Podcast na CBN com este blogueiro sobre Apple e iPad

Comentários deste missivista 2.0 na rádio CBN sobre como funciona a estratégia de rumores para a promoção de produtos da Apple. E o papel de Steve Jobs em tudo isso.

Acesse por aqui: CBN – A rádio que toca notícia – CBN Tecnologia da Informação.

“Sueña. Sí se puede”?

A vitória acachapante sobre los hermanos me fez lembrar um comercial da DDB México.
Os argentinos poderiam aproveitar a ideia. Que tal um filme com a seleção brasileira vestindo a camisa da Argentina e o slogan “Sueña. Sí se puede”? Confira.

Vamos de Barão de Itararé

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Essa eu tirei do Bloghumor do Novaes, chargista companheiro da Gazeta Mercantil.

Novaes, boa ideia relembrar o Barão de Itararé, o sarcástico jornalista que fez história na imprensa brazuca.

E aí, alguém rebate a máxima do glorioso Barão?

O que o diretor-geral do MySpace Brasil tem a dizer

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Emerson Calegaretti comanda a operação do site de música,
que fechou as portas no País

Um dos responsáveis diretos pela fundação do Google e do MySpace no Brasil, o nome de Emerson Calegaretti é bem conhecido no meio digital. Como jornalista que cobre a área digital, acompanho as empresas que comanda ou comandou, embora só tenhamos nos conhecido pessoalmente na semana passada, quando ele fez uma ótima palestra sobre redes sociais no curso de comunicação digital da ESPM (leia mais no post sobre Paulo Henrique Amorim e sobre os protestos no Irã, nesta mesma página).

Ao final do encontro, meu amigo Gil Giardelli, curador do curso (veja mais no blog dele), me apresentou ao Calegaretti, a quem pedi uma entrevista (que seria em vídeo, para o blog). Convite prontamente aceito. Faltava apenas agendar a data.

E veja como são as coisas, amigo do Ponto de Fuga. Sujeito atencioso e alto astral, Calegaretti se vê agora diante de um momento delicado, uma semana depois.

Ele é diretor-geral do MySpace, uma das maiores redes sociais do mundo e que anunciou há poucos dias que encerrará atividades no Brasil. A companhia controlada pelo magnata da mídia Rupert Murdoch cortou 30% da força de trabalho nos EUA e passou a faca em suas demais operações espalhadas pelo mundo.

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Empresa cortou 30% da força de trabalho nos EUA

Destaco aqui a postura do Calegaretti diante do episódio. Em vez de se resumir a uma comunicado frio e impessoal, assinado pela corporação, ele optou por fazer um post no MySpace para explicar aos usuários do site e aos demais interessados o que se passa com a companhia no Brasil. Em primeira pessoa, diga-se.

Pode parecer pouco, mas não é, se observarmos como costumam se comportar executivos de grandes corporações diante de obstáculos desse porte.

“Muitas coisas ainda estão por resolver por aqui. Mas sem crise. Já tive tempo de dar vários rolês de moto que deixaram minha mente limpa. Mais ainda, tive todo o amor da minha família e amigos para reforçar isso”, escreveu em seu blog no MySpace (veja aqui).

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Site continua a operar em português, mas
sem produção de conteúdo

Deixo aqui um compilado de sua palestra. Em seguida, a apresentação dele no curso da ESPM.

• As redes sociais digitais são importantes porque mudam a relação das pessoas com a cultura, consumo, economia, política e família etc.

• A Geração X (a que cresceu com a internet) é composta por jovens conectados, que valorizam muito a opinião dos amigos, buscam satisfação instantânea, querem encontrar conteúdo ou entretenimento quando, como e no lugar que desejarem e não se submetem a hierarquias rígidas.

• Uma empresa, entidade ou pessoa física que queira ter uma atuação eficiente nos canais digitais precisa saber qual sua reputação na rede (o que dizem de você nos sites, blogs etc). No caso das companhias, também observar o que dizem de seus concorrentes.

• A comunicação de Obama foi eficiente porque sua mensagem catalisou sentimentos opostos aos que Bush despertou. Depois de o presidente da guerra ter acirrado os ânimos do mundo contra os EUA, visto como beligerante e dominador, Obama se colocou como agente da mudança, da esperança, do diálogo. E o digital foi a aliado nesse objetivo. Ele usou seu site e redes sociais digitais para iniciar uma conversa com a população, especialmente os mais jovens.

• Um projeto de comunicação na rede precisa ser constante. Não adianta criar uma ação hoje e amanhã engavetá-la.

Veja a apresentação do Calegaretti.

Paulo Henrique Amorim: “Quero ser um portal”

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O blogueiro Paulo Henrique Amorim (foto retirada da internet)

Ele chega à porta do auditório da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), em São Paulo, e para por alguns instantes. Seu terno é bem cortado; sua postura, alinhada. O penteado não ostenta nem um fio fora do lugar.  

Enquanto passeia os olhos pela platéia, ergue a cabeça e abre ligeiramente a boca. Parece admirado e curioso. Praticamente lotada, a sala recebe cerca de 70 pessoas, que estão confortavelmente sentadas em cadeiras estofadas que se localizam em um nível inferior e de costas para quem adentra o ambiente.

Os instantes de observação são breves, porque logo ele é chamado por Gil Giardelli, seu anfitrião, para ocupar o lugar de destaque da noite.  Paulo Henrique Amorim está preocupado. O relógio já crava 20h, trinta minutos além do horário marcado para iniciar sua palestra no curso de Ações Inovadoras em Comunicação Digital, na ESPM.

Paulo Henrique Amorim, o jornalista veterano, vai contar suas aventuras num universo que ainda deixa desbaratado um bocado de gente com muitas primaveras a menos, incluindo vários coleguinhas da imprensa.  Vai relatar sua experiência de blogueiro. Contará como é ser jornalista na era digital.

 “Olá, tudo bem?”, ele diz.

Ele começa pelo cumprimento peculiar, a marca registrada que todos se acostumaram a ouvir em seus programas de TV. Claro, claro: com a mesma entonação característica, a voz anasalada, rouca, inconfundível.

 

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Ele não se furta a falar de web e jornalismo em palestras país afora

Vai logo pedindo desculpas pelo atraso. Ele odeia se atrasar. Culpa o trânsito e faz troça dos tucanos. Diz que os engarrafamentos colossais de São Paulo têm o bico dessa espécie de ave política que se mostra incapaz de dar um jeito no problema ( ele gravou um buzinaço feito por motoristas irritados e transformou em podcast em seu blog).

Com um humor que vai da ironia ao sarcasmo num piscar de olhos, Paulo Henrique  falou de tudo e mais um pouco. Falou que sua experiência profissional na internet começou há um punhado de anos, com projetos de web TV no UOL. Contou que um dia teve uma ideia sensacional, que mudaria o mundo e poderia enriquecê-lo. Algo de gênio, que ninguém nunca antes neste país havia pensado: fazer um chat sobre mercado financeiro assim que a Bolsa encerrasse o pregão. Um programa para que as pessoas entendessem a temperatura das finanças.  

“Conversei com o Marcelo Lacerda, fundador do Zaz (que posteriormente virou o Terra). Ele adorou”. Buscaram patrocinadores, o produto foi ao ar e, embora certa vez tenha tido a audiência do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga  (“Era o único na sala de bate-papo no dia!”), teve desconectar o projeto de sua vida. “Foi um retumbante fracasso”

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Blog dá audiência, mas o ganha-pão mesmo vem do trabalho na Rede Record 

A transformação da mídia em função da tecnologia digital é um dos temas sobre os quais dedica atenção. Perguntei  se ele concordava com a ideia de que o noticiário factual tenderia a ficar nas mãos de pouquíssimas agências de notícias (notícia como commodity), enquanto a demanda por conteúdo contextualizado e analítico abriria brechas para microempresas digitais criadas por jornalistas, como o seu Conversa Afiada, blog independente responsável por uma audiência mensal de 3 milhões de usuários únicos. Ele concordou.

