Adriana Calcanhoto, uma de minhas artistas minhas prediletas há muitos e muitos anos, disse que ficou chapada quando conheceu o poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, poeta que também admiro e leio de tempos em tempos.
E eu digo: ao tomar contato com o texto, fiquei não só chapado, mas completamente absorto, consumido, entregue.
O sentimento foi reforçado porque o conheci a partir da música de Adriana, também de uma beleza arrebatadora.
Isso aconteceu minutos antes de escrever este texto – como, sendo fã e me considerando um bom conhecedor do trabalho de Adriana, nunca tinha ouvido essa versão tão linda?
Embora leia Gullar, não o conheço em profundidade, o que não impede de pensar: como não conhecia um poema magistral como esse?
É isso o que se sente quando a Arte nos toca de modo tão profundo.
O texto – logo abaixo está o vídeo com a música.
“Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?
Yasgur entrou para a história de Woodstock por um desses acasos do destino, e de forma dramática.
“Seja qual for a versão, não fosse a gentileza do fazendeiro de leite Max Yasgur não teria havido Woodstock”, escreve Fornatale em seu livro.
O que está escrito abaixo foi retirado da obra de Fornatale.
1-Desespero - Quatro semanas antes abertura do festival, a licença para a realização do evento no local original, numa região chamada Wallkill, foi retirada – é necessário lembrar que, naqueles tempos, essa história de sexo, drogas e rock and roll arrepiava os cabelos das boas famílias e autoridades, sejam elas quais fossem.
“Pânico é a palavra para o que sentimos”, afirmou Michael Lang, produtor executivo do festival.
Site de Woodstock Lang e Yasgur
2-O salvador da pátria – Quem livrou os produtores do desastre foi um fazendeiro de leite chamado Max Yasgur, um dos heróis (quase) anônimos de Woodstock. Dono de uma fazenda de 240 hectares na cidade de Bethel que reunia as condições necessárias para abrigar o festival, ele foi descoberto, depois de muita procura, pelos produtores. Resolveu então alugar o espaço, mesmo com as reações nervosas de membros da comunidade local, que queriam a todo o custo impedir os shows.
3- Preço salgado - Ok, Yasgur não era uma alma caridosa disposta a contribuir de graça com a felicidade dos hippies. Ele cobrou uma fortuna para ceder a fazenda. “Em vez de US$ 7,5 mil (proposta inicial dos organizadores), pagamos a ele US$ 75 mil”, disse John Roberts, fundador de Woodstock que financiou o festival, sobre o valor inflacionado que Yasgur cobrou pelo aluguel.
Reprodução web Estima-se em 500 mil pessoas o público de Woodstock
Mas, fechado o negócio, Yasgur segurou a bronca, que foi forte, e deu de ouvidos para as vozes contrárias à realização de Woodstock. “Vocês foram prejudicados – acho uma besteira essa guerra de gerações que está acontecendo. Posso ajudá-los, porém sou um homem de negócios e isso vai ter um custo para vocês”, falou Max Yasgur aos produtores.
Divulgação Eugene Levy interpretou Yasgur
em “Aconteceu em Woodstock” (Ang Lee)
4 – Deixa os garotos se divertirem - Eis o que diz Sam Yasgur, filho de Max, sobre a postura do pai: “… alguns vizinhos tiveram uma postura extremada contra os assim chamados hippies que vieram à parte oriental do condado de Sullivan. E aquilo aborreceu papai.
Lembro de dizerem que não gostavam do pessoal por causa da aparência e meu pai respondia que também não gostava do visual deles, mas que isso não era o mais importante – eles estavam protestando contra a guerra e milhares de soldados haviam morrido para que aqueles jovens pudessem fazer exatamente o que eles estavam fazendo, e essa era a essência da América”.
Reprodução web Max Yasgur em Woodstock
5 – Falando para meio milhão – No festival, aquele que para alguns poderia não passar de um caipira desengonçado, fez um discurso marcante no palco, para meio de milhão de pessoas.
“Eu sou um fazendeiro. Eu não sei – eu não sei como falar para vinte pessoas ao mesmo tempo, o que dizer de uma multidão dessas. Mas acho que vocês, jovens, provaram uma coisa ao mundo. Não apenas à cidade de Bethel ou ao condado de Sullivan. Vocês provaram algo ao mundo.
