Bob Dylan, o Twitter e o futuro

Leio em “Crônicas-Volume 1″, de Bob Dylan (Ed Planeta), ele relembrando que nasceu na Segunda Guerra, época de transformações profundas. “Se você tivesse nascido por volta dessa época ou estivesse vivo e antenado, poderia sentir o velho mundo acabando e o novo começando”.

E o que dizer de hoje, com as mentes alvoroçadas diante da revolução tecnológica, da contínua conexão de tudo e todos, com efeitos diretos em corações e mentes? Novas maneiras de criar, organizar e expressar ideias? Visões de mundo em 140 caracteres ?

Necessidade de reinventar as formas de participação política, cultural e de fazer relacionamentos? Ou tudo passaria apenas de mais uma jornada insana da humanidade, um delírio de início de milênio? Bom, se eu estiver devaneando demais, esqueça tudo. Apenas veja e ouça o velho Bob.(com Joan Baez, melhor ainda).

A aventura da arte

felicidadeasas

“Temos a Arte para que a Verdade não nos destrua”, já disse Nietzsche. Cioran diz algo similar quando escreveu que a “a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se coloca nela”.

Não sei ao certo porque me lembrei disso hoje – essas máximas me acompanham há alguns anos. Talvez porque em certo momentos a arte – ou mais precisamente as janelas que ela nos abre – seja mais urgente que em outros. Talvez porque em alguns instantes tudo o que menos nos apeteça seja a crueza da materialidade, a dureza da racionalidade.

A beleza de um poema, de um livro, de um filme: vamos com eles, de mãos dadas, numa aventura purificadora.

Convergência de mídias 2: dez anos de Matrix

Imagens: do Matrix
matrix1
A cultura da convergência pode desembocar numa nova forma de participação política?

Alguns posts atrás escrevi sobre a convergência de mídias (role a página e encontrará rapidinho). Pois falei que voltaria ao tema. E aqui estou.

Vou rascunhar mais algumas ideias levantadas a partir da leitura de “Cultura da Convergência”, de Henry Jenkins (esse livro que está me virando a cabeça!).

Direto ao ponto: que reflexões podemos fazer sobre o significado do processo de convergência de mídias e quais as implicações desse fenômeno na sociedade, na economia e na produção de conteúdo? Para pensar a respeito, vale sintetizar novamente o raciocínio dele aqui, com todos os riscos dessa simplificação.

O ponto central do autor é que a convergência de mídias não ocorre nas máquinas, na tecnologia, mas sim “nos cérebros dos consumidores individuais e em suas interações sociais com os outros”. Ou seja, devemos enxergar a convergência a partir da relação cruzada – e interconectada – que as pessoas passam a ter com as mídias.

Se meu entendimento sobre o que diz Jenkins estiver na linha certa, a convergência estaria muito mais associada à maneira como a informação (num sentido bem amplo) é recebida, processada e re-elaborada pelas pessoas – sempre lembrando que esse movimento se dá em múltiplos canais de comunicação e a partir da interação de muitos com muitos. As palavras interação e a cultura participativa são fundamentais nesse percurso.

matrix-big1

É nesse sentido que se aplica a afirmação de Jenkins de que o consumo se tornou um processo coletivo – o autor aproxima a ideia de convergência de mídias à de inteligência coletiva desenvolvida por Pierre Lévy. “A inteligência coletiva pode ser um fonte alternativa de poder midiático. Estamos aprendendo a usar esse poder em nossas interações diárias dentro da cultura da convergência”, escreve.

Como resultado do desenvolvimento da cultura da convergência nasce a narrativa transmidiática. “A narrativa transmidiática refere-se a uma nova estética que surgiu em resposta à convergência de mídias – uma estética que faz novas exigências aos consumidores e depende da participação ativa das comunidades de conhecimento. A narrativa transmidiática é a arte da criação de um universo”.