“Está todo mundo buscando um novo modelo de negócios na área de mídia”, disse. E ressaltou a importância de investir em bom conteúdo. “Mandar quatro correspondentes para Bagdá custa caro. Quem vai pagar por isso?”

Sistemas de financiamento baseados no filantropismo de entidades ou investidores, que sustentariam coberturas ou projetos jornalísticos especiais, podem ser uma alternativa viável. “Esse é um caminho estudado agora nos EUA”.

 
YouTube tem vídeos com suas opiniões sobre a blogosfera

Sua aposta no meio digital é tamanha que ele quer transformar o Conversa Fiada em um produto bem mais amplo. A inspiração vem do bem-sucedido e balalado The Huffington Post, blog político americano que recebeu, em 2008, investimento de US$ 25 milhões – aplicado pela Oak Investment Partners, de Palo Alto, na Califórnia- , o que fez a empresa alcançar o valor de US$ 100 milhões.
O valor supera o de várias empresas de jornalismo impresso dos Estados Unidos. “Quero ser a Ariana Huffington. O blog dela, que é agressivo politicamente, se transformou em um portal”, afirma, taxativo. Ele se refere à fundadora do The Huffington Post. E completa, para não deixar dúvidas: “Quero se um portal!”.

Twitter no Irã e a dancinha que arrastou uma multidão

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Twitter e blogs impulsionam protestos no Irã e exemplificam
nova face da mídia

O principal assunto no mundo hoje é o Irã. Protestos contra a vitória de Mahmud Ahmadinejad, acusado de fraudar as eleições do país. Mais uma vez as redes sociais digitais surgem como protagonistas de mobilização popular em torno de um tema político. Em abril, movimento semelhante ocorreu na Moldávia.
Protestos organizados pelos iranianos nas ruas foram impulsionados por mensagens enviadas pelo Twitter, blogs e outras ferramentas digitais.

O governo do Irã restringe o trabalho da mídia profissional, mas o tiro sai pela culatra; a blogosfera se encarrega de furar o cerco à informação e grita para o mundo a sua revolta. Ahmadinejad e os aiatolás estão perdendo a guerra da informação graças, em grande parte, às redes sociais digitais.

Isso me lembra Howard Heingold e sua ideia de smart mobs.

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Governo restringe trabalho da grande mídia, mas redes sociais divulgam protestos

É importante ver como, neste novo ambiente, as mídias tradicional e digital se intercalam, se relacionam e se alimentam mutuamente. Uma precisa da outra: os veículos tradicionais – assim chamados por falta de nomenclatura melhor – obtém informações (com vídeos, fotos e relatos escritos) sobre o desenrolar das manifestações e medem a temperatura social por aí.

A blogosfera tem seus esforços ampliados quando jornais, revistas e TVs de todo o mundo reverberam seus esforços. Se CNN, BBC, New Yor Times e outras não noticiassem, sem dúvida o impacto seria bem menor.

Resumo da ópera: o novo ambiente de mídia é muito mais complexo, sofisticado e até mesmo caótico e não se caracteriza pela substituição de uma mídia pela outra.

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Mahmud Ahmadinejad talvez não acreditasse na força da internet

Ao escrever sobre esse post, me lembrei das palavras de Emerson Calegaretti, presidente do MySpace Brasil, no curso Ações Inovadoras Digitais em Comunicação Digital organizado por Gil Giardelli e Sandra Turchi na ESPM. Na aula que ministrou nesta semana, Calegaretti (ex-Google e UOL), deu um panorama sobre as redes sociais digitais e fez algumas análises. Mas este é um assunto para o próximo post.

Antes do ponto final, vejam o vídeo abaixo. Tem tudo a ver com o que dito aqui.

Alguns podem considerá-lo bobo, no máximo engraçadinho. Mas ele vai além. É exemplo do acontece quando o poder de atração de um, dois ou três indivíduos é muito forte e contagiante. É uma boa metáfora do que acontece no meio digital. Peço desculpas pelo palavrão, mas é um vídeo metalingüístico, porque o episódio (um show ao ar livre, parece um Woodstock 2.0 desengonçado e meio nerd), foi captado por uma câmera de vídeo instalada numa máquina fotográfica, postado n o YouTube, esse oráculo visual de nossa era, e espalhado para o mundo por meio de blogs.

Enquanto apenas um faz a dancinha, é só mais um doidão. Quando outros dois de juntam, trata-se do início de uma multidão, como bem apontou Seth Godin, editor do blog onde vi o vídeo, depois de Ângelo Chaves, meu colega do curso sobre comunicação digital na ESPM.

A conexão digital do DJ Kid Vinil

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Kid Vinil, de herói do Brasil a desbravador cibernértico

No dia 11 de maio, foi publicada na Gazeta Mercantil uma entrevista que fiz com o Kid Vinil, músico, pesquisador musical e DJ. Profissional com mais de 30 anos de carreira e líder da banda Magazine, sucesso nos anos 1980, Kid analisa a nova face da música na era digital, com o avanço de equipamentos como iPod e MP3. E, claro, fala de sua paixão por discos vinil e CDs, intocável mesmo entre mil e um downloads que ele faz ao pesquisar tendências.

Veja mais no site do Kid, que atualmente escreve para o Yahoo e o Portal MTV.

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O número do telefone já não é o mesmo, mas de vez em quando Kid tem um ter tic tic nervoso
com a banda Magazine


A conexão digital do DJ Kid Vinil

Gazeta Mercantil
Clayton Melo

São Paulo, 11 de Maio de 2009 – Em 1978, um rapaz chamado Antonio Carlos, funcionário da gravadora Continental, esteve pela primeira vez em Londres. Ficou fascinado com a efervescência da cena punk inglesa, embalada por bandas como The Clash e Sex Pistols. Ao voltar para São Paulo, seguiu o lema dos punks (“faça você mesmo”) e montou um grupo. Foi por essa época que adotou o nome Kid Vinil e passou a comandar um programa de rock alternativo na rádio Excelsior. Suas andanças pelo underground resultaram, em 1983, num dos conjuntos mais divertidos do rock nacional: o Magazine, que estourou nas paradas com os hits “Eu sou boy” e “Tic Tic Nervoso”.

Embora sem os mesmos holofotes daqueles tempos, a banda continua na ativa, movida pelo prazer de tocar. Prazer que Kid Vinil sempre cultivou pelo estudo da história da música, especialmente do rock, o que fez dele uma referência quando o assunto é a evolução do cenário pop.

É com base nessa vivência que Kid Vinil, atualmente blogueiro contratado do Yahoo e do Portal MTV, analisa nesta entrevista as transformações na indústria fonográfica e os reflexos dos novos formatos de distribuição nos hábitos de consumo. “Acho que o independente sobreviverá. Para as grandes gravadoras, a situação é mais complicada, porque ela não pode mais pensar em milhões de cópias”, afirma Kid, que, amante da chiadeira das vitrolas, também se aventura pelos mares agora navegados de iPods, blogs e podcasts.

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Foto da primeira visita a Londres, em 1979, fonte de referências sonoras

Gazeta Mercantil – Além de ter uma longa trajetória como DJ, músico e pesquisador, você é responsável por uma das maiores coleções do Brasil, com cerca de dez mil CDs e dez mil discos de vinil. Qual sua opinião sobre a digitalização da música?

