Crônica de Ano Novo sobre amor e tecnologia: ou revisitando arquivos de um PC aposentado

Experimente religar um computador seu há anos aposentado e repassar sua vida digital a limpo. O passado vira presente, mesmo que por instantes

Escritos de cinema, posts para blogs, documentos. Minhas imagens, minhas músicas, minhas pastas compartilhadas. Planilhas de Excel que nunca usei direito.

Fotos, poesias, projetos. Boletos vencidos. Mensagens que nunca li, e-mails que nunca responderei.

Downloads de diversos timbres – do rock ao jazz, do tango ao samba. Tem até punk e heavy metal. Reportagens prontas e inacabadas. Transcrições de entrevistas, títulos pela metade. Pautas e sonhos sonhados – realizados ou não. Ideias para artigos e outros rabiscos. Fotos de quando era mais cabeludo.

Críticas de filmes. Resenhas, delírios, minutos gravados numa câmera digital. As baladas que me fizeram a cabeça. As mulheres que me fizeram o coração. Registros de festas, de tristezas e andanças, de soluços e contas a pagar. Skype e messenger mudos.

Erro de proteção contra gravação. Remova a proteção contra gravação ou use outro disco. Disquete de 3 ¹/², antivírus desatualizado. Remover hardware de segurança.

E lá está ela tocando violino… Cabelos curtos, levemente ondulados.

Tão linda, tão delicada, tão minha.

Devaneios ao som da jukebox de Cat Power

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Show intimista de Cat Power combinou com a noite chuvosa de São Paulo

Sob luzes azuis e roxas, ela subiu ao palco pouco depois das 22h. Nada de telões e fotos com flashes – colocado sobre um dos amplificadores, um incenso espalhava fumaça por entre os instrumentos. Havia um clima intimista e aconchegante no ar.

Enquanto ajeitava o microfone, a saudação tímida e carinhosa. “Oi”, disse baixinho e em português, com um sorriso. Olhava para baixo, como se fora aquela menina nova do colégio com quem trocávamos as primeiras conversas e nos apaixonávamos em seguida. Foram suas únicas palavras dirigidas ao público durante o show.

Vestia calça escura – seria jeans? -, camisa e uma gravatinha preta, afrouxada. Luvas que deixavam os dedos à mostra. Nada de grandes gestos, mas sim a sutileza dos detalhes.


Embora precário, esse vídeo captado por um expectador durante
o show de ontem serve como registro. A música é Metal Heart

Foi imerso nessa atmosfera de introspecção, cuidadosamente desenhada pela produção, que vi o show de Cat Power em São Paulo. E assim tive a sensação – é a minha viagem, nada mais – de que estava ouvindo Robert Johnson ou Bob Dylan na jukebox de um bar vagabundo ou perambulando por aí numa das tantas madrugadas.

Foi tudo um grande blues, posso dizer. Não necessariamente pelas músicas, porque não é apropriado dizer que o repertório de Cat seja feito pelo som do Mississipi ou o folk, embora sejam essas algumas de suas influências. Mas sim pelo espírito, pelo clima pé na lama, pelos gritos e sussurros capazes de aquecer a alma numa noite de frio.

O que mais poderia dizer depois de ouvir Don´t explain, marcada na voz Billie Holiday, ou Metal Heart, ambas presentes em Jukebox, o álbum mais recente de Cat?


E este vídeo aqui, também da lavra de algum fá, mostra a última música do show, Angelitos Negros, e a despedida calorosa da musa indie

A viagem terminou com uma Cat sorridente, feliz, distribuindo rosas brancas para a plateia, que, entregue, a aplaudiu de pé por vários minutos. Nesses instantes, nossa cantora já não estava apenas no canto do palco. Andando de um lado a outro para cumprimentar as pessoas, Cat Power, pelos menos naquele momento, era a perfeita tradução de uma pessoa feliz.

Bob, o que serão nossos tempos modernos?