Dois símbolos da narrativa transmidiática são Heroes e Matrix, diz Jenkins. Matrix, aliás, é classificado pelo autor como o “filme cult emblemático da cultura da convergência.”

matrix-big3

Isso porque, escreve Jenkins, no contexto da convergência,

para viver uma experiência plena num universo ficcional, os consumidores devem assumir o papel de caçadores e coletores, perseguindo pedaços da história pelos diferentes canais, comparando suas observações com a de outros fãs, em grupos de discussão on-line, e colaborando para assegurar que todos os que investiram tempo e energia tenham uma experiência de entretenimento mais rica. Alguns escreveram que os irmãos Wachowiski, que escreveram e dirigiram os filmes de Matrix, forçaram a narrativa transmidiática além do ponto que a maioria do público estava preparada para ir.”

Em outros termos, cria-se um universo ficcional, interconectado em diferentes canais de comunicação, cujo sentido só é plenamente depreendido quando o conteúdo é experimentado em todo o seu conjunto.

matrix_5

Bem, poderia ir longe aqui na descrição do raciocínio de Jenkins, mas creio que esses pontos já sejam suficientes para fazer as seguintes indagações:

* O fenômeno é descrito pelo autor no universo da indústria cultural. Será que o engajamento convergente das pessoas pode se estender um dia para questões políticas e sociais? Não estaríamos diante da possibilidade de uma forma de participação política? Qual o possível efeito disso?

* Quais são as indagações certas que devemos fazer no momento de pensar uma atuação eficaz num ambiente de convergência de mídias? Imagine o caso de alguém que queira montar um projeto de conteúdo no ambiente da web 2.0, por exemplo.

* A “criação de um universo” no qual um determinado produto cultural é inserido, a exemplo de Matrix e Heroes, será de fato a arma mais poderosa para congregar as pessoas em torno de um produto cultural ou projeto?

* A partir desse cenário traçado por Jenkins, quais seriam os conceitos-chave para um uso eficiente da convergência de mídias por parte de diferentes atores sociais (podem ser empresas, veículos de comunicação, organizações sociais, culturais etc)?

E aí, é punk? Ô, teminha que dá pano pra manga.

O que significa essa tal convergência de mídias?

midia

Vocês, meus amigos, devem repetidas vezes ouvir, ler e ver citações sobre a convergência de mídias. O termo costuma ser evocado como referência à reunião de vários tipos de conteúdos num mesmo suporte. Como exemplo, pensem nos celulares, que se transformaram numa maquininha maravilhosa que tem web, vídeo, música, Excel, Word, fotos, joguinhos etc. E que até servem para falar com alguém.

Mas será que a convergência de mídias é isso mesmo?

Mais: já paramos para pensar em qual a serventia desse troço no qual todo mundo fala? De que forma ela interfere na vida em sociedade?

convergencia_willpubli

As coisas começaram a ficar mais claras para mim a esse respeito a partir do momento em que comecei a ler um ótimo livro chamado “Cultura da Convergência”, (Editora Aleph) de Henry Jenkins, pesquisador e professor do badalado MIT (Massachussetts Institute of Technology). Com um texto agradável e descomplicado, Jenkins nos apresenta uma visão muito peculiar e inovadora desse fenômeno.

O ponto central de Jenkins é o seguinte: o importante em relação à convergência de mídias não é a tecnologia, a máquina (celular, TV, PC), mas sim as pessoas, ou seja, o uso convergente que fazemos do conteúdo (entendido aqui de maneira bem ampla) nesse liquidificador digital em que se transformou o mundo.

110767024_3499e736c7

Vejamos o que o autor escreve:

Meu argumento aqui será contra a ideia de que a convergência deva ser compreendida principalmente como um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos.”

Ele continua:

“Em vez disso, a convergência representa uma transformação cultural, conforme os consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdo midiáticos dispersos.”

cabeca-doida

Mais algumas palavras, para clarear.

“A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros.”

Qualquer semelhança com a produção, distribuição e consumo de conteúdo nas redes sociais não será mera coincidência.

Ao falar em convergência de mídia, Jenkings nos remete à inteligência coletiva, conceito desenvolvido por Pierre Lévy, e à cultura participativa, da qual a web 2.0 é a face mais visível.

A interatividade modifica o modo como nos relacionamos com a mídia e com as demais pessoas por meio das mídias, o que tem repercussões diretas na economia, política (vide Obama), cultura, publicidade e educação.

Por hora, é isso. Logo voltarei ao tema.