Este é o maior grupo de pessoas já reunido num lugar. Não tínhamos ideia de que iria haver um grupo desse tamanho e, por causa disso, vocês tiveram alguma inconveniência com água, comida e outras coisas. Os produtores fizeram um esforço monumental para tomar conta de vocês. Eles apreciariam um obrigado.
Mas acima disso, a coisa mais importante é que vocês provaram ao mundo que meio milhão de garotos – eu chamo vocês de garotos porque tenho filhos mais velhos que vocês. Meio milhão de jovens podem ficar juntos e não vai haver nada além de diversão e música. Deus abençoe vocês”.
Veja o trecho do documentário sobre Woodstock, dirigido por Michael Wadleigh, com o discurso de Max Yasgur.
Ponto de Fuga mantém com o maior prazer a tradição deste blog: a cada 8 de janeiro, uma homenagem, por mais simples, aos aniversariantes ilustres cujos sons, personas, ideias, loucuras me fazem a cabeça. Viva Bowie e Elvis!
Ponto de Fuga está de volta. O blogueiro deixou esse recanto de lado por excesso de trabalho nos últimos meses. Uma pouca vergonha, sei. Mas, como diria o Frejat, “agora o rock and roll vai rolar aí e vai direto”.
Ano novo, blog renovado. Comecemos por reativar os posts. Nos próximos dias haverá novidades no visual do PdF. E assim vamos.
É hora de Woodstock
Primeiro post do ano vem em ritmo de sexo, drogas e rock and roll, motivado que estou pela leitura do livro “Woodstock- 40 anos depois, o festival dia a dia, show a show, contado por quem esteve lá”, de Peter Fornatale (Editora Agir).
Falar em Woodstock pode parecer a coisa mais batida, mais surrada, mais bicho grilo que se imagina.
Bom, talvez seja mesmo – ou não. O festival de música mais marcante de todos os tempos sem dúvida já foi muito repisado. Mas, debaixo da cortina de fumaça (juro que não é trocadilho), há ótimas histórias e personagens.
Jornalistas se revoltaram no NYT
Para começar a brincadeira, selecionei uma curiosidade sobre Woodstock que todo amante do rock – e também quem passa longe dos três acordes – vai gostar de saber. Está no livro que citei acima.
Houve uma batalha nos bastidores do The New York Times em relação à cobertura do festival feita pelo jornal.
Assustador para o establishment americano, o que inclui a grande imprensa, o festival foi alvo de um editorial nervoso do jornal. O título diz tudo: “Pesadelo em Catskills”, referindo-se ao evento. “Que tipo de cultura pode provocar uma confusão colossal dessas?”
Os repórteres que cobriam Woodstock pelo Times protestaram contra a direção do jornal. Os jornalistas foram à sala de Arthur Sulzberger, o manda-chuva do Times, e não pestanejaram: “Estamos pedindo demissão”.
Eles diziam que o editorial distorceu o espírito de Woodstock e foi diferente das informações que eles produziam sobre o festival. O Times fez então um segundo editorial, desta vez bem diferente.
“Eles foram (o público), ao que parece, para desfrutar sua própria sociedade, livres para exultar no estilo de vida que é sua própria declaração de independência”, dizia o novo editorial.
Aguardem novas doses de paz e amor enquanto eu ouço “Soul Sacrifice”, com Santana.
Quando avistou John Lennon em frente ao edifício Dakota, no dia 8 de dezembro de 1980, Mark David Chapman chamou baixinho “senhor Lennon” e então disparou cinco tiros contra o músico.
Yoko veio gritando “Atiraram em John”. O porteiro tentou socorrer. Inútil. Ele próprio tirou os óculos de John e cobriu o astro com uma jaqueta.
Chapman não saiu correndo nem se matou. Encostado à parede do Dakota, calmamente lia “O Apanhador no Campo de Centeios”, de J.D. Salinger.
O marinheiro Alf e a cantora diletante Julia fizeram amor no chão da cozinha de casa. Foi em algum dia de janeiro de 1940, em plena guerra. A gravidez, inesperada, foi desalentadora para o casal. “Noventa por cento das pessoas da minha geração nascer…am da garrafa de uísque numa noite de sábado, e não havia nenhuma intenção de se ter um filho”, diria muitos anos depois o fruto dessa relação – um homem chamado John Winston Lennon. Na primeira noite após seu nascimento, um mina terrestre explodiu perto da maternidade, e a mãe o colocou debaixo da cama por medida de segurança.