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Post escrito ao som de Bob Dylan, às 2h38

Este post pode ser uma tremenda bobagem. E talvez seja mesmo. Pode ser uma conversa fiada, uma lengalenga inútil, um imbróglio de palavras que leva o nada a lugar nenhum.

Pode ser um cachorro-quente frio, um gole de cerveja vencida.

Mas vou fazê-lo, sob o risco de não dormir, de não ouvir a voz das estrelas, de simplesmente não esquecer de ontem, de anteontem, de amanhã – esquecer por que raios eu tinha de pensar o que pensei. Pensar? Mas quem pensa os neurônios espanta.

Bob, o que serão os nossos tempos modernos?

O menino, o futebol e a vida


Foto: autor desconhecido

Na hora do apito final, o peito explodiu e as lágrimas escorreram. Não foram apenas umas gotinhas, dessas que pedem licença – foi um choro desbragado, de soluçar, de lavar a alma. Um choro que de tão alegre me fez voltar até um tempo feliz que guardo na memória: a recordação das épocas de menino em que brincava de astro de futebol, driblando a solidão de filho caçula que desenhava jogadas que só eu sabia como eram belas e mágicas.

Nos jogos imaginários na garagem de casa, eu sempre vestia a camisa do time do coração. Eram bordadas à mão pela minha mãe, que unia em vermelho, branco e preto os sentimentos mais valiosos que um ser humano pode dedicar ao outro. As camisas eram de algodão grosso, como não se fazem mais.

As partidas eram disputadas enquanto meu pai e sua Brasília laranja estavam fora, o que significava campo aberto para cobranças de falta na forquilha, cruzamentos de trivela, lançamentos em profundidade.


Foto: Araquém Alcântara

A camisa trazia invariavelmente o 11 às costas – o número do primeiro ídolo do futebol de minha vida. “Ele gosta do Zé Sérgio”, dizia minha mãe, referindo-se a um dos mais habilidosos e ágeis pontas-esquerdas que o futebol brasileiro produziu. Ainda hoje, se o assunto vier à tona, ela certamente se lembrará de tudo isso – e me fará sorrir.

Antes mesmo do apito final soar na partida entre São Paulo e Goiás, lá em Brasília, no Bezerrão, eu também me lembrava das primeiras vezes em que fui ao estádio. Meu pai querido, os três irmãos, mais velhos, cada um ao seu modo um espelho para mim.

Eu tinha cinco anos, mas me lembro bem daquele domingo de sol – que terminou com uma baita chuva – em que a festa deu lugar à desilusão e em que pela primeira vez vi uma multidão chorar. O Tricolor perdera a final do Brasileiro para um outro tricolor, o do Sul – o mesmo que agora disputou com o meu São Paulo o título de 2008.

Enrolado numa bandeira gigante – para mim tudo era gigante -, eu não entendia direito, mas sabia que alguma coisa muito triste havia acontecido diante de meus olhos. Por isso também chorei. Foi assim que aprendi aquilo que depois soube se chamar cumplicidade.


Foto: Caio Murilo

E assim também conheci a tristeza, que tinha um nome – Baltazar, o centroavante do inimigo – e bateu em nossos corações depois de uma matada no peito e um tirambaço da entrada da área. Uma tristeza classuda, de categoria, mas nem por isso menos dolorosa.

Foi ao sabor dessas reminiscências que comemorei o título de campeão brasileiro de 2008 pelo meu São Paulo – campeonato que teve como rival na reta de chegada o mesmo tricolor gaúcho que há 27 anos me apresentou a tristeza. Se naquele domingo de 1981 eu experimentava um dos sentimentos mais marcantes da vida, ao ver o nosso capitão Rogério erguer a taça tive a impressão de descobrir alguma coisa a mais sobre mim.

E assim me senti, pelo menos por breves instantes, como o menino que fazia jogadas incríveis com bolas de meia e tabelava com os próprios sonhos diante de um futuro que se desenhava a cada drible, a cada grito de gol.

