A Mulher do Lado

Gérard Depardieu e Fanny Ardant , em A Mulher do Lado (Truffaut, 1981)

Livre delírio deste blogueiro feito a partir de A Mulher do Lado, de Truffaut.

“Você sempre vai me amar, vai me proteger?”, perguntou ela. Seu medo era o de sempre: o amor que acaba, as juras perdidas entre cartas, fotos e lembranças amareladas. Havia anos que não se viam, até que se mudou para a casa vizinha à dele. “Pra onde vão todos esses carros?” Ele não falou nada – quieto, tentava descobrir por que o passado retorna.

“Quanto mais estúpidas, mais verdadeiras são as músicas”, disse ele. Ela não entendeu. “O que importa”, emendou ele, “é que as histórias de amor precisam ter um início, um meio e um fim”. Ela continuou sem compreender. E então puxou o gatilho. Foram dois disparos.

Me serve um café que o mundo acabou

 

Carlota resolveu morrer bem na hora do meu café. “Levanta, me serve um café”. Repeti, e nada. Eu estava de bode, mas mesmo assim implorei, ajoelhei aos seus pés, beijei-lhe a face ainda levemente ruborizada. Nada. Chacoalhei suas ancas, os peitos, braços, os beiços ainda borrados de batom. Nada de novo. Absolutamente nada

 

Telefonei pro programa do Datena, quem sabe ele não me ajudava. Caiu numa loja de sex shop. Deixei para lá.

 

Voltei para a cozinha, Carlota poderia ter desistido dessa bobagem de morrer bem na hora do meu café. Fiz glu-glu perto dela, assim, ó, com beicinho, do jeitinho que ela gostava.  Prometi que ela nunca mais seria barrada no baile e concordei em trocar meu cachorro por uma criança pobre. Fiz até psiu. Também não adiantou. Carlotinha, querida, agora quem é que vai fazer a mistura?

 

 

Nesse momento começou a tremer, o prédio começou a tremer. O pôster do Agnaldo Raiol e o vidro de alfazema da Carlota despencaram. Meu LP com os 12 finalistas do primeiro Rock in Rio foi para o além. Só restou a foto do Gilliard, impávido, quase um colosso sorridente. Quando queria um chamego, ela sussurrava no pé do meu ouvido. “Aquela nuvem que passa/lá em cima sou eu…”. 

 

O tremor aumentava. Do lado de fora, tudo explodia; o povo corria, histeria, sirenes, o caos. “Ó, Deus, Nostradamus, Forças do Bem e da Maldade, Vudoo, calamidade, juízo final. Então és tu?”.

De repente perdi a paciência, resolvi mostrar quem é que manda e ordenei. “Carlota, levanta e me serve um café que o mundo acabou!”

Nunca fui office-boy

Eu me chamo Clayton, mas nunca fui office-boy. Ando bem rápido, quase correndo, igualzinho a eles, mas é bom repetir que nunca fui office-boy. Além do mais, muitas pessoas não gostam dos office-boys.

Eu gostava, mas tem gente que não gosta. O pai da menina, por exemplo. Ele odeia, xinga, fica histérico só de ouvir falar nessa espécime de ser humano que, na minha época, se caracterizava pelo modus operandi de entrar no busão pela porta de trás, sair sem pagar e assim embolsar o troco da condução.

É por isso que o pai da menina tá fulo da vida com o office-boy. Na verdade, é por isso e também porque o maluco deu pá-pum na filha dele, chamou o coroa de mano e pediu cinqüenta conto como ajuda de custo. “É o que o senhor dar puder ajudar, pra começar. Já tenho outro filho, tá ligado?”

Por isso é bom repetir que, apesar do meu nome, nunca fui office-boy.

Sim, os office-boys, um dia eles existiram em São Paulo. Hoje eles trocaram as solas do sapato pelas duas rodas e se chamam motoboys. Eles continuam andando rápido demais, bem rápido, mas bem rápido mesmo.

Mas ia dizendo que eu costumo andar rápido demais, mesmo sem nunca ter sido office-boy. Porque os office-boys, vocês sabem, andam rápido demais – ou andavam?
O tempo é sempre uma grande questão. E a cabeça também vai numa velocidade! Lampião, Sílvio e Vesgo, Pânico, Chacrinha, Facebook, baby look, increase your pênis – acabou o xampu?