Nunca tive nada contra. Adaptei-me a essa realidade. Faço podcasts, vou ao MySpace e tenho iPod. Não sou um radical. Todos os formatos são válidos. A mudança tecnológica faz parte da vida do ser humano.
Gazeta Mercantil – Você acredita que hoje, com a digitalização, a música tenha se tornado descartável?
Exato. Há coisas que entram por um ouvido e saem pelo outro. Eu mesmo me questiono. Puxa vida, ouvi tal banda, era tão legal, mas aí já passei para outra. Não existe uma longevidade. O disco do ano não será mais lembrado no ano que vem. A internet, com a possibilidade de as pessoas fazerem download de tudo, acelerou esse processo. Antes, havia a luta para conseguir um disco. Então ele era ouvido várias vezes, degustava-se o disco. Hoje, você baixa, coloca no iPod e pronto.

Gazeta Mercantil – O CD e o vinil tinham o poder de tornar a música perene?

Por causa do fenômeno do download, outro dia me perguntaram qual a importância, no futuro, de um disco com doze faixas. O artista continuará a lançar uma obra completa, baseada num conceito, como sempre foi feito? É esse conceito de um trabalho contido no disco que está se perdendo. Mas ele é importante.

Refiro-me ao pensamento que vai desde a capa, o enredo, as doze faixas guardam uma relação entre elas. Há uma história por trás daquilo. Com a era do download, quando as pessoas não valorizam mais com o conceito, como será no futuro? Essa é uma questão que está na minha cabeça. Até agora, tudo bem. As bandas ainda se preocupam com isso. Não sei se no futuro será assim. Acho isso meio perigoso, porque vai tornar a música mais descartável.

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Pose para o clique promocional do do LP “Magazine” (1983)

Gazeta Mercantil – Quais são as perspectivas para as gravadoras?

Acredito muito no mercado independente. No exterior, tudo parece que correu para esse segmento, principalmente as bandas independentes que estavam nas grandes gravadoras. É o caso do Sonic Youth (dos EUA), que deixou a gravadora Geffen e foi para o selo Matador Records. Esse povo independente tem noção de que a venda de discos, para eles, não significa tanto. Ele faz prensagem limitada, de mil cópias, e pensa de um modo diferente da grande gravadora. Para essas bandas, o disco é um cartão de visitas. Não é ali que elas ganham, mas sim nos shows.

Por isso acho que o independente sobreviverá. Para as grandes gravadoras, a situação é mais complicada, porque elas não podem mais pensar em milhões de cópias. Ainda existem exceções, como os EUA, um mercado relativamente aquecido, embora não se saiba até quando. Há quem ainda venda bem por lá. Como o poder aquisitivo é alto, o americano pode se dar ao luxo de comprar CD. Mas as gravadoras grandes enfrentam esse problema, principalmente no Brasil.

Gazeta Mercantil – Como você avalia a parceria das gravadoras com operadoras de telefonia, para que os álbuns sejam lançados pelo celular?

É uma forma para as gravadoras ganharem grana. Como a venda de discos não é mais como era antes, elas precisam encontrar caminhos alternativos. Hoje o dinheiro está na mão das empresas de telefonia, e as gravadoras vão atrás. Há companhias que têm rádio, como a Oi. Nota-se que a programação é feita com as gravadoras. Tudo o que toca ali é dinheiro da indústria fonográfica. É uma forma também de ampliação de receitas para as empresas de telecomunicações.

Gazeta Mercantil – Com o enfraquecimento do modelo tradicional da indústria fonográfica, que alternativa de negócios pode surgir no lugar? Os selos menores podem ser favorecidos?

Sim. A tendência é pensar pequeno em termos de gravadoras. Como está tudo liberado para downloads, a pessoa não adquire mais tantos discos como tenho aqui em casa (rs).

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Com o grupo Heróis Do Brasil, ao lado de André Cristovam, ao vivo no SESC
Pompéia em 1988

Gazeta Mercantil – A cultura do colecionador pode ser o combustível para o mercado de discos, ainda que de modo bem segmentado?

É essa cultura dos independentes que está salvando a indústria lá fora. Mesmo esse resgate do vinil é algo para apreciadores, fãs.

Gazeta Mercantil – Num ambiente em que as pessoas têm acesso a todo o tipo de música quando e da forma que quiserem, como ficam as emissoras musicais de FMs?

Com as mudanças provocadas pelos novos formatos – podcasts, rádios on-line -, elas perdem terreno. O número de ouvintes de rádio caiu muito. Não escuto mais ninguém falar “estou ouvindo determinada canção no rádio”. Antes, havia essa referência. Hoje, elas ouvem no MySpace, baixam da rede. Daí é possível concluir que o rádio já não tem o papel de divulgar.

Ele está aí, mas também corre o risco de acabar. Quer dizer, acabar não vai. O rádio se segmentou. As pessoas ouvem as emissoras especializadas em notícias, como CBN e BandNews – essa foi uma bela sacada. Musicalmente, pode-se ouvir no carro. Mas a FM perdeu muito porque hoje há outras opções.

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Trocando figurinhas com apresentador de TV e rádio Barros de Alencar,
que abriu espaço para novas bandas na década de 1980

Gazeta Mercantil – Você participou, como jornalista e vocalista da banda Magazine, da chamada geração anos 1980 no Brasil, que culminou na explosão do rock nacional. Qual sua avaliação sobre aquele período?

O punk e a new wave tinham chegado aqui, e assim tivemos uma geração interessante na década de 1980. As gravadoras e a mídia abriram as portas. Caso contrário, não teria havido movimento nenhum. As gravadoras perceberam que havia uma juventude que poderia comprar discos. O setor enfrentava dificuldades na época, porque a MPB havia ficado estranha, velha e sofisticada demais. Não gerava a receita que as empresas precisavam. A indústria fonográfica buscava uma música imediata, que tocasse no rádio, fosse para a TV e vendesse discos.

O rock que aparecia naquele momento proporcionava isso. E vinha a calhar para uma juventude pós-ditadura que queria se divertir e não era engajada. Assim surgiram várias danceterias, todo mundo querendo viver um pouco mais a vida e esquecer os anos ruins do militarismo.

Gazeta Mercantil – E hoje? Você identifica algum movimento de juventude?

Se formos comparar, não existe nenhum. Hoje o movimento é a molecada ligada na era digital. É o movimento do iPod (rs).

“Minha denúncia é a minha alegria”

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Vídeo com o poeta Miró da Muribeca agora está no YouTube e no Ponto de Fuga

Agora, sim: o vídeo Miró da Muribeca em São Paulo, que eu e Daniel A. Rubio fizemos (veja detalhes no post anterior ), está no YouTube. Para facilitar, replico-o neste post. Para que o YouTube comportasse o material, tivemos de dividi-lo em dois: Parte 1 e Parte 2. Sugiro assisti-los na seqüência.

Eis algumas frases de Miró frases extraídas do curta:

Sou poeta pernambucano, tenho 48 anos, oito livros publicados e nasci no bairro da Encruzilhada. Aí já começou a tragédia: nascer na Encruzilhada”

A poesia me deu a oportunidade de conhecer o País”

“Quando estava na oitava série, uma professora pediu para fazer uma redação. Então disse: ‘Chove um sol lá fora’. Ela falou: ‘Meu filho, como pode chover um sol lá fora?’. E respondi: ‘A senhora já ouviu falar em metáfora?’”

“Tenho um poema que diz: “Jesus não vem: prepara-te”. Porque todo mundo diz ‘Jesus vem’. E se não vier?

“Minha denúncia é a minha alegria”

“Sou ‘Alegrista’, gosto de pessoas simpáticas, que riem. A maior frase do Alegrismo é da minha mãe. Ela diz sempre: “Meu filho, fuja de gente que não ri. Gente que não ri é perigosa”.

PARTE 1

PARTE 2

A crise da imprensa e a nova mídia

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Foto de Genésio
Marcelo Coutinho é doutor em sociologia e pesquisa
o impacto da tecnologia na indústria da comunicação

Um mês antes do fim da Gazeta Mercantil, publicamos, ne editora de Comunicação, uma entrevista concedida a mim por Marcelo Coutinho, um dos principais pesquisadores de mídias interativas e negócios da comunicação no País. Essa foi uma das tantas entrevistas que fiz com Coutinho ao longo dos oito ou nove anos em que nos conhecemos. Todas instigantes e elucidativas.