O que fazemos de nossos dias?

Mudei-me recentemente e, por isso, caixas e mais caixas tomam conta do meu apartamento. Elas já deveriam ter sido desfeitas, mas continuam lá. Um dos resultados disso é que não acho meus CDs direito. Mas eis que, revirando uma das caixas, deparo com um CD de poesias de Fernando Pessoa recitado por Paulo Autran.

Um de meus prediletos. Tenho-o há muitos anos. Ele é meu companheiro de muitas jornadas. Passagens tristes, felizes, de descobertas e angústias – um amigo com quem há algum tempo não conversava. Peguei-o, e assim voltei em minha vida. Retornei uns dez anos, e de lá fui votando em direção ao presente.

Relembrei quando morava com meus queridos pais e dormia ao som desse e de outros CDs de poesias. Uma doce nostalgia do futuro tomou conta de mim.

Ouvi novamente um dos poemas mais belos que conheço e que me faz recuperar novamente a suavidade que, desapercebidamente, pode escapar pelos dedos na correria dos dias ( lembro-me sempre de Pessoa na voz do grande ator; perdi a conta das noites em que, regado a vinho, me entreguei à audição e dormi escutando Pessoa ou Drummond).

O poema é “Vem sentar-te comigo, Lídia”, de Ricardo Reis. Houve uma época em que eu o recitava de cor e salteado.

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio/ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa – e não estamos de mãos enlaçadas/ (enlacemos as mãos)”

A vida passa, ele diz, a vida passa…O que fazemos de nossos dias?

A felicidade, desesperadamente

Este post foi feito ao som de Chet Baker

 

 

“Todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar” (Pascal)

 

Depois de quase uma semana na encantadora Buenos Aires, cá estou de volta à terrinha querida, à marginal do meu coração. Muitas histórias e fotos para postar. Mas, antes disso, umas palavrinhas sobre algo que atualmente me perturba – no melhor sentido do termo, diga-se. Um sentimento que a elegância melancólica da capital portenha pode ter feito aflorar.

 

Estou lendo “A felicidade, desesperadamente”, de André Comte-Sponville. Fruto de uma conferência feita pelo filósofo francês em 1999, o livro é um grande bate-papo sobre o que é a felicidade e por que a perseguimos eternamente (“Todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar”, escreve Sponville, citando Pascal).

 

 

Com leveza e uma narrativa claro e simples, Sponville nos mostra que o fim da filosofia não é formulação de tratados inacessíveis, estéreis, mas sim ser uma amiga que nos auxilia a tornar a vida uma jornada mais prazerosa.

 

Diz Sponville, citando Epicuro, que “a filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona uma vida feliz”.  

“Trata-se de pensar melhor para viver melhor”, reforça Sponville.

 

 

 

 

 

Ele continua:

 

“A felicidade é a meta da filosofia. Ou, mais exatamente, a meta da filosofia é a sabedoria – já que, mais uma vez, uma das idéias mais aceitas em toda a tradição filosófica , especialmente na tradição grega, é que se reconhece a sabedoria pela felicidade, em todo caso por certo tipo de felicidade.(…) Digamos que a sabedoria aponta para uma direção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez”.

 

Conforme Sponville, a norma da filosofia é a verdade, pelo menos a “verdade possível (porque nunca a conhecemos por inteiro, nem absolutamente, nem com total certeza)”. Portanto, “trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível”.

 

Se não dermos a devida atenção ao fato, o cinza da paisagem cotidiana – reflexo da preocupação com contas, dívidas, problemas e dedicação exacerbada ao trabalho -, é capaz de nos embotar a vista e nos tirar do prumo. A filosofia, assim com a Arte, nos aproxima de nossa essência e nos humaniza.

 

Por isso leituras como a de Sponville são necessárias. E renovadoras.

