Quando um poema nos arrebata

Reprodução(TantU de Arte, UFMG)

Adriana Calcanhoto, uma de minhas artistas minhas prediletas há muitos e muitos anos, disse que ficou chapada quando conheceu o poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, poeta que também admiro e leio de tempos em tempos.

E eu digo: ao tomar contato com o texto, fiquei não só chapado, mas completamente absorto, consumido, entregue.

O sentimento foi reforçado porque o conheci a partir da música de Adriana, também de uma beleza arrebatadora.

Isso aconteceu minutos antes de escrever este texto – como, sendo fã e me considerando um bom conhecedor do trabalho de Adriana, nunca tinha ouvido essa versão tão linda?

Embora leia Gullar, não o conheço em profundidade, o que não impede de pensar: como não conhecia um poema magistral como esse?

É isso o que se sente quando a Arte nos toca de modo tão profundo.

O texto – logo abaixo está o vídeo com a música.

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

Sonhadores

Temos tantos sonhos, tantos planos – mas quantas bocas tem a noite? E quanto céu teremos ao amanhecer? Eu tenho fome, mas a carne é triste. Eu tenho sede, e o mundo parece tão grande. Me espera – me espera que eu vou. Estava apenas olhando as estrelas.

Incursões poéticas na querida Cidade Ademar

Sarau organizado por amigos do peito. Por falta de tempo, estou um pouco distante das atividades poéticas da turma, mas deixo aqui minha pequena contribuição. Vale a pena!

Samba sobre o infinito

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Sem rancor e sem saudades, ele disse adeus e partiu. Sem nada, sem olhar pra trás, apenas o gosto da despedida. Decidiu então fazer, de algum jeito ele ia fazer um samba sobre o infinito. Como se fora o sambista, acariciaria a dor em mil compassos e em seguida se recolheria ao silêncio.

Não disse palavra nem se arrependeu – talvez somente por se deixado no mar das ilusões. “Uma pausa, por favor, para um amor descontraído”, era o que dele agora se ouvia.

Dançou aquela dança com passos enternecidos, à espera, depois navegou  como se o mar fosse grande demais e mesmo assim não comportasse o peso de suas lembranças.  

Das lembranças e descobertas

Me lembrava de você. – É? e eu de você – olhar suave, uma elegância só. E você um pouco mais velho, veterano, digamos assim. - Não muito, e aqui estamos de novo; o que fez nesses anos? Viajei pelo mundo, tantos mares.  – Posso ver ondas em seus olhos. Muito trabalho, mas também foram tempos de flores. – Me acompanha em mais um chope?

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Ateliê das almas

Daquele momento em diante, não mais o vale das sombras, o temor do que não foi. Mesmo que já fosse tarde, do silêncio fiz meu canto, e do orvalho de meus olhos a cura de minha sede. Agora solto a voz, com fome, como se fora o último grito, a última prece. Seus faróis iluminam meus pés, minha paixão de viver. Eu tinha sede, mas não encontrei água.  

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Mar grande

Deram-se as mãos, serenamente.

Velas ao mar, e depois navegaram-se noite adentro.

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O intervalo do olhar

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Jean Seberg e Jean Paul Belmondo, em Acossado, de Godard

Vamos marcar, sim. Onde iremos? Conversar, sair por aí. Claro, assunto é o que não falta – sem chance para monólogos. Lembra daquele tempo? Mal nos conhecíamos. De vista, apenas. Corredores; um sonho de primeira página. Mas aqui estamos de novo. Anos depois. Com histórias na bagagem, uma imagem feliz de mulher. Um coração que sorri. A sutileza no intervalo do olhar.  

Eu fui com Jane Birkin

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Jane Birkin esteve em São Paulo.   A foto acima é de show em Montevidéu

 

Com um charme irresistível, ela bailou pelo palco, passeou entre as mesas, distribuiu sorrisos. E cativou corações. Chanson regada à jazz. Vestida para um café entre amigos, sem afetações. Jane Birkin, a musa de Je t’aime … moi n’on plus, o amor de Serge Gainsbourg, a mãe de Charlotte – a estonteante do primeiro nu frontal do cinema. Blow Up, de Antonioni.  Jane Birkin, a mesma que me levou longe, me fez voar, esquecer do tempo.

O céu é o espelho dos famintos

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Intensidade

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Eu quero quem sabe /o segredo da madrugada / o desvelo, o sexo, uma jangada / Eu quero talvez o incerto,o incesto /o cerco dos laços de cetim/ E assim me vou: desnudando o olhar da libido / Embebendo em sigilo o orvalho de seu rosto.  

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