Tudo isso porque ando andando rápido demais, mesmo sem ter na carteira o registro de office-boy. E o Flash Blog? Tem nada a ver, mas já fui até atendente do McDonald´s, sonhava com o Big Mac.

A verdade mesmo, pra valer, é que apenar do meu nome eu nunca fui office-boy.

O amigo do Maradona

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Tinha certeza de que as coisas seriam diferentes. Passou no jornal, no reclame, o Lula falou. Não tinha dúvidas. É a era desse tal de  Investment Grade. O Brasil tá bombando. Parcelamento em 60 X sem juros, sem entrada, sem saída, crédito consignado. Mas só com carteira.  

Mas quem tem carteira? A Le Postiche tem. E no camelô também. No Largo Treze, o templo das quinquilharias. Eu jogava bola lá, no Centro Educacional. 

Diziam que o técnico, o Eliseu – um cinquentão de meia idade metido a Telê – jogava do lado de lá. Vai saber. Foi no Largo Treze que comprei o disco do Gueto. G-U-E-T-O, uahahhhhhh! O Gueto achava que, nos anos 90, era misturando que a gente inventa. Não é solução, mas é uma bela rima. 

Que importa? Importa que eu queria ser o Zico, Zé Sérgio, Pitta. Ou quem sabe o Careca. Me lembro do gol dele contra o Guarani, no final da prorrogação. O brinco de ouro despencou da orelha de princesa.  

Eu queria ser o Careca. Fazer gol e imitar o Sinhozinho Malta, no Morumbi, eletrizar as multidões. Eu queria ser o Careca! Sei lá de onde surgiu essa conversa cabeluda, mas o fato é que o Careca é amigo do Maradona. E não se fala mais nisso.    

 

Como era doce o meu Bluetooth *

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 ”Ah… mas que bluetooth, hein?” 

Vem cá, meu chuchu, quero fazer um bluetooth em você. Trocar fluídos, energias cósmicas. Mas que banda larga, hein? 2GB de puro deleite e prazer. Vamos fazer um amor wireless, bluetoofar até cair: a bateria aguenta até seis sem tirar. Como é que é? Prefere papai-mamãe? Então cabo na sua porta USB. Agora você vai ver o que é um coaxial de verdade. Como é que é? Você tem quatro portas USB? Poderosa, poderosa.  

Mas vem, minha pururuca, vamos fazer uma festa do bluetooth. Um download a mais não mata ninguém. Deixa fazer mais um bluetooth aí, vai? É rapidinho, cê vai ver. Gostou do meu bluetooth? Então vem aqui, vai, é só chegar perto que…bluetoooooooth!   

* Um diálogo wireless com Bloganvile. 

Das lembranças e descobertas

Me lembrava de você. – É? e eu de você – olhar suave, uma elegância só. E você um pouco mais velho, veterano, digamos assim. - Não muito, e aqui estamos de novo; o que fez nesses anos? Viajei pelo mundo, tantos mares.  – Posso ver ondas em seus olhos. Muito trabalho, mas também foram tempos de flores. – Me acompanha em mais um chope?

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O intervalo do olhar

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Jean Seberg e Jean Paul Belmondo, em Acossado, de Godard

Vamos marcar, sim. Onde iremos? Conversar, sair por aí. Claro, assunto é o que não falta – sem chance para monólogos. Lembra daquele tempo? Mal nos conhecíamos. De vista, apenas. Corredores; um sonho de primeira página. Mas aqui estamos de novo. Anos depois. Com histórias na bagagem, uma imagem feliz de mulher. Um coração que sorri. A sutileza no intervalo do olhar.  