Essas histórias estão no livro “John Lennon – a vida” (Companhias das Letras), de Philip Norman. Vale a pena enfrentar o catatau de 839 páginas.
Dois exemplos clássicos (seriam os únicos?) de “rooftop concert”.
Há 40 anos, no dia 30 de janeiro de 1969, os Beatles subiam ao terraço do prédio de sua gravadora, a Apple, para aquele que seria o show de despedida da banda.
A histórica apresentação no terraço do prédio da gravadora Apple
Embora as pessoas costumem lembrar dos Beatles quando o assunto é rock no telhado, justiça seja feita: nosso glorioso Robertão realizou a proeza antes dos garotos de Liverpool. Foi em 1968, com o lançamento de “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. O hit foi a sensacional “Quando”. Com direção de Roberto Farias, que também assina o roteiro ao lado de Paulo Mendes, o longa traz Reginaldo Faria e José Lewgoy no elenco.
Show intimista de Cat Power combinou com a noite chuvosa de São Paulo
Sob luzes azuis e roxas, ela subiu ao palco pouco depois das 22h. Nada de telões e fotos com flashes – colocado sobre um dos amplificadores, um incenso espalhava fumaça por entre os instrumentos. Havia um clima intimista e aconchegante no ar.
Enquanto ajeitava o microfone, a saudação tímida e carinhosa. “Oi”, disse baixinho e em português, com um sorriso. Olhava para baixo, como se fora aquela menina nova do colégio com quem trocávamos as primeiras conversas e nos apaixonávamos em seguida. Foram suas únicas palavras dirigidas ao público durante o show.
Vestia calça escura – seria jeans? -, camisa e uma gravatinha preta, afrouxada. Luvas que deixavam os dedos à mostra. Nada de grandes gestos, mas sim a sutileza dos detalhes.
Embora precário, esse vídeo captado por um expectador durante
o show de ontem serve como registro. A música é Metal Heart
Foi imerso nessa atmosfera de introspecção, cuidadosamente desenhada pela produção, que vi o show de Cat Power em São Paulo. E assim tive a sensação – é a minha viagem, nada mais – de que estava ouvindo Robert Johnson ou Bob Dylan na jukebox de um bar vagabundo ou perambulando por aí numa das tantas madrugadas.
Foi tudo um grande blues, posso dizer. Não necessariamente pelas músicas, porque não é apropriado dizer que o repertório de Cat seja feito pelo som do Mississipi ou o folk, embora sejam essas algumas de suas influências. Mas sim pelo espírito, pelo clima pé na lama, pelos gritos e sussurros capazes de aquecer a alma numa noite de frio.
O que mais poderia dizer depois de ouvir Don´t explain, marcada na voz Billie Holiday, ou Metal Heart, ambas presentes em Jukebox, o álbum mais recente de Cat?
E este vídeo aqui, também da lavra de algum fá, mostra a última música do show, Angelitos Negros, e a despedida calorosa da musa indie
A viagem terminou com uma Cat sorridente, feliz, distribuindo rosas brancas para a plateia, que, entregue, a aplaudiu de pé por vários minutos. Nesses instantes, nossa cantora já não estava apenas no canto do palco. Andando de um lado a outro para cumprimentar as pessoas, Cat Power, pelos menos naquele momento, era a perfeita tradução de uma pessoa feliz.
Charlyn Marie Marshall nasceu em Atlanta (EUA) em 21 de janeiro de 1972. No início da década de 1990, foi morar em Nova York, onde fez seu primeiro show – em um pub no Brooklin – e adotou o nome de Cat Power. Seu primeiro disco (Dear Sir) foi lançado em 1995. Assim começou uma carreira virtuosa que coleciona oito álbuns, dos quais Jukebox, de 2008, é o mais recente.
Clipe de Maybe Not
Este disco e The Greatest (2006) devem compor boa parte do repertório de Cat Power no show deste sábado, no Via Funchal, aqui em São Paulo. Show que aguardo com muita ansiedade. Cat Power é uma companhia inseparável para mim nos últimos três ou quatro anos, ao lado de Leslie Feist e Regina Spector. Companhia para momentos alegres, outros nem tanto ou para instantes em que desejo simplesmente parar e ouvir boa música.
