Da liberdade de existir, simplesmente.
Lá pelos meus 15 anos: Galeria do Rock, rua 24 de maio, São Paulo. Sempre. Cabelos encaracolados, caindo pelos ombros. Boné do Rush e camiseta do Deep Purple – ou do Led. Janis, Hendrix, The Doors. E também Beatles e Rolling Stones. Pink Floyd. Ramones também me caia bem.
Seguia para lá à tarde, depois da escola. Seco por um disco. Às vezes novo, às vezes velho de dar dó. Ou fita cassete gravada. Pagava o equivalente a R$ 5 o lado de fita com o disco que me fazia a cabeça. Fosse como fosse, aquele chiado era meu entorpecente. Um garoto a descobrir o mundo, a descobrir a si próprio. No compasso do rock, a rebeldia à flor da pele.
E tudo era rock. Meus olhos, pés, membros, ouvidos, boca. Meu mundo tingido de púrpura, diamonds, blue sky mine, e rolava de tudo um pouco na trilha daqueles dias.
E depois ficou pesado: de Iron para cima. Halloween, Metallica (do Justice for All pra trás), Judas Priest. E quando eu descobri AC/DC, que energia. Anos mais tarde, apaguei no Pacaembu, pouco antes do show de Angus Young, depois levantei e pulei feito um cabrito. Não esqueço nunca mais. Bons tempos.
Dia desses, irei novamente à Galeria. Está mudada, eu sei, ainda vou de lá tempos
em tempos. Até mesmo as escadas rolantes, que ficaram mumificadas uma eternidade, funcionam novamente.Irei num sábado, com parada no Bar do Léo, para um chope, como já fiz muito.
Está na hora. Saudades de mim. Reminiscências do futuro. Meu sangue pulsa de novo, caudaloso, subindo a corredeira – com força, o meu sangue. Meu sangue sedento de algo que não sei que é. Um pedaço de mim esquecido na estrada. Algo que eu exibia em meus olhos, mas que hoje pode perfeitamente estar em minhas mãos sem que eu perceba o impacto de seu brilho, a vitalidade de sua imponência.