Como o assunto está quente – futuro da imprensa diante da tecnologia digital e novo modelo de negócios da mídia -, a matéria gerou um bom interesse na rede e foi replicada em vários blogs, entre eles o do Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif , com uma intensa troca de comentários.

Nova cultura da mídia muda valor do conteúdo

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Gazeta Mercantil/Caderno C – página 8
Clayton Melo

São Paulo, 27 de Abril de 2009 – Doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo e professor da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, na capital paulista, Marcelo Coutinho é um estudioso do impacto da tecnologia na economia e na comunicação. Além da experiência acadêmica, seu olhar sobre as mudanças na mídia é lapidado pelo trabalho como diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência. Nos últimos anos, tem se dedicado a estudar dois campos que, entre tapas e beijos, parecem fadados a um casamento inadiável: a internet e o setor de mídia. Enquanto a primeira avança e transforma a sociedade, o segundo tenta adaptar seu modelo de negócios aos novos tempos. “O que as empresas de comunicação pensam ser uma ameaça, na verdade é uma oportunidade”, diz Coutinho. “Elas têm a possibilidade de repensar um modelo de negócios no qual o conteúdo desempenha um papel central e que leva a sociedade a se mobilizar em torno disso”, reforça o pesquisador, que prefere não ter web em casa para que, aos finais de semana, possa se dedicar a livros, jornais revistas – todos impressos, que fique bem claro.

Gazeta Mercantil – O senhor já afirmou em outra ocasião acreditar que a profundidade das transformações provocadas pelo digital será maior nos próximos dez anos do que o foram na última década. Por quê?

Isso se deve, por um lado, a aspectos quantitativos. Embora não tenha as estatísticas precisas aqui, é fato que o número de usuários de internet no final dos anos 1990 era muito menor. Vamos chegar ao final desta década numa situação muito diferente no mundo. No caso do Brasil, dados do Comitê Gestor e de institutos como o Ibope e o Datafolha apontam para algo entre 60 milhões e 65 milhões de usuários. Algo como 30% da população brasileira. Já é um fenômeno numericamente expressivo. Só que muito mais importante é o fator qualitativo. Estamos assistindo, com o surgimento da economia colaborativa, à possibilidade de uma nova cultura midiática. Embora a cultura da mídia ainda seja muito passiva, com a maior parte dos consumidores recebendo passivamente o conteúdo, vemos nos jornais, na TV e na própria web que as pessoas querem interferir e interagir com o conteúdo de alguma maneira. Há um fenômeno que o pesquisador Henry Jenkins, do MIT, chama de a cultura do fã. O que é isso? É a possibilidade de as pessoas interagirem e rediscutirem aquele conteúdo. É a ideia da calda longa trazida para o mundo do conteúdo. Explico: milhões de pessoas serão impactadas pela série Lost na TV, e alguns milhares de espectadores vão prolongar a vida desse conteúdo por semanas ou até meses, na medida em que discutem esse material. Veja – e por isso digo que provavelmente as transformações serão mais acentuadas nos próximos dez anos – que o controle do conteúdo e das marcas publicitárias começa a sair da mão das grandes organizações produtoras de conteúdo. Não acho que o modelo “broadcast” – conteúdo feito por grandes grupos econômicos para atrair audiência e, assim, gerar receita publicitária – vá desaparecer, é bom destacar. Mas, se esse sistema reinou sozinho praticamente durante toda a segunda metade do século XX, agora ele vai ter de conviver com outro modelo, que é o de produção de conteúdo na “calda longa dos fãs”. Ou seja, o conteúdo que uma organização produz também tem de ser pensado como um produto que pode ser trabalhado, recriado e rediscutido por pessoas que tenham alguma relação com uma marca.

Gazeta Mercantil – O que o senhor descreve é exemplo da narrativa transmidiática da qual fala Jenkins, experimentada por séries de TV como Heroes e Lost ou Matrix, no cinema.

Exatamente. Esses são bons exemplos. Talvez mais importante que impactar uma grande massa de pessoas, será se aproximar daquele grupo que tem uma relação profunda com o conteúdo que sua empresa torna disponível. Isso nos faz pensar numa outra coisa: o que as empresas de mídia pensam ser uma grande ameaça, na verdade pode ser uma grande oportunidade, que talvez só tenhamos visto na época do aparecimento da televisão.

Gazeta Mercantil – Que oportunidade é essa?

É a possibilidade de repensar um modelo de negócios no qual o conteúdo desempenha um papel central e que leva a sociedade a se mobilizar em torno disso. Aqui entramos no terreno das redes sociais: para que serve o conteúdo, a informação? Para gerar prestígio social. Por que uma notícia de jornal ou um filme visto na TV, na web, são importantes? A importância vai além do fator econômico, é também social. As pessoas conversam sobre o conteúdo. Ao conversarem sobre ele, contribuem com o mercado social – reforçar os laços de amizade, prestígio dentro de um determinado grupo. Tudo isso já ocorre muito antes da web. Mas a digitalização possibilita às empresas produtoras de conteúdo rastrear esse conteúdo, coisa que não podiam fazer antes. O que veremos nos próximos dez anos é o rastreamento e a mensurabilidade desse marketing viral. E a possibilidade de medir como isso impacta no comportamento das pessoas. Este é o desafio das empresas de mídia e das agências de publicidade: sair de um modelo de negócio baseado exclusividade na exposição do conteúdo para um calcado no impacto do conteúdo. Em outras palavras, na circulação do conteúdo nas diversas redes sociais.

Gazeta Mercantil – Pode dar um exemplo adequado ao contexto de um jornal ou revista?

Gosto de citar o The New York Times. Se você perguntar para qualquer pessoa da minha geração, de 40 anos para cima, qual é o slogan do NYT, ela dirá “all the that´s fit to print”, ou seja, tudo o que um grupo de editores julgou adequado ser impresso. E qual o slogan do NYT na internet? “Onde as conversas começam”. Isso é muito bem sacado e demonstra a compreensão dos mecanismos que estão diante da mídia. Mais que algum conteúdo para ser impresso e distribuído, busca-se um material que circule entre as pessoas. Como isso pode ser feito e medido? Esse é o Santo Graal que todo mundo persegue. Temos de um lado um mercado de conteúdo produzido por grandes corporações. De outro, um mercado social (os Orkuts, os LinkdIns, os Twitters da vida) no qual os conteúdos circulam. O desafio é fazer com que o conteúdo produzido no mercado econômico também seja medido no mercado social e passe a ter um valor financeiro dentro desse mercado social. Exemplo: existe alguma maneira de gerar receita com uma notícia da interessante da Gazeta Mercantil que eu leve para meu Orkut, Facebook ou Twitter? Acho que existe, mas ainda não conseguimos encontrá-la. A indústria da mídia se encontra diante da mesma oportunidade que surgiu com o aparecimento da televisão. Mas ficar demonizando as mudanças não resolve. Tem de encontrar uma solução.

Gazeta Mercantil – Por que as transformações provocadas pelo digital são tão poderosas?

Porque elas vêm do consumidor. O Ibope Inteligência divulgou duas pesquisas. Uma foi feita no evento de tecnologia Campus Party, em janeiro, e outra agora, sobre a relação dos jovens das classes ABC com as marcas de material esportivo. Esses estudos mostram que, para esse público (que não está na média dos consumidores brasileiros, pois são adolescentes e fissurados em tecnologia), a importância da opinião de outros consumidores é mais importante que a comunicação de massa dos meios tradicionais, como a publicidade em TV, rádio etc. Isso como fonte de informação para decisão de compra. Você pode dizer que hoje eles são adolescentes. Mas, durante a próxima década, esse pessoal vai ingressar com tudo no mercado de consumo.