Cat Power tocando Crying, Waiting, Hoping
Paradoxalmente, trata-se de uma mulher extramente tímida e exibicionista, segundo a jornalista Elizabeth Goodman, que escreveu A Good Woman, biografia não autorizada de Power – o título se refere à canção homônima de Cat, lançada no disco You Are Free (2003) . Cat não queria que seu passado de dependência do álcool fosse revirado.
No campo musical, John Coltrane, Billie Holiday e Robert Johnson estão entre as principais referências de Cat, que, eclética, transita entre o indie, rock, blues, jazz.
A música de Cat Power é simples e refinada. Emociona já nos primeiros acordes.
Lived in Bars, uma das mais belas da cantora americana
Feliz coincidência. Alguns post atrás falei do Fellini (basta rolar a tela para baixo um pouco para ler), grupo paulistano de rock dos anos 1980. E eis que agora fico sabendo pela Adelle que eles farão show do Studio SP, dia 22 de julho, às 22h.
Este é um post-homenagem: 13 de julho, Dia Mundial do Rock and Roll. Ok, ok, é só uma data.
Mas é um motivo a mais para que os três acordes invadam nossos ouvidos e, assim, tenhamos uma ótima semana.
Roubei o título do post do Frejat, que disse essa frase no histórico bolachão “Barão ao Vivo”. Entrou para o folclore do rock brazuca. Por mais simples que seja, diz muito sobre o espírito roqueiro.
Bom, agora dancemos com os demônios dos Stones: Sympathy For The Devil.
Capa de “The Freewheelin`Bob Dylan”, segundo disco do velho Bob
Passei boa parte da tarde deste domingo viajando ao som do velho Dylan. “The Freewheelin`Bob Dylan”, seu segundo álbum, de 1963, que emplacou Blowin´in the wind.
Canções como “Masters of War” nos lembram que continuamos a viver sob a ameaça de certos senhores, assim como “I shall be free” mostra que o bom humor é uma arma poderosa. “Bob´s Dylan dream” nos confronta com a certeza de que envelherecemos e que muitos amigos ficam ao longo do caminho.
Viagem deliciosa, que acalma e revigora.
“Don´t think twice, it´s all right”
Uma canção sobre o momento em que se diz adeus
“Girl From The North Country”
E esta trata da lembrança carinhosa de um amor do passado
Capa de “O adeus de Fellini”, de 1985, primeiro disco da banda paulistana
Na cena musical, a década de 1980 no Brasil é lembrada pela explosão do rock como fenômeno cultural, midiático e de indústria. Os nomes eram Legião Urbana, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e, em São Paulo, Ultraje a Rigor e Titãs, apenas para citar alguns casos.
Todas essas bandas começaram nos becos e atingiram o estrelato. Mas houve quem escrevesse toda a sua história fora dos holofotes, o que não significava necessariamente não ter atributos para figurar no primeiro time. Quem fica nas sombras às vezes vira cult.
É o caso da banda Fellini.
Grupo toca Last Samba ao vivo na boate OFF, Sao Paulo, por volta de 1987 e 1988
Acostumado a plateias de 30 pessoas, como diziam seus integrantes, o grupo é um típico produto paulistano da década perdida. Em Sampa, mesmo nos anos de globalização incipiente e com o Brasil fechado cultural, política e economicamente, era possível ouvir os ecos da cena roqueira internacional, especialmente a europeia. Pois vinha do Velho Mundo a grande inspiração do Fellini, fundado em 1984 e encerrado em 1990 – houve um revival no início desta década, mas nada muito duradouro.
Pós-punk, new wave, samba eletrônico, rock de vanguarda: tarefa ingrata definir o Fellini. E seria bobagem entrar nessa onda. O importante é que a banda marcou época na cena independente paulistana dos anos 1980 com letras enigmáticas e composições desconcertantes. Centro Cultural São Paulo, Lira Paulistana e Madame Satã eram alguns dos palcos do Fellini.
Os integrantes do Fellini
Você deve pensar com o seu mouse porque cargas d’água este missivista 2.0 tirou da cachola a ideia de um post sobre esse grupo que nunca tocou no Chacrinha. Simples: porque no sábado estive na Baratos Afins, lendária loja de discos da Galeria do Rock cujo selo nos deu a oportunidade de ouvir em casa os LPs de Voluntários da Pátria, Salário Mínimo, Golpe de Estado, Itamar Assumpção, Bocato, A Chave do Sol, Patrulha do Espaço e…Fellini.