Sônia Silk, a Fera Oxigenada

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Helena Ignez como Sônia Silk, em Copacabana Mon Amour 

Homenagem: Helena Ignez – microconto delirado pelo editor de Ponto de Fuga, inspirado no filme Copacabana Mon Amour (1970), dirigido por Rogério Sganzerla e com Helena Ignez (Sônia Silk), Paulo Villaça (Dr. Grilo) e Julia Lemmertz no elenco 

É ela, Sônia Silk, A Fera Oxigenada. “Eu não sou tarada!”, berra. “São todos tarados! Ta-ra-dos! Eu não sou tarada!”. Cabelos louros e pele alva, pernas e coxas à mostra – faz ponto em frente a um camburão da polícia. Vestidinho vermelho provocante, anda à solta pelo calçadão, pelas ruas e inferninhos, mas há 365 anos é perseguida pelo Exu Corcovado, desde quando saiu da África num navio negreiro. O Exu a deseja, o Exu quer luxúria. “Sai Satanás! Sai seu tarado. Eu não sou uma tarada!” 

A mãe disse que ela estava possuída pelo demônio e a expulsou de casa. Proibiu-a também de cantar na Rádio Nacional. O desejo de Sônia Silk era ser cantora de rádio. No fundo, queria ter vida de madame. “Tenho nojo de pobre. Minha família é muito rica, tem dez banheiros”. E a juventude é seu troféu. “Tenho pa-vor da velhice. Pa-vor da velhice.”  

Na praia, seu irmão Vidimar come velas, rola na areia e tem ataques histéricos. Macumbeiro bicha, suspira ao cheirar as cuecas de Dr. Grilo, seu patrão. Dr. Grilo o esbofeteia e o prensa no tanque de lavar roupa. “Não tem água, tá tudo fedendo, tá tudo fedendo”. E o cafetão pé de chinelo quer Sônia Silk. “Daqui pra frente você vai trabalhar pra mim. O dinheiro seu vai ser todo meu. A gente vai viver junto num barraco”. “Tá pensando que eu sou otária?”. O malandro jura vingança. No orelhão: “Amigos, Sônia Silk, a Miss Prado Júnior, ela é perigosíssima. Ela e toda a família são comunistas. CO-MU-NIS-TAS. Manda prender todo mundo”.   

No hotel Holiday, Dr. Grilo come Vidimar e depois se esbalda com a Fera Oxigenada. E o santo baixa em todo mundo, na hora H. “Minha filha, tenho uma boa notícia. Você vai se livrar do Brasil e dos vexames do dia de hoje. Depois do último brasileiro, o que vai acontecer?” 

Esta é Sônia Silk: a rainha da chanchada psicodélica, a macaca de auditório. A escandalosa. E sobre as cabeças em Copacabana o sol deixa a todos atônitos, tarados e lelés. São as forças sobrenaturais, os fantasmas esfomeados do planeta.  

****  

Depois das sandices, vejas abaixo algumas cenas de Sônia Silk em Copacabana Mon Amour. Vale a pena.  

“São todos ta-ra-dos!”


O fantasma persegue Sônia Silk

 

A Escandalosa canta uma rumba
 

O Bandido da Luz Vermelha

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Elas não resistiam ao charme de Luz

O Bandido da Luz Vermelha está entre nós. Graças a Deus! E ao Diabo. Ele vive de roubo e de empréstimo dos amigos. Grandes óculos escuros, o lenço envolto no rosto – o angu de pólvora na boca da mocinha. “Eu sou um boçal”, diz. 

 Janete Jane tava lá também. A escandalosa. Um dia me contou o que Ângela Carne e Osso falou pra ela.  “Os homens são todos uns boçais”.  

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 Janete Jane arrebatou o coração de Luz

No Espaço Unibanco, eu vi O Bandido da Luz Vermelha. Ele se sentou ao meu lado, no chão, no meio da sala apinhada de gente. Um espantoso tarado sexual, um pobre diabo saído de Freud ou da Boca do Lixo.  “Terceiro mundo vai explodirrrrrr. Quem tiver de sapato não sobra!” O anão histérico, profeta: “Não pode sobrar, NÃO PODE SOBRAR. É O EXTERMÍNIO TOTAL, EXTERMÍNIO TOTAAAAAL!  

O Bandido está entre nós. “Traz um omelete, madame”.