Gazeta Mercantil – O senhor falou que o conteúdo continuará a ser um item muito importante no cenário que se desenha para o mercado da comunicação. Mas que tipo de conteúdo é esse que será valorado? Quais as perspectivas para a produção jornalística?

O conteúdo tem relevância na medida em que ele é uma moeda social. É o fato de ter acesso a um material interessante, diferente e reproduzi-lo em uma rede, que pode ser digital ou não – é preciso entender que há as redes sociais que não são digitais. As pessoas falam das redes sociais como se elas tivessem surgido com a internet. Mas a sociologia começou a estudá-las por volta de 1890. A novidade é que elas passaram a ser mensuráveis a partir da digitalização. Então, que conteúdo é importante? Claramente percebemos que é aquele que vai além da instantaneidade. De que me vale ver na capa de um jornal a seguinte manchete “Obama é eleito”. Não faz sentido. Vamos analisar o assunto por partes. Pense no jornalismo hard news (notícias factuais), que pode ter alto impacto, mas tem vida útil curta. Esse tipo de conteúdo será comercializado talvez por um grupo muito restrito de organizações internacionais com escala para uma produção global. Estamos falando de dois, talvez três grandes conglomerados. Esse tipo de produto vai morrer como suporte para comunicação publicitária, porque ninguém vai esperar 24 horas para ler a notícia num jornal. A hard news continuará importante, mas o valor percebido nela, no sentido de gerar um modelo de negócios, será cada vez menor. Minha impressão é que caminhamos para a valorização do conteúdo contextualizado. Assim, creio que teremos produtos de mídia na linha da The Economist, com análise e contextualização. Não acredito que as organizações de mídia terão um modelo economicamente viável baseado na exploração de hard news. Esse vai ser um jogo para duas ou três companhias globais, que fornecerão para todo mundo.

Gazeta Mercantil – O senhor se refere a agências de notícias como AFP e Reuters, entre outras?

Provavelmente haverá uma concentração ainda maior entre elas. Já houve a compra da Reuters pela Thomson, por exemplo. Se por um lado há a tendência de concentração no conteúdo hard news, de outro há uma tendência de “capilaridade” da interpretação desse material, algo que é proporcionado pelas tecnologias digitais. Ou seja, muitas vezes são grupos de mídia menores, com equipes compostas por uns dez analistas que contextualizam aquelas notícias. Um exemplo interessante disso – não digo que seja modelo, mas apenas um exemplo – é o blog Huffington Post, da Ariana Huffington, nos EUA. Ela tem uma equipe renomada de especialistas. Esse grupo analisa os fatos para o blog. No auge da crise, em setembro de 2008, um banco americano de investimentos comprou 25% do Huffington Post por US$ 25 milhões. Trata-se de um blog avaliado em US$ 100 milhões. No mesmo dia em que li essa notícia, vi a cotação de alguns grupos regionais de mídia dos EUA na Bolsa de Valores. Muitos valiam menos que o Huffington Post. Eram companhias com 16 jornais locais e estações de rádio valendo menos que um blog. E você poderia perguntar que empresa é essa que poderia se beneficiar desse cenário. Seria um aventureiro, o Zorro? Não. As organizações de mídia tradicional ainda estão repletas de profissionais talentosos, experientes e que entendem como ninguém a importância de um bom conteúdo.

Gazeta Mercantil – Qual o papel dos jornalistas nessa nova configuração?

Respondo a essa pergunta com uma historinha comum nos anos 1990. Na época, dizia-se o “conteúdo é rei, ninguém entende mais de conteúdo que as empresas de mídia, então dominaremos o século XXI”. Mas nos esquecemos do seguinte: para as pessoas terem acesso ao conteúdo, elas precisam chegar a ele. E a forma como elas o alcançam não é só mais o caminhão que entrega o jornal e a revista, mas também os softwares e hardwares de grandes grupos de telecomunicações. Isso mostra que novos integrantes entraram na cadeia da informação, o que provoca um rearranjo de valor. Além desse aspecto, houve uma explosão de conteúdo disponível. E aqui vale a lei da economia: quanto maior a disponibilidade de um bem, menor o seu preço. Há um deslocamento da geração de valor. Quando vivíamos num mundo de conteúdo escasso, todo a informação produzida era consumida. A lógica hoje é outra. Como vivemos num mundo de conteúdo abundante, as pessoas consumirão aquilo que for organizado de uma maneira lógica para elas, consumidoras. O valor do conteúdo deixa de estar totalmente concentrado na produção e distribuição – as receitas das empresas de mídia vinham daí – para a ser gerado também na organização dele. Pelo sistema tradicional, as companhias cobravam um preço para criar e distribuir, algo que era pago pelos anunciantes, que queriam falar com os respectivos consumidores. Todo o valor vinha daí. Num mundo de explosão do conteúdo, o consumidor não dá conta de tudo isso. Assim, ele começa a ver valor em quem organiza a informação para ele. Os blogs tentam se firmar com um agente nesse processo. Como não temos tempo de dar conta de filtrar tudo o que acontece e chegar a uma conclusão sobre o que é socialmente valioso para nossa rede de relacionamentos, vamos aos blogs de fulano e beltrano, que podem tanto ser jornalistas de mídia tradicional como comentadores independentes. Por confiar na capacidade de filtro de determinado blogueiro, a pessoa lê o que ele escreve. E leva as informações para a sua rede social – para o Twitter, por exemplo.

Gazeta Mercantil – A maior demanda por análise decorreria disso?

Sim. Está no poder da filtragem.

Gazeta Mercantil – E como os veículos podem gerar receita nesse cenário?

Essa é a grande questão. A indústria não sabe muito bem como fazer isso. O mercado busca no momento métricas para mostrar para quem sustenta o processo – os anunciantes – que a “filtragem” dá retorno. As empresas de mídia ainda não conseguiram isso. Mas essa transformação virá, porque vem de pressão do consumidor. Tudo o que lemos sobre a situação dos grupos de mídia, especialmente nos EUA, com fechamento de jornais ou migração para o on-line, é motivado por essa realidade. Esse processo não é como um tsunami, mas sim uma maré que vai subindo, subindo. Não há como fazê-la recuar.

Gazeta Mercantil – Diante desse contexto, qual deve ser o perfil de um jornal impresso?

Também caminha para a análise.

Gazeta Mercantil – Aproximaria-se assim do perfil de revista?

Bom, ingressamos agora num terreno complexo. Não sei se o jornal diário – distribuído todos os dias, é bom salientar – fará muito sentido daqui a dez anos. Talvez passem a ser distribuídos dia sim, dia não. Mas veja que a notícia hard news continuará importante. Basta ver os jornais gratuitos. As pessoas colocam a mão para fora do ônibus para pegar o exemplar. Mas elas não estão mais dispostas a pagar por isso. Se os jornais pagos se tornarem mais analíticos, será necessário um novo perfil de jornalista e uma nova maneira de garantir a viabilidade econômica dessa operação. Talvez seja o caso de cobrar mais caro do anunciante, porque o jornal conseguirá atingir um grupo pessoas cujo envolvimento com o conteúdo será muito maior.

Homenagem e notícias internacionais sobre a Gazeta

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O blog Madrilenhas, que replicou post sobre a GZM, fala de jornalismo, cultura, política, economia e a vida na Península Ibérica

Existem amigos que temos a impressão – posso bem usar a palavra certeza – de que nos acompanharão por toda a vida. Chapas para toda a ocasião. Arnaldo Comin é um desses. Somos comparsas há dez anos.

Jornalista que atualmente mora na Espanha e já trabalhou no Valor e no Meio & Mensagem, o Arnaldo prestou uma bonita homenagem aos últimos moicanos da Gazeta Mercantil.