Vi os álbuns remasterizados dos caras e não pensei duas vezes: tasquei 20 merréis em um único CD que reúne os dois primeiros discos da banda de Cadão Volpato, Jayr Marcos, Ricardo Salvaqui e Thomas Pappon: “O Adeus de Fellini” (1985), o de estreia, e “Fellini Só Vive 2 Vezes” (1986). Outros três trabalhos foram lançados: “3 Lugares diferentes” (1987), “Amor Louco” (1989) e “Amanhã é tarde” (2002), já no clima de revival. Somente o último não foi lançado pela Baratos.
“Chico Buarque Song” tem ou não a pegada do Joy Divison?
Conheci o Fellini em 1995 quando pilotava as pick ups de um programa de rock na Rádio XI, emissora livre (pirata, diriam alguns) ligada ao Centro Acadêmico XI de Agosto, da São Francisco (USP). O estúdio ficava no terraço da Casa do Estudante, edifício cujas janelas davam para o Minhocão ( opa, foi sem maldade!) e abrigava de tudo um pouco em seus corredores.
O culpado por me apresentar ao Fellini foi o Rodney Brocanelli, amigo que comandava uma atração de rock independente lá. É do próprio Rodney as entrevistas com o vocalista Cadão Volpato, jornalista (ex-Veja, Época e Metropólis), e Thomas Pappon, baixista, disponíveis no blog A História Oral do Fellini. Outro texto que fornece um bom panorama sobre o grupo é o B* Scene.
Separei para este post uma entrevista com o Cadão feita pelo Thunderbird, ex-MTV. Também sugiro os vídeos com apresentações da banda, um pouco mais acima. Direto do túnel do tempo. Graças ao YouTube.
Bom, agora vou ouvir sosssegamente o grande hit (!) da banda, “Rock europeu” (rock europeu/ rock europeu/ um punk varrendo/ palácios e cores que falham/ Você nem imagina o que não conheceu/ agora é tarde é tarde/ meu saco já encheu”).
Entrevista de Thunderbird com o vocalista Cadão Volpato
Era a bicicleta, tinha de ter uma explicação. Para fazer aqueles sons pirados e sensacionais, que misturavam rock, jazz e erudito, não podia ter começado de uma maneira, digamos, convencional.
Mas não sei se o mais inusitado é o Zappa tocar bicicleta ou vê-lo de terninho, cabelinho cortado e barba feita num programa de auditório.
* ouvia Michael Jackson quando criança;
* imitava a dança dos passos;
* não perdia um concurso de imitadores de Michael Jackson no programa do Barros de Alencar, na Record, sábado à tarde;
* é óbvio que tinha o bolachão de Thriller, que ouvia sem parar.
Michael Jackson no The Jackson Five, o início do astro
* e quando cresceu continuou a gostar – só que de Bad em diante a coisa ficou trash. Mas o astro já tinha cumprido sua missão artística.
* assistiu hoje várias ao clipe de Thriller, dirigido por John Landis, e mais uma vez achou aquilo sensacional. Como cinema e como música.
Emerson Calegaretti comanda a operação do site de música,
que fechou as portas no País
Um dos responsáveis diretos pela fundação do Google e do MySpace no Brasil, o nome de Emerson Calegaretti é bem conhecido no meio digital. Como jornalista que cobre a área digital, acompanho as empresas que comanda ou comandou, embora só tenhamos nos conhecido pessoalmente na semana passada, quando ele fez uma ótima palestra sobre redes sociais no curso de comunicação digital da ESPM (leia mais no post sobre Paulo Henrique Amorim e sobre os protestos no Irã, nesta mesma página).
Ao final do encontro, meu amigo Gil Giardelli, curador do curso (veja mais no blog dele), me apresentou ao Calegaretti, a quem pedi uma entrevista (que seria em vídeo, para o blog). Convite prontamente aceito. Faltava apenas agendar a data.
E veja como são as coisas, amigo do Ponto de Fuga. Sujeito atencioso e alto astral, Calegaretti se vê agora diante de um momento delicado, uma semana depois.