 

 

 

Na terra de Los Hermanos

Cheguei nesta quarta-feira a Buenos Aires, para cobrir o Festival de Publicidade El Ojo de Iberoamerica. Dia de trabalho muito puxado. Nos próximos posts comento mais a respeito.
Agora quero passar as primeiras impressões sobre a estada nesta bela cidade, que tenho a oportunidade de visitar novamente.

Começo pela grande notícia hoje na terra de Los Hermanos: Maradona é o novo técnico da seleção argentina. Peguei um dos jornais daqui, o El Cronista Comercial, de economia, negócios e política. E lá está em El Pibe (veja foto).

Logo nas primeiras linhas, diz o colega jornalista que “el mejor jugador de fútbol de todos los tiempos, trono para muchos compartido con Pelé…” (grifo meu)

Vejam só: citam o Rei Pelé assim, como quem faz uma concessão. Porque, claro, o Rei é Maradona.

No mais, El Cronista se orgulha de ter antecipado a notícia há uma semana. E se derrama de novo para Maradona.

Mas o Juan Carlos, taxista que me levou do aeroporto para o hotel, fez cara de muxoxo quando lhe perguntei o que ele achou da novidade. “Como jogador é uma coisa, como técnico…”. Para consolá-lo e demonstrar minha solidariedade, lembrei-o de que Dunga é o técnico do Brasil.

E perguntei mais para ele:
- “Como vai a Cristina Kirchner?”

Juan Carlos fez outra cara de muxoxo e um sinal de “mais ou menos”.

- E a crise financeira mundial?

Outra careta, seguido de um “a coisa tá feia”.

O fantasma está por todos os lados.

Até breve.

Nunca fui office-boy

Eu me chamo Clayton, mas nunca fui office-boy. Ando bem rápido, quase correndo, igualzinho a eles, mas é bom repetir que nunca fui office-boy. Além do mais, muitas pessoas não gostam dos office-boys.

Eu gostava, mas tem gente que não gosta. O pai da menina, por exemplo. Ele odeia, xinga, fica histérico só de ouvir falar nessa espécime de ser humano que, na minha época, se caracterizava pelo modus operandi de entrar no busão pela porta de trás, sair sem pagar e assim embolsar o troco da condução.

É por isso que o pai da menina tá fulo da vida com o office-boy. Na verdade, é por isso e também porque o maluco deu pá-pum na filha dele, chamou o coroa de mano e pediu cinqüenta conto como ajuda de custo. “É o que o senhor dar puder ajudar, pra começar. Já tenho outro filho, tá ligado?”

Por isso é bom repetir que, apesar do meu nome, nunca fui office-boy.

Sim, os office-boys, um dia eles existiram em São Paulo. Hoje eles trocaram as solas do sapato pelas duas rodas e se chamam motoboys. Eles continuam andando rápido demais, bem rápido, mas bem rápido mesmo.

Mas ia dizendo que eu costumo andar rápido demais, mesmo sem nunca ter sido office-boy. Porque os office-boys, vocês sabem, andam rápido demais – ou andavam?
O tempo é sempre uma grande questão. E a cabeça também vai numa velocidade! Lampião, Sílvio e Vesgo, Pânico, Chacrinha, Facebook, baby look, increase your pênis – acabou o xampu?

Tudo isso porque ando andando rápido demais, mesmo sem ter na carteira o registro de office-boy. E o Flash Blog? Tem nada a ver, mas já fui até atendente do McDonald´s, sonhava com o Big Mac.

A verdade mesmo, pra valer, é que apenar do meu nome eu nunca fui office-boy.

O nosso Bar Esperança

Na mesa do bar, somos todos filósofos, psicanalistas, políticos e até mesmo ótimos síndicos de prédio. Temos verdades e soluções para tudo.

Gritos, exclamações, decibéis em êxtase. “O Henrique Meirelles é de direita ou de esquerda? Me responde!”. “Ele é técnico!”. “Técnico? Só se for o Dunga”.  