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O terror da Boca do Lixo 

 A polícia continua caçando o Bandido. Mas o delegado Cabeção não tá com nada. Carlão tava lá também, todo mundo tava, todo mundo viu. E ninguém fez nada. “Se der um milhão eu passo fogo nesses carango todo. Taco fogo e me mando pra Acapulco, no México”; palavra do Bandido.   

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Janete Jane, escandalosa e irresistível

E o Bandido descabela a madame no tapete, enfia-lhe a mão entre as pernas, nos peitos – arranca-lhe a roupa no dente. Ela grita, esperneia, e se entrega com o fervor e gratidão. 

Janete Jane tava lá também, e contou tudo, tudinho pra polícia. 

 

Jenny, siliconada e escultural

Ele premeditou tudo. Imaginou-a vestida para matar, num vermelho-paixão de tirar o fôlego. Jenny, siliconada e escultural, a mulher com quem sonhava em seus devaneios secretos. Ombros à mostra, coxas soltinhas, o quilômetro de pernas a lhe indicar o jardim das delícias. Ah, as coxas… Só de pensar o sangue sobe a ladeira e as pernas tremem. “Ah, safada. É hoje que você não me escapa”. 

E lá foi ele. Armani devidamente alinhado, gel no cabelo, galã – taças de cristal à mesa, um convite a Dionísio. O olhar fatal, por trás da grossa armadura preta. “É hoje, é hoje!”.  

Ela chega. Cruza as pernas, descruza – o tampo da mesa, de vidro, não esconde a visão do paraíso. Ele se lembra de Sharon Stone. “O cabelo é preto, mas o efeito é o mesmo”. Ele não agüenta. “É agora”.  Num rompante de loucura, ele tira a roupa e avança, vai de óculos mesmo.

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Entregue ao desvario, deita-a na cama e arranca-lhe o vestido, no dente. Sussurra em seus ouvidos palavras de luxúria e volúpia. Loucura, loucura! E aumenta o ritmo, e vai, e vem, ela faz qualquer coisa, e ele sente o vulcão a mil, o êxtase correndo as veias, e vai, e vem, e vai…

Depois acende um cigarro e cumpre o script: “Hey baby, foi bom pra você?” 

* Livremente inspirado no editorial de moda sobre a boneca erótica Jenny, do fotógrafo André Schiliró, que será publicado na edição de janeiro da revista mag!, conforme publicado na sexta-feira, pela Folha de S.Paulo (acesso livre para assinantes do jornal ou do UOL)       

Noite David Bowie

E lá estava Ziggy Stardust, numa câmara escura, conversando com Inácio e Fradique. Pediu para guardarem suas spiders from Mars enquanto procurava Lady Stardust – no balcão, escondida, ela se divertia com o jeito esquisito de ele tocar guitarra, com a mão esquerda. “É um homem especial”, disse ela. À espreita, o prefeito de Bloganvile espiava por Lady Stardust e pensava que Ziggy era mesmo um sujeito de sorte.   E vem uma China Girl, e vem um Modern Love – livre, intenso e do tamanho da noite.

Me vi um homem a flutuar pelas estrelas – “Let´s dance, Lady Stardust?”. Gosto assim,   quando o passado é futuro e um novo homem se constrói na calada da noite, noite escura, barulhenta em seu silêncio.   

Bowie rolando sem parar, eu no meio da pista, rolando sem parar, dançando como se assim não parasse para lembrar, como se assim o riso e o choro fossem uma coisa só.

Mergulho em Space Oddity levando na boca uma vida inteira. A moça ao lado então me pergunta – ou comenta, ou fala qualquer coisa que não me lembro direito, só me lembro de sua voz segura, mulher feita:  “O cantor tem o timbre de voz do Bowie, não?” ou “Você gosta mesmo de Bowie, né?” ou ainda “Você canta todas as músicas”.  Cabelos curtos, pretos,  gestos suaves. “Entra no site da minha editora que você encontra meu e-mail”, ela disse, para logo emendar.  “Você é jornalista, né?”. Como sabe? Deve estar escrito na minha testa.

Surge Rebel, Rebel, e eu chamo novamente Major Tom, para tomar uns goles, flutando acima da Lua. O mundo é mesmo azul, e vejo então como as estrelas podem parecer diferentes hoje.  

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