O marketing na era do narcisismo

21narciso_caravaggio
Caravaggio, Narciso, c. 1597, Palazzo Barberini, Roma

Mais um artigo meu, publicado na Gazeta Mercantil ontem.

Algumas ideias sobre Big Brother, web 2.0, marketing etc.
Se quiser ler no site, clique aqui.

Opinião

03/03 – 01:09
O marketing na era do narcisismo

Clayton Melo

3 de Março de 2009 – Você, leitor, já pensou por que um reality show em que moças turbinadas e rapazes sarados, entre fuxicos e remelexos debaixo dos lençóis, continua a hipnotizar milhões de telespectadores? Já analisou a razão pela qual as campanhas publicitárias usam cidadãos comuns como estrelas (vide Brahma, com um gari que trabalha no sambódromo do Rio de Janeiro) e grandes eventos (como o festival musical Skol Beats, cuja programação foi influenciada pelos internautas) converteram-se em tendência nos projetos de marketing?

Ou então já se perguntou o que levou à explosão extraordinária das comunidades virtuais, como Orkut e Facebook? Por que os blogs, espaços onde qualquer um é o protagonista, são acessados por mais de 11,6 milhões de pessoas por mês no Brasil?

De onde vem esse desejo irrefreável de participação, colaboração e exposição na sociedade contemporânea, fenômeno que a web 2.0 – modo como é definido o estágio atual da internet – deu novos contornos? O livro “A Era do Vazio – ensaios sobre o individualismo contemporâneo” (Editora Manole), do filósofo francês Gilles Lipovetsky, nos dá a chave para a compreensão desse complexo e fragmentado modo de vida.

francisbacon04-02
FRANCIS Bacon, Série de Auto-Retratos (1971/72)

Mesmo publicado no distante 1983, “A Era do Vazio” nos fornece uma análise atual sobre um processo que só se acentuou de lá para cá. Se hoje vivemos o reinado do indivíduo, as bases para essa realidade foram pavimentadas há algumas décadas, notadamente dos anos 1980 em diante.

O vazio a que se refere o título do livro é a “era pós-moralista, o fim de uma época de valorização do sacrifício e de condenação do prazer”, escreve na apresentação da obra Juremir Machado da Silva, doutor em Sociologia pela Sorbonne, Paris V. Assim, estamos mais soltos, livres e perdidos e menos engessados pelas regras sociais. É o “crepúsculo do dever” e a exaltação do efêmero como atmosfera cultural.
Para Lipovetsky, trata-se de um modo de socialização e de individualização inédito, que rompe com o que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII. É a segunda revolução individualista. “Negativamente, o processo de personalização remete à fratura da socialização disciplinar; positivamente, ele corresponde ao agenciamento de uma sociedade flexível baseada na informação e no estímulo das necessidades, no sexo e na consideração dos ‘fatores humanos’, do culto ao natural, da cordialidade e do humor.”

narciso_1

E o que a web 2.0 e o Big Brother Brasil, da Rede Globo, têm a ver com isso? É que o diagnóstico feito por Lipovetsky – quando a internet comercial nem existia – constata que chegamos ao “individualismo total”, uma espécie de neonarcisismo. Época em que tudo muda pela comunicação, interação, contato e a livre escolha.

“Assim como a idade moderna foi obcecada pela produção e pela revolução, a idade pós-moderna é obcecada pela informação e pela expressão”, analisa Lipovetsky. “(…) trata-se de uma aspiração de massa cujo último avatar é o extraordinário aumento das rádios livres. Somos todos DJs, apresentadores e animadores: ligue na FM e será envolvido por uma onda de músicas, de mensagens rápidas, de entrevistas, de confidências (…). Democratização sem precedentes da palavra: todo mundo é incitado a ligar para a central telefônica, quer contar algo a partir de sua experiência íntima, ou pode se tornar um locutor e ser ouvido.” O filósofo completa ao dizer que, “quanto mais a gente se expressa, menos há o que dizer”. “Esse paradoxo é reforçado também pelo fato de que ninguém, no fundo, está interessado nessa profusão de expressões, com uma exceção que deve ser levada em conta: o próprio emitente ou criador.” Onde Lipovetsky escreve rádios livres, poderíamos perfeitamente colocar a palavra blogs.