Ele replicou em seu blog, o Madrilenhas, o post que fiz aqui sobre os instantes finais do jornal.

E acrescentou a indicação de links que noticiam o fim da GZM. Caso do 233 Grados, site espanhol que aborda a crise mundial da imprensa. Ao fuçar da nota do Grados, vejo que o site replicou a informação de outro endereço, o Media Management, cuja matéria traz mais detalhes.

Clique aqui para ir ao Madrilenhas.

Caia no Gandara

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Foto feita pelo Nicola Turdo. Da esquerda para a direita: Iolanda Nascimento, Costábile Nicoletta, Luciana Collet, Ana Saito, Cleide, Sérgio, Jaime Soares, Marcel Salim e este escriba digital. Ao fundo, contando estrelas no teto, Ronaldo Eleutério (camisa azul e gola vermelha)

Um clique da despedida na sexta-feita no Gandara, o nosso Bar Esperança (chama o Hugo Carvana).

Porque, como diria o Rei, “o importante é emoções eu vivi”.

Valeu a pena, Gazeta

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Mosaico de uma redação em seus últimos instantes

Nesta segunda-feira, dia 1º de julho, (correto é 1º de junho) não receberemos mais o exemplar da Gazeta Mercantil em nossas casas. Não chegaremos à redação, ligaremos os computadores e acompanharemos as primeiras notícias do dia com um copo de café nas mãos. Não preparemos pautas. Não pediremos entrevistas. Não teremos dezenas, centenas de sugestões de matérias em nossas caixas de e-mails. Não ouviremos o telefone tocar insistentemente.

Nesta segunda-feira estaremos todos oficialmente de férias, seja lá o que signifique isso no atual contexto. A Gazeta Mercantil, o primeiro jornal de economia e negócios do Brasil, fundado em 1920, não circulará mais a partir desta data.

A última semana da Gazeta Mercantil renderia por si só um livro, em função da dramaticidade, tensão, reuniões, expectativas, risos e lágrimas que provocou.

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Não basta ser fotógrafo, tem que participar: eis o Daniel Teixeira e a galera

É muito difícil descrever o que significaram os dias compreendidos entre a segunda-feira passada (dia 25), quando foi publicado na capa o comunicado de que o jornal deixaria de circular, e a sexta-feira (29 de maio), quando nos despedimos de uma vez por todas da Gazeta. Um vendaval de boatos e rumores varreu a empresa. Peças desencontradas que tentávamos juntar para ver o que fazia sentido. Não ter o jornal não fazia sentido.

É muito triste e ao mesmo tempo marcante ter participado da equipe até o último suspiro da Gazeta. Senti-la sangrar foi muito doloroso. Mas a paixão e a certeza de que nós, funcionários, buscamos sempre fazer um bom jornal, a despeito de todos os problemas, é reconfortante.

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Um brinde aos aos 89 anos da Gazeta

E assim fomos até o último dia, quando bebemos, rimos, choramos. No último fechamento, brindamos o dever cumprido, mas sem disfarçar o nó na garganta.

Nesta segunda-feira vou repetir o ritual. Vou me levantar, tomar café na padaria, ler o primeiro jornal do dia e seguir a pé para a redação.

Mas cadê a redação?

ps: foi muito emocionante receber a visita de despedida, na sexta-feira passada, de diversos amigos que um dia também fizeram parte da história da Gazeta Mercantil

O último fechamento da Gazeta Mercantil

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Parte da turma reunida ontem (dia 28 de maio) para o clique no último fechamento da Gazeta Mercantil, que encerra as atividades. Foi emocionante.
Primeiro jornal de economia do País, 89 anos.

A década digital e a convergência de mídias

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Como é praxe, replico artigo meu – publicado nesta segunda-feira – na Gazeta Mercantil. Aqui com uma roupagem, digamos, mais modernosa.

27-Abril-2009
A década digital e a convergência de mídias
Gazeta Mercantil – Caderno C
Opinião
Clayton Melo

27 de Abril de 2009 – O período compreendido entre 1999 e o ano 2000 representa, para muitos estudiosos da cibercultura, o marco inicial da primeira década digital. Ali se delinearam melhor os contornos da sociedade em rede, cujos reflexos são sentidos com maior intensidade agora nos negócios, na comunicação e na cultura. Cravar 1999/2000 como o período-chave para o começo da década digital é apenas uma maneira de delimitar um processo na época já em andamento. Há razões para crer, no entanto, que os acontecimentos deflagrados naquele intervalo aceleraram o florescimento de uma nova cultura da mídia.

Se há uma obra que simboliza essa travessia, ela se chama “Matrix”, e veio embalada num universo midiático que inseriu a comunicação na lógica da convergência de mídias. O estudo do projeto “Matrix” dá pistas para os veículos de comunicação, produtores de conteúdo e profissionais de marketing sobre a melhor maneira de trafegar na sociedade digital.

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Na levada do videogame e de fantásticos golpes de kung fu cibernético, o longa-metragem “Matrix”, lançado em 1999, discute a fluidez entre o real e o virtual e relê velhos mitos, como o do Messias – caracterizado como um hacker -, com a missão de salvar o mundo no ambiente da virtualidade e do embate entre humanos e máquinas superinteligentes. A obra não marcou época somente por sua qualidade estética, mas também por promover a interação de uma série de produtos midiáticos e, assim, desbravar uma vereda: a criação convergente de conteúdos.

Veja bem, não falo de um mesmo produto esparramado por diferentes canais. Em vez disso, temos uma ideia central interconectada a várias mídias e que tem na participação dos fãs um componente fundamental de sua estratégia. Esse fenômeno é um exemplo da narrativa transmidiática de que fala Henry Jenkins, diretor do programa de Mídia Comparada do MIT (Massachussetts Institute of Technology), no livro “Cultura da Convergência” (Editora Aleph).

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Para o autor, a convergência não é um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro de um mesmo equipamento (como um celular com voz, web e TV, por exemplo), mas sim “uma transformação cultural, à medida que os consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos midiáticos dispersos“. Nesse contexto, uma “história transmidiática se desenrola por meio de múltiplos suportes midiáticos, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo”. É o que se vê em “Matrix”.

Andy e Larry Wachowski, os idealizadores, criaram um universo de conteúdo que se completa em diferentes suportes de comunicação. O anúncio do pré-lançamento do filme provocou os consumidores com a pergunta “O que é Matrix?”, estimulando-os a buscar respostas na web, enquanto o segundo filme da série não recapitula a história inicial e termina abruptamente, para levar o consumidor a assistir ao terceiro filme.

Para encaixar o quebra-cabeça, seria necessário ter experimentado um game. Uma história paralela era revelada em curtas de animação baixados na rede. “Os fãs saíram correndo dos cinemas, pasmos e confusos, e se plugaram nas listas de discussão da internet, onde cada detalhe era dissecado e cada interpretação possível, debatida”, diz Jenkins.

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São poucos os produtos que exploram a convergência tal como o fez “Matrix” – as bem-sucedidas séries de TV Lost e Heroes são outros exemplos. O entendimento de experiências como essas, no entanto, é importante por algumas razões: elas são edificadas em um terreno de linguagem apreciado pelos mais jovens (videogame, interatividade, participação) e exploram o cruzamento de mídias de maneira a potencializar o impacto do conteúdo.

Essa será a forma predominante de entretenimento daqui por diante? É difícil afirmar categoricamente. Mas acredito se tratar de uma experimentação de linguagem em sintonia com os novos hábitos de consumo de mídia. Se bem conduzida, pode representar uma renovação estética e, como ninguém é de ferro, fazer tilintar os caixas das empresas de mídia na era da cultura da convergência.