Ele é diretor-geral do MySpace, uma das maiores redes sociais do mundo e que anunciou há poucos dias que encerrará atividades no Brasil. A companhia controlada pelo magnata da mídia Rupert Murdoch cortou 30% da força de trabalho nos EUA e passou a faca em suas demais operações espalhadas pelo mundo.
Empresa cortou 30% da força de trabalho nos EUA
Destaco aqui a postura do Calegaretti diante do episódio. Em vez de se resumir a uma comunicado frio e impessoal, assinado pela corporação, ele optou por fazer um post no MySpace para explicar aos usuários do site e aos demais interessados o que se passa com a companhia no Brasil. Em primeira pessoa, diga-se.
Pode parecer pouco, mas não é, se observarmos como costumam se comportar executivos de grandes corporações diante de obstáculos desse porte.
“Muitas coisas ainda estão por resolver por aqui. Mas sem crise. Já tive tempo de dar vários rolês de moto que deixaram minha mente limpa. Mais ainda, tive todo o amor da minha família e amigos para reforçar isso”, escreveu em seu blog no MySpace (veja aqui).
Site continua a operar em português, mas
sem produção de conteúdo
Deixo aqui um compilado de sua palestra. Em seguida, a apresentação dele no curso da ESPM.
• As redes sociais digitais são importantes porque mudam a relação das pessoas com a cultura, consumo, economia, política e família etc.
• A Geração X (a que cresceu com a internet) é composta por jovens conectados, que valorizam muito a opinião dos amigos, buscam satisfação instantânea, querem encontrar conteúdo ou entretenimento quando, como e no lugar que desejarem e não se submetem a hierarquias rígidas.
• Uma empresa, entidade ou pessoa física que queira ter uma atuação eficiente nos canais digitais precisa saber qual sua reputação na rede (o que dizem de você nos sites, blogs etc). No caso das companhias, também observar o que dizem de seus concorrentes.
• A comunicação de Obama foi eficiente porque sua mensagem catalisou sentimentos opostos aos que Bush despertou. Depois de o presidente da guerra ter acirrado os ânimos do mundo contra os EUA, visto como beligerante e dominador, Obama se colocou como agente da mudança, da esperança, do diálogo. E o digital foi a aliado nesse objetivo. Ele usou seu site e redes sociais digitais para iniciar uma conversa com a população, especialmente os mais jovens.
• Um projeto de comunicação na rede precisa ser constante. Não adianta criar uma ação hoje e amanhã engavetá-la.
Bill Evans, pianista de jazz que bebeu da fonte de Debussy, Ravel e Chopin, disse que em Kind of Blue, talvez a maior obra-prima de Miles Davis, “você irá escutar algo que está próximo da pura espontaneidade”. Davis tocou Charlie Parker ( à esquerda) no início da carreira
“O grupo nunca havia tocado estas peças antes da gravação, e creio que, sem exceção, a primeira interpretação completa de cada uma foi tomada como um take”, escreve Evans no prefácio do livro “Kind of Blue: a História da Obra-Prima de Miles Davis” (Barracuda), de Ashley Kahn. Tenho o prazer de ter este livro, importado, que comprei por volta de 2002 – a edição em português veio alguns anos depois.
John Coltrane, Cannonball Adderley, Miles Davis e Bill Evans durante
as gravações de Kind of Blue
Integrante do grupo Davis no período, Evans participou de Kind of Blue ao lado de John Coltrane (sax tenor), Julian “Cannonball” Adderley (sax alto), Paul Chambers (contrabaixo) e Jimmy Cobb (bateria).
Último trabalho de Davis, Doo-Bop
é tido como precursor do acid jazz
Mais palavras e Evans:
“A improvisação em grupo coloca um desafio a mais. À parte o problema técnico de pensar coletivamente de modo coerente, existe a necessidade muito humana, social até, de que a simpatia por parte de todos os integrantes se coadune em prol de um resultado comum. Penso que esse difícil problema é lindamente abordado e solucionado nesta gravação”.
O vídeo abaixo traz performance de All Blues, presente no álbum. Mas trata-se de uma apresentação da década de 1960 e com uma formação na banda diferente da que tocou em Kind of Blue. Tem Ron Carter no baixo, Herbie Hancock no piano e Wayne Shorter no sax. Em todo caso, é uma ótima peça para degustação sonora coletiva.