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Imagens de Bar Esperança (Hugo Carvana, 1983)

 “‘O PT aparelhou o governo com militantes de carreira, sem qualificação. “Isso é conversa fiada”.  “Na semana passada vocês me provocaram com esse papo de falta de comunicação na sala de aula. Então agora eu vou falar uma coisa para vocês… Blá,blá,blã” . “E o Curíntia?” Sai pra lá!  

Não sei como a conversa não chegou ao Daniel Dantas…  

 Este post nasce exatamente de uma dessas deliciosas sessões etílicas, regadas a risos, polêmicas, angústias, esperanças, camaradagem.  

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  Cervejada que nasceu ontem à tarde, quando Nirlando Beirão, jornalista, esteve com a gente na Benedito Calixto falando de seu novo livro. Alguém se habilita a adivinhar o tema? Fácil: bares. “Original – Histórias de um Bar Comum (DBA), com “aperitivo” e “saideira” escritos por Washington Olivetto.  

Por hora, deixo só um golinho para vocês. Está logo na abertura, em texto sugestivamente intitulado “Paz na terra aos homens de botequim”.

Veja que maravilha, creditada a José Carlos de Oliveira: 

 “O meu melhor amigo, quando bêbado, me diz os insultos mais pesados insultos, e eu o perdôo. Somos solidários na dor-de-cotovelo, e colocamos a amizade acima da mãe e do pai, da igreja, do país”.  

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 Ou esta, de Paulo Pelotta:  “Até na Santa Ceia todos sentaram-se à mesa e tomaram vinho – o único que não quis tomar nada e saiu mais cedo foi bem sóbrio receber os trinta dinheiros”.  

É isso aí. 

 Um grande abraço pro Edson Lima, Junior Lopes, professor Zuza, Maurício Pestana e Jeff, os botequeiros da jornada de ontem. Ah, e ao Nirlando também, que tomou sua cervejinha com gente ao longo da tarde e contou histórias de suas longas peregrinações botequeiras.  

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Declaração de amor de um cinéfilo

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Depois de Anna Karina, viver a vida tornou-se uma aventura muito mais colorida, poética, bela.  

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Com Anna Karina, uma mulher não é só uma mulher.

 

Por Anna Karina eu me tornaria o melhor dançarino do mundo, só para acompanhá-la nessas dancinhas. Faria até sapateado, tocaria corneta. Depois de Anna Karina, eu vivo a vida feliz da vida.

E por isso eu estou aqui

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O post do Rei  

As músicas do Roberto Carlos, eu me lembrei das músicas do Roberto Carlos. Na verdade, eu não esqueço as músicas do Roberto Carlos. Não sei por que, mas eu lembrei, lembrei mesmo. Rádio América, a Hora do Rei, mamãe ouvindo, arroz, feijão, salada e batata frita. Ela adora as músicas do Rei. Todo ano meu irmão mais velho dava o bolachão do Robertão pra ela.

Eu olhei as contas a pagar e me lembrei do Roberto Carlos. Celular, cartão de crédito, água, luz, banda larga…a banda larga, meu Deus. Tênis velho, calça, flores, côncavo, convexo. Humm, dá um chamego aqui, vai.  E lá vem Japão, Jaspion, Ultraman, Cavaleiros do Zodíaco – o cachorrinho da Cofap.  

Todos estão surdos, mas eu não. Eu ouvi as canções do Rei – alucinado, rasgado, atabalhoado, mas eu ouvi. E daqui pra frente tudo tudo tudo vai ser diferente, porque temos bluetooth, wireless e 3G. Segura o Wimax, meu amigo de fé, meu irmão camarada. E esquece o Madureira, Odvan. Lembrei até do Curíntia. Não chora/não chora/não chora… 

Eu não queria ser repetitivo, mas eu tenho de dizer, preciso, tá aqui na garganta, eu vou dizer: eu lembrei do Roberto Carlos! Ah…vá, não me venha com essa. Tenho acesso ilimitado, lembro o quanto quiser.