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 3) CLAYTON MELO* – Editor de ComunicaçãoE-mail: cmelo@gazetamercantil.com.br)

O dia em que Roberto Carlos foi para o paredão

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No dia 19 de abril Roberto Carlos faz aniversário. E Ponto de Fuga comemora os 68 anos do Rei (que bom seria se ele tivesse parado de compor e cantar nos anos 1970…) com um trecho de “Quem tem medo da verdade?”, exibido pela Record de São Paulo e retransmitido pela TV Rio entre 1968 e 1971. Apresentado por Carlos Manga, o programa tinha jurados do quilate de Alik Kostakis (agora entendi de onde vem a figura, que anos depois se tornou figurinha carimbada no Troféu Imprensa), Silvio Luiz e Aracy de Almeida. A atração “julgava” personalidades no ar.

No vídeo abaixo, Silvo Santos defende fervorosamente RC, que, debaixo dos caracóis dos seus cabelos e entre anéis extravagantes e medalhões suspeitos, seria uma má influência para os jovens. Seu figurino escandaloso seria, digamos assim, um convite à degradação da juventude brasileira. Em resumo, era praticamente um devasso, um libertino, vejam vocês.

”As acusações, sinceramente falando, são muito frágeis. ‘Roberto Carlos usa roupa colorida’. ‘Roberto Carlos fez com que a juventude usasse colares, usasse medalhões, usasse anéis, usasse o amarelo, o vermelho e o azul’. E disseram até que essa juventude, talvez por causa de Roberto Carlos, estivesse se ‘desmasculinizando’, estivesse efeminada”, disse o Homem do Baú em defesa do Rei.

“Ora, desde quando os colares, a roupa, desde quando os anéis ‘desmasculinizam’ o homem? Os grandes guerreiros romanos quando entravam em Roma para comemorar as suas vitórias não entravam multicoloridos (..) e (por isso) deixavam de ser homens com H maiúsculo?

Pois é, pegaram no pé logo do bom moço, do certinho, do educadinho Roberto Carlos? Tudo bem, eram outros tempos. Mas qual é!

Convergência de mídias 2: dez anos de Matrix

Imagens: do Matrix
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A cultura da convergência pode desembocar numa nova forma de participação política?

Alguns posts atrás escrevi sobre a convergência de mídias (role a página e encontrará rapidinho). Pois falei que voltaria ao tema. E aqui estou.

Vou rascunhar mais algumas ideias levantadas a partir da leitura de “Cultura da Convergência”, de Henry Jenkins (esse livro que está me virando a cabeça!).

Direto ao ponto: que reflexões podemos fazer sobre o significado do processo de convergência de mídias e quais as implicações desse fenômeno na sociedade, na economia e na produção de conteúdo? Para pensar a respeito, vale sintetizar novamente o raciocínio dele aqui, com todos os riscos dessa simplificação.

O ponto central do autor é que a convergência de mídias não ocorre nas máquinas, na tecnologia, mas sim “nos cérebros dos consumidores individuais e em suas interações sociais com os outros”. Ou seja, devemos enxergar a convergência a partir da relação cruzada – e interconectada – que as pessoas passam a ter com as mídias.

Se meu entendimento sobre o que diz Jenkins estiver na linha certa, a convergência estaria muito mais associada à maneira como a informação (num sentido bem amplo) é recebida, processada e re-elaborada pelas pessoas – sempre lembrando que esse movimento se dá em múltiplos canais de comunicação e a partir da interação de muitos com muitos. As palavras interação e a cultura participativa são fundamentais nesse percurso.

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É nesse sentido que se aplica a afirmação de Jenkins de que o consumo se tornou um processo coletivo – o autor aproxima a ideia de convergência de mídias à de inteligência coletiva desenvolvida por Pierre Lévy. “A inteligência coletiva pode ser um fonte alternativa de poder midiático. Estamos aprendendo a usar esse poder em nossas interações diárias dentro da cultura da convergência”, escreve.

Como resultado do desenvolvimento da cultura da convergência nasce a narrativa transmidiática. “A narrativa transmidiática refere-se a uma nova estética que surgiu em resposta à convergência de mídias – uma estética que faz novas exigências aos consumidores e depende da participação ativa das comunidades de conhecimento. A narrativa transmidiática é a arte da criação de um universo”.

Dois símbolos da narrativa transmidiática são Heroes e Matrix, diz Jenkins. Matrix, aliás, é classificado pelo autor como o “filme cult emblemático da cultura da convergência.”

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Isso porque, escreve Jenkins, no contexto da convergência,

para viver uma experiência plena num universo ficcional, os consumidores devem assumir o papel de caçadores e coletores, perseguindo pedaços da história pelos diferentes canais, comparando suas observações com a de outros fãs, em grupos de discussão on-line, e colaborando para assegurar que todos os que investiram tempo e energia tenham uma experiência de entretenimento mais rica. Alguns escreveram que os irmãos Wachowiski, que escreveram e dirigiram os filmes de Matrix, forçaram a narrativa transmidiática além do ponto que a maioria do público estava preparada para ir.”

Em outros termos, cria-se um universo ficcional, interconectado em diferentes canais de comunicação, cujo sentido só é plenamente depreendido quando o conteúdo é experimentado em todo o seu conjunto.

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Bem, poderia ir longe aqui na descrição do raciocínio de Jenkins, mas creio que esses pontos já sejam suficientes para fazer as seguintes indagações:

* O fenômeno é descrito pelo autor no universo da indústria cultural. Será que o engajamento convergente das pessoas pode se estender um dia para questões políticas e sociais? Não estaríamos diante da possibilidade de uma forma de participação política? Qual o possível efeito disso?

* Quais são as indagações certas que devemos fazer no momento de pensar uma atuação eficaz num ambiente de convergência de mídias? Imagine o caso de alguém que queira montar um projeto de conteúdo no ambiente da web 2.0, por exemplo.

* A “criação de um universo” no qual um determinado produto cultural é inserido, a exemplo de Matrix e Heroes, será de fato a arma mais poderosa para congregar as pessoas em torno de um produto cultural ou projeto?

* A partir desse cenário traçado por Jenkins, quais seriam os conceitos-chave para um uso eficiente da convergência de mídias por parte de diferentes atores sociais (podem ser empresas, veículos de comunicação, organizações sociais, culturais etc)?

E aí, é punk? Ô, teminha que dá pano pra manga.

Uma análise obânica da Atoladinha

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A minha descoberta de hoje é a Atoladinha. É isso: descobri a Atoladinha. E admito: até hoje não tinha tocado a Atoladinha, para minha infelicidade. Só agora sei o que estava perdendo.

Descobri-a por recomendação de Sérgio Amadeu, o mentor do Trezentos, “Irineu Franco, o Perpétuo”, Silvio Rocha e Mariel. Estávamos no glorioso Sujinho, hoje à noite, quando eles me contaram do famoso funk cujo lastro cultural é invejável.

E o fizeram para falar do curta caseiro L´ Atolerette, feito a partir da letra do funk Atoladinha. Sensacional, de verdade. Uma aula de linguagem cinematográfica. A Atoladinha à lá Godard, à lá nouvelle vague, com planos longos, poucos diálogos, o ar blasé que tanto nos acostumamos a ver no Cinema Moderno. Que Jean Seberg; que Anna Karina que nada. O negócio é A Mulher da Areia, a Atoladinha.
Gamei. Bom, mas deixemos o vídeo para um próximo post.

Melhor é uma explicação epifânica que Tom Zé fez de quem? Da Atoladinha.

Primeiro foi no Globo, depois no Jô Soares.

Trata-se de uma explicação obanicamente – não macainquicamente nem bushimente – feita por nosso bardo a respeito do refrão “Tô ficando atoladinha, tõ ficando atoladinha.”

Analisa Tom Zé:

“ O refrão de Atoladinha é uma metarefrão microtonal e polissemiótico”.

Hã?

“É uma das ondas concêntricas que a bossa nova fez desencadear”.
Fantástico. Bravo!