Depois de ler o trecho acima, você pode pensar que o filósofo francês é mais um chato de galocha que está louco para lançar a mídia e a internet, essas criações do Coisa Ruim, no fogo do inferno. Não é nada disso. Embora crítico, Lipovetsky não se coloca nessa posição – muito menos eu. Antes, quer nos mostrar que já não somos os mesmos, pois cultural e moralmente mudamos de pressupostos, observa Juremir Machado da Silva. Talvez assim possamos sintonizar com outros olhos o Big Brother Brasil e então compreender melhor o tempo em que vivemos.

A felicidade, desesperadamente

Este post foi feito ao som de Chet Baker

 

 

“Todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar” (Pascal)

 

Depois de quase uma semana na encantadora Buenos Aires, cá estou de volta à terrinha querida, à marginal do meu coração. Muitas histórias e fotos para postar. Mas, antes disso, umas palavrinhas sobre algo que atualmente me perturba – no melhor sentido do termo, diga-se. Um sentimento que a elegância melancólica da capital portenha pode ter feito aflorar.

 

Estou lendo “A felicidade, desesperadamente”, de André Comte-Sponville. Fruto de uma conferência feita pelo filósofo francês em 1999, o livro é um grande bate-papo sobre o que é a felicidade e por que a perseguimos eternamente (“Todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar”, escreve Sponville, citando Pascal).

 

 

Com leveza e uma narrativa claro e simples, Sponville nos mostra que o fim da filosofia não é formulação de tratados inacessíveis, estéreis, mas sim ser uma amiga que nos auxilia a tornar a vida uma jornada mais prazerosa.

 

Diz Sponville, citando Epicuro, que “a filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona uma vida feliz”.  

“Trata-se de pensar melhor para viver melhor”, reforça Sponville.

 

 

 

 

 

Ele continua:

 

“A felicidade é a meta da filosofia. Ou, mais exatamente, a meta da filosofia é a sabedoria – já que, mais uma vez, uma das idéias mais aceitas em toda a tradição filosófica , especialmente na tradição grega, é que se reconhece a sabedoria pela felicidade, em todo caso por certo tipo de felicidade.(…) Digamos que a sabedoria aponta para uma direção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez”.

 

Conforme Sponville, a norma da filosofia é a verdade, pelo menos a “verdade possível (porque nunca a conhecemos por inteiro, nem absolutamente, nem com total certeza)”. Portanto, “trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível”.

 

Se não dermos a devida atenção ao fato, o cinza da paisagem cotidiana – reflexo da preocupação com contas, dívidas, problemas e dedicação exacerbada ao trabalho -, é capaz de nos embotar a vista e nos tirar do prumo. A filosofia, assim com a Arte, nos aproxima de nossa essência e nos humaniza.

 

Por isso leituras como a de Sponville são necessárias. E renovadoras.

 

 

 

Sempre é hora de criar e inventar

gockel_music_life_lg1.jpg

Sabe quando a cabeça está a mil, cheia de planos, projetos, vontade de realizar? Sabe quando você está inquieto, porque algo lhe cutuca e diz “ei, não fica aí parado, não? Vai em frente, o tempo é agora”?

Sabe quando está decidido a não ser somente mais um e nem de perto lhe passa pela mente ficar no feijão com arroz, ainda mais se sabendo capaz de um caviar?  

Sabe quando dá aquela vontade de ir ainda mais além, olhar pra frente e dizer “vamos nessa, porra!” Criar, inventar, ousar?  

É isso, cara. É isso aí o que tô sentindo. 

O cheiro da alma

Busquei na prateleira um livro que me acompanha desde 2001 e ao qual recorro de tempos em tempos. De Pierre Lévy ( ele mesmo, o filósofo da cibercultura), O Fogo Liberador (Iluminuras). Ótimo. Uma espécie de coleção de memórias filosóficas, aforismos existenciais, reflexões. “Um diário de bordo de um início de viagem, da descoberta do viajante. No meu caso, a viagem certamente não terminou”, diz Lévy no prefácio.

alma-praia-ed.bmp 

Tamanha a identificação com o que sinto atualmente, essas palavras poderiam ser minhas.                      