 

O que a veia bailarina tem a nos ensinar

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Foto Martin Munkacsi

Certas passagens da vida nos levam a um questionamento vital: o que fazemos de nossos dias? O que motiva nossas atitudes? Qual o papel do trabalho, da família, dos amores, dos amigos? Para onde conduzimos nossa vida? Ou não conduzimos e somos barco à deriva, ao sabor dos ventos?

Na maioria das vezes, são as circunstâncias adversas que disparam esse olhar interior. À parte o sofrimento do primeiro instante, é  por meio desse movimento – o de olhar para si, investigar-se em meio ao turbilhão e se perguntar o que queremos para nossa vida – que podemos recobrar o valor daquilo que realmente importa e faz sentido. Assim os dias podem ser mais coloridos e saborosos. 

 

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Foto da web

Uma das coisas mais tocantes que li a esse respeito foi escrita por Ignácio de Loyola Brandão em A Veia Balarina (Global Editora), livro de 1997. Li-o há uns quatro, cinco anos, mas não me esqueço. No livro, o grande escritor narra como foi descobrir que uma artéria em seu cérebro poderia explodir a qualquer momento: ele tinha um aneurisma cerebral. A veia bailarina do título bela metáfora para aquela pequenina veia que se esquiva da agulhada, tem vontade própria a  e diz “comigo não” Trata-se de um livro sobre a dor, o medo, as perdas acumuladas ao longo da vida, mas também sobre o recomeço, a redescoberta da existência

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Cartier-Bresson

Vejam o seguinte trecho:

“De um episódio em que convivi com a possibilidade da morte, tirei uma lição das mais elementares. Descobri o essencial: a minha vida é esta, deste jeito. Vou vivê-la assim, com o que tem de bom e ruim, com alegrias e inquietações, sofrimento e felicidade, encargos, chatices, encontros e desencontros.

Ser contemplativo, sem perder a agressividade que me estimula a produzir, criar, andar em busca do sonho. Tentar não me deixar envolver pela mecanicidade, olhar para os outros, medir a intensidade do problema deles e a dos meus.

Viver a vida minha maneira e não ficar preocupado em mostrar apenas meu lado bom, a minha face fotogênica, porque isso acaba gerando uma tensão constante, uma preocupação em não me deixar apanhar desprevenido.

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Cartier-Bresson

Não ter medo de me mostrar frágil. Fazer o que posso e tenho capacidade para fazer, não tentar corresponder a imagens ou realizações que esperam de mim. Devo saber o que esperar de mim, conhecer meus limites e minhas possibilidades.”Para encerrar: Loyola Brandão superou o problema de saúde e  continua a nos presentear com belas crônicas e romances.

 

Histórias no Velho Mundo

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Foto do editor deste blog: cara a cara com ela, majestosa

De volta ao Brasil, o doce cansaço da viagem. Cheguei nesta segunda-feira. Por hora, dou as caras para avisar que em breve o blog volta à ativa com histórias sobre Londres e Paris – também conheci a Cidade Luz.

Festival de publicidade na levada do rock dançante, uma balada multicultural na noite londrina; o encanto com a National Gallery e os tentáculos do metrô a nos laçar. Paris se abre ante os olhos e o coração. Emoção no Louvre e a Mona Lisa pop star.        

Amores

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Amores resfolegantes, de pressa. Depressa: alívio, prazer. E dor e dissabores, porque flores também decoram os funerais. Entregas e partidas, encontros e desenlaces. Histórias entrecortadas, vírgulas – reticências.

Para onde vamos? Te amo? Acabou. Eterno recomeço?. Walk on the wild side.

Fim e começo. Tudo começa, sempre, tudo avança. Nem sempre; tudo ao mesmo tempo agora. De novo, vai. Vem, assim, com sede, com fome, à flor da carne. O que sente por mim? Paixão, dó, prazer, tesão, raiva, rancor? Cócegas? Vai, mexe no meu pé, amoreco. Ah, benzinho, adoro esse seu colar de madrepérolas.

 

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Agora, sim, fotos de Jane Birkin no Bourbon Street, na terça-feira passada. Tocou Leãozinho, de Caetano, com um sotaque francês e folha de papel na mão, à vontade. Levantou a platéia.  

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Crédito fotos: Tiago Queiroz (Agência Estado)

 O estilo despojado provocou reações, a maioria de aprovação, com a de meus amigos Alexandre Staut e Fabiana Gitsio, meus amigos de Gazeta Mercantil (veja comentário dela no post que ele fez sobre o show). Por mim, aprovadíssimo. Gosto desse estilo “elegantemente descolado” (!) de algumas mulheres. 

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 Já a imaginou sussurrando coisas assim em seu ouvido?  Veja e ouça.

Eu fui com Jane Birkin

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Jane Birkin esteve em São Paulo.   A foto acima é de show em Montevidéu

 

Com um charme irresistível, ela bailou pelo palco, passeou entre as mesas, distribuiu sorrisos. E cativou corações. Chanson regada à jazz. Vestida para um café entre amigos, sem afetações. Jane Birkin, a musa de Je t’aime … moi n’on plus, o amor de Serge Gainsbourg, a mãe de Charlotte – a estonteante do primeiro nu frontal do cinema. Blow Up, de Antonioni.  Jane Birkin, a mesma que me levou longe, me fez voar, esquecer do tempo.

No embalo de Bob Dylan

 crédito da foto: Marcos Hermes/ divulgação  

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 O show do velho Bob, em São Paulo, foi marcante 

Modern Times. Com o velho Dylan, não se estaciona no tempo. Busca-se um outro sentido, uma nova estrada, um novo arranjo para a vida. Like a rolling stone: na cadência rouca, às avessas – de arrepiar, de tocar fundo a paixão de viver. De guardar para sempre a memória do instante. Estou aprendendo a viver como quem rola à toa na vida.  

E com o velho Dylan vejo ainda mais poesia nessa moça que vai à praia e me sorri, volta da praia e me sorri; deixa-se para o mar, sorri para o mar. Sorri em mim, todo o dia. Eu me perco na doçura de seus olhos. E meu coração rola solto, ao sabor do vento, das pedras do Arpoador. Azul da cor do mar.  

 

O rock e as reminiscências do futuro

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Lá pelos meus 15 anos: Galeria do Rock, rua 24 de maio, São Paulo. Sempre. Cabelos encaracolados, caindo pelos ombros. Boné do Rush e camiseta do Deep Purple – ou do Led. Janis, Hendrix, The Doors. E também Beatles e Rolling Stones. Pink Floyd. Ramones também me caia bem. 

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Seguia para lá à tarde, depois da escola. Seco por um disco. Às vezes novo, às vezes velho de dar dó. Ou fita cassete gravada. Pagava o equivalente a R$ 5 o lado de fita com o disco que me fazia a cabeça. Fosse como fosse, aquele chiado era meu entorpecente. Um garoto a descobrir o mundo, a descobrir a si próprio. No compasso do rock, a rebeldia à flor da pele.

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E tudo era rock. Meus olhos, pés, membros, ouvidos, boca. Meu mundo tingido de púrpura, diamonds, blue sky mine, e rolava de tudo um pouco na trilha daqueles dias.  

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E depois ficou pesado: de Iron para cima. Halloween, Metallica (do Justice for All pra trás), Judas Priest. E quando eu descobri AC/DC, que energia. Anos mais tarde, apaguei no Pacaembu, pouco antes do show de Angus Young, depois levantei e pulei feito um cabrito. Não esqueço nunca mais. Bons tempos.

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Dia desses, irei novamente à Galeria. Está mudada, eu sei, ainda vou