“Uma moça qualquer estava com esse rapaz e disse: “Tô ficando a-to-la-di-nha. Tô ficando a-to-la-di-nha. Que liberdade essa mulher lançou no mundo!

Inenarrável!

“A professora Carmita Abdo, diretora de departamento de sexologia da USP – vejam, o mundo mais civilizado do Brasil, o mais educado-, fez uma pesquisa com as meninas da USP, de 15 a 25 anos. (Constatou que) 68%, 75% das meninas da USP não GO-ZA-VAM. Não GO-ZA-VAM. E eram vocês que não gozavam!

Impagável. Vale a pena conferir.

O que significa essa tal convergência de mídias?

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Vocês, meus amigos, devem repetidas vezes ouvir, ler e ver citações sobre a convergência de mídias. O termo costuma ser evocado como referência à reunião de vários tipos de conteúdos num mesmo suporte. Como exemplo, pensem nos celulares, que se transformaram numa maquininha maravilhosa que tem web, vídeo, música, Excel, Word, fotos, joguinhos etc. E que até servem para falar com alguém.

Mas será que a convergência de mídias é isso mesmo?

Mais: já paramos para pensar em qual a serventia desse troço no qual todo mundo fala? De que forma ela interfere na vida em sociedade?

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As coisas começaram a ficar mais claras para mim a esse respeito a partir do momento em que comecei a ler um ótimo livro chamado “Cultura da Convergência”, (Editora Aleph) de Henry Jenkins, pesquisador e professor do badalado MIT (Massachussetts Institute of Technology). Com um texto agradável e descomplicado, Jenkins nos apresenta uma visão muito peculiar e inovadora desse fenômeno.

O ponto central de Jenkins é o seguinte: o importante em relação à convergência de mídias não é a tecnologia, a máquina (celular, TV, PC), mas sim as pessoas, ou seja, o uso convergente que fazemos do conteúdo (entendido aqui de maneira bem ampla) nesse liquidificador digital em que se transformou o mundo.

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Vejamos o que o autor escreve:

Meu argumento aqui será contra a ideia de que a convergência deva ser compreendida principalmente como um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos.”

Ele continua:

“Em vez disso, a convergência representa uma transformação cultural, conforme os consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdo midiáticos dispersos.”

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Mais algumas palavras, para clarear.

“A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros.”

Qualquer semelhança com a produção, distribuição e consumo de conteúdo nas redes sociais não será mera coincidência.

Ao falar em convergência de mídia, Jenkings nos remete à inteligência coletiva, conceito desenvolvido por Pierre Lévy, e à cultura participativa, da qual a web 2.0 é a face mais visível.

A interatividade modifica o modo como nos relacionamos com a mídia e com as demais pessoas por meio das mídias, o que tem repercussões diretas na economia, política (vide Obama), cultura, publicidade e educação.

Por hora, é isso. Logo voltarei ao tema.

O marketing na era do narcisismo

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Caravaggio, Narciso, c. 1597, Palazzo Barberini, Roma

Mais um artigo meu, publicado na Gazeta Mercantil ontem.

Algumas ideias sobre Big Brother, web 2.0, marketing etc.
Se quiser ler no site, clique aqui.

Opinião

03/03 – 01:09
O marketing na era do narcisismo

Clayton Melo

3 de Março de 2009 – Você, leitor, já pensou por que um reality show em que moças turbinadas e rapazes sarados, entre fuxicos e remelexos debaixo dos lençóis, continua a hipnotizar milhões de telespectadores? Já analisou a razão pela qual as campanhas publicitárias usam cidadãos comuns como estrelas (vide Brahma, com um gari que trabalha no sambódromo do Rio de Janeiro) e grandes eventos (como o festival musical Skol Beats, cuja programação foi influenciada pelos internautas) converteram-se em tendência nos projetos de marketing?

Ou então já se perguntou o que levou à explosão extraordinária das comunidades virtuais, como Orkut e Facebook? Por que os blogs, espaços onde qualquer um é o protagonista, são acessados por mais de 11,6 milhões de pessoas por mês no Brasil?

De onde vem esse desejo irrefreável de participação, colaboração e exposição na sociedade contemporânea, fenômeno que a web 2.0 – modo como é definido o estágio atual da internet – deu novos contornos? O livro “A Era do Vazio – ensaios sobre o individualismo contemporâneo” (Editora Manole), do filósofo francês Gilles Lipovetsky, nos dá a chave para a compreensão desse complexo e fragmentado modo de vida.

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FRANCIS Bacon, Série de Auto-Retratos (1971/72)

Mesmo publicado no distante 1983, “A Era do Vazio” nos fornece uma análise atual sobre um processo que só se acentuou de lá para cá. Se hoje vivemos o reinado do indivíduo, as bases para essa realidade foram pavimentadas há algumas décadas, notadamente dos anos 1980 em diante.

O vazio a que se refere o título do livro é a “era pós-moralista, o fim de uma época de valorização do sacrifício e de condenação do prazer”, escreve na apresentação da obra Juremir Machado da Silva, doutor em Sociologia pela Sorbonne, Paris V. Assim, estamos mais soltos, livres e perdidos e menos engessados pelas regras sociais. É o “crepúsculo do dever” e a exaltação do efêmero como atmosfera cultural.
Para Lipovetsky, trata-se de um modo de socialização e de individualização inédito, que rompe com o que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII. É a segunda revolução individualista. “Negativamente, o processo de personalização remete à fratura da socialização disciplinar; positivamente, ele corresponde ao agenciamento de uma sociedade flexível baseada na informação e no estímulo das necessidades, no sexo e na consideração dos ‘fatores humanos’, do culto ao natural, da cordialidade e do humor.”

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E o que a web 2.0 e o Big Brother Brasil, da Rede Globo, têm a ver com isso? É que o diagnóstico feito por Lipovetsky – quando a internet comercial nem existia – constata que chegamos ao “individualismo total”, uma espécie de neonarcisismo. Época em que tudo muda pela comunicação, interação, contato e a livre escolha.

“Assim como a idade moderna foi obcecada pela produção e pela revolução, a idade pós-moderna é obcecada pela informação e pela expressão”, analisa Lipovetsky. “(…) trata-se de uma aspiração de massa cujo último avatar é o extraordinário aumento das rádios livres. Somos todos DJs, apresentadores e animadores: ligue na FM e será envolvido por uma onda de músicas, de mensagens rápidas, de entrevistas, de confidências (…). Democratização sem precedentes da palavra: todo mundo é incitado a ligar para a central telefônica, quer contar algo a partir de sua experiência íntima, ou pode se tornar um locutor e ser ouvido.” O filósofo completa ao dizer que, “quanto mais a gente se expressa, menos há o que dizer”. “Esse paradoxo é reforçado também pelo fato de que ninguém, no fundo, está interessado nessa profusão de expressões, com uma exceção que deve ser levada em conta: o próprio emitente ou criador.” Onde Lipovetsky escreve rádios livres, poderíamos perfeitamente colocar a palavra blogs.

Depois de ler o trecho acima, você pode pensar que o filósofo francês é mais um chato de galocha que está louco para lançar a mídia e a internet, essas criações do Coisa Ruim, no fogo do inferno. Não é nada disso. Embora crítico, Lipovetsky não se coloca nessa posição – muito menos eu. Antes, quer nos mostrar que já não somos os mesmos, pois cultural e moralmente mudamos de pressupostos, observa Juremir Machado da Silva. Talvez assim possamos sintonizar com outros olhos o Big Brother Brasil e então compreender melhor o tempo em que vivemos.

O Obama brasileiro gosta, é claro, de churrasquinho

 Já temos o nosso Barack Obama. É Rinaldo Gaudêncio Américo, de 36 anos, motorista da Rádio Globo do Rio de Janeiro.

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