Vejam esse trecho escrito por Lévy:

“Que atmosfera reina no seu íntimo? O ódio? A agressividade? O ressentimento? A falta? A voracidade? A cobiça? O medo? A culpa? A autocrítica? A auto-satisfação? A hipocrisia? O recalque? A serenidade de fachada? Ou antes a honestidade, o amor, a abertura ao instante? Observe sem tréguas. Sinta o cheiro de sua alma. 

Procuram-se blogueiros

marymoob.bmp

Marimoon: de blogueira a VJ da MTV 

Quando o assunto é blog, alguns torcem o nariz, outros o consideram passatempo de adolescente e por aí vai. Que me perdoem os que pensam assim, mas não há nada mais equivocado. Sim, tem tudo isso no bolo, mas não só. Pelo contrário: há conteúdo bom, há cabeças pensantes, há divertimento de qualidade e – aí é que vem a novidade – há inclusive blogueiros tão talentosos que estão sendo requisitados pelas empresas. É isso mesmo: a tal brincadeira de moleque começa a invadir as empresas e já rende uns bons trocados para aqueles que dominam a arte de blogar. É uma profissão do futuro. Futuro mais próximo do que se imagina.  

materia_gazeta.jpg

 

A referida reportagem deste missivista

 

Fiz uma matéria, publicada no dia 30 de janeiro na Gazeta Mercantil, sobre os blogs corporativos. A história é a seguinte: algumas companhias, atentas às mudanças de comportamento na sociedade, começam a apostar nesse instrumento de comunicação, cujas características principais são a interatividade, o diálogo, a agilidade na comunicação e o compartilhamento de experiências.  Por que empresas como Tecnisa, IBM, Natura, Intel, Microsot, Unilever e Melissa, entre tantas outras, resolveram blogar? Bem resumidamente, porque perceberam que as novas gerações (muitas das quais chegando à fase adulta) e também uma boa parcela dos marmanjos na casa dos 20 aos 30 e poucos mais ou menos passeiam sempre pela blogosfera. Já imaginou a garotada que hoje tem 10 ou 15 anos daqui uns 20 anos? Eles pensam e se relacionam com os meios de comunicação de uma maneira muito diferente daquela como nós nos acostumamos. Eles recebem doses de aveia Quaker digital na mamadeira.  

ora_bebe.jpg

 

No futuro, como esses pimpolhos usarão as mídias?

 

Um grande exemplo é o de Luciana Soldi – não de aveia Quaker digital, porque ela já tem trintinha, né, Luciana?). Trata-se de uma moça descolada que fez, como lembra o dito popular, de um limão, uma limonada (é ela quem está na foto da matéria e aqui embaixo). Conheci a Luciana num curso de blogs que fizemos juntos. Como trabalha com o mundo digital (que eu cubro com prazer como jornalista), batemos um longo papo sobre web 2.0, entre outros assuntos.  Quem nos apresentou foi Gil Giardelli, especialista em marketing digital e um dos professores do curso (ele também foi meu entrevistado na reportagem).  Outro bom caso é o Ian Black, um dos pioneiros da blogosfera no Brasil, um desbravador digital. Sua experiência como blogueiro levou-o a se tornar um consultor profissional para a área de blogs.  

  

luciana-soldi-ed.jpg

Luciana ousou e agora colhe os frutos (foto: Revista Publicidad)

 

E tem também a história de Marimoon, que rumou de blogueira a VJ da MTV ( é a garota descoladérrima que abre este post). Famosa na blogosfera juvenil e adepta de cabelos coloridos, botas e meias modernosas, ela é articulada e talentosa. Foi chamada para um teste na emissora. Passou e hoje comanda um programa. Conversei com ela uns dias antes da estréia. Ela estava ansiosa e feliz da vida.      

Como diz Cátia Lassalvia, especialista em marketing digital que conheci nesse mesmo curso, o “blog é uma grande conversa”. É esse o lado bacana da história: o blog nos permite conhecer pessoas, que aprendem mutuamente, divertem-se juntas, trocam experiências e podem também se mobilizar para defender alguma idéia ou movimento.   

Poderia falar muito mais. Mas chega. Recomendo agora a leitura de um trecho da matéria (clique aqui) e a visita aos blogs de Luciana, Gil Giardelli e Ian Black. Ah, e o de Marimoon, claro. Que figura, essa moça! 

 

A filosofia da liberdade de Espinosa

Acabo de ler Espinosa – Uma filosofia da liberdade, de Marilena Chauí (Editora Moderna). Fiquei impressionado com a capacidade desse pensador holandês de origem judaica de ser de ser odiado pelo status quo da ocasião. Ele foi capaz de despertar, no século XVII, a ira da Igreja e da própria comunidade judaica, que o considerou herege. Entende-se: árduo defensor da liberdade de pensamento e de expressão, colocou-se contra a tirania teológico-religiosa e defendia a idéia, conforme escreve a professora Marilena, de que a “democracia é o mais natural dos regimes políticos” porque realiza nosso direito natural pelo qual todos os homens “desejam governar e não serem governados”.

Baruch de Espinosa dizia, em Tratado Teológico-político, que a Bíblia não tinha como objetivo apresentar uma teoria sobre a verdadeira essência de Deus. Na verdade, buscava tão somente “oferecer à imaginação dos devotos um conjunto muito simples de crenças religiosas e morais, necessários aos que não aspiram ao conhecimento racional e filosófico de verdade”, escreve Chauí.

Ainda estou digerindo a pancada que são as idéias de Espinosa – aos poucos, em doses homeopáticas, que é para não entrar em curto-circuito. Em todo caso, reproduzo aqui um trecho de Espinosa – uma filosofia da liberdade que me chamou particular atenção, dado o fato de vivermos o apogeu da sociedade de consumo e seus reflexos mais dramáticos, entre eles, o empobrecimento das relações humanas. Lá vai:

“No Tratado da correção do intelecto, Espinosa parte da experiência individual e intersubjetiva como experiência trágica: o sentimento de perder um bem desejado cada vez que se imagina tê-lo alcançado. Essa fuga interminável de bens que se consomem e nos consomem divide os homens e os aliena porque imaginam a felicidade depositada em coisas que precisam ser possuídas com exclusividade.

Essa perda incessante torna impossível não só a realização do desejo de felicidade, mas também a liberdade, lançando os homens numa guerra sem freios pela posse dos objetos nos quais investiram sua esperança. Eis por que Espinosa dirá que a felicidade e a infelicidade dependem da qualidade do ser ao qual nos unimos por amor, porque há entre o desejar e o desejado um vínculo intrínseco.

Amando coisas perecíveis e cuja posse exclui os demais, a felicidade será perecível e ameaçada pelo desejo de outrem. A felicidade é desejar um Bem imperecível que, sendo capaz de ‘comunicar-se igualmente a todos’ e de por todos ser compartilhado, permite o exercício da liberdade.

Espinosa não duvida da existência desse Bem como não duvida de que possamos alcançá-o. O Tratado visa oferecer à inteligência os recursos para chegar ao bem verdadeiro. Com isso, Espinosa articula internamente o desejo da felicidade, da liberdade e da verdade.”

Palavras de Cioran

“A vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se coloca nela” (Cioran)

Fazendo coro ao que diz Nietzsche (veja o post “Temos a Arte para que a Verdade não nos destrua”, publicado aqui dias atrás), Emil Michel Cioran também nos ajuda a refletir sobre o papel do indizível, daquilo que não se traduz verbalmente, daquilo que escapa ao real.

E assim falou F.W Nietzsche

“Temos a Arte para que a Verdade não nos destrua”

Curso de filosofia com Marilena Chauí

Quem gosta de filosofia, prepare-se. A professora Marilena Chauí, livre-docente da USP, vai ministrar o curso “ A instituição da política em Espinosa”. No programa, questões como medo, esperança, guerra e paz; sujeito social, sujeito político: os conflitos. As aulas serão realizadas nos dias 10, 17 e 24 de novembro, das 20h às 22h, na editora Bregantini (Praça Santo Agostinho, nº 70, 10° andar – Paraíso, São Paulo). O valor é R$ 240 – sai por R$ 190 para professores e estudantes. As inscrições podem ser feitas por meio do site da Revista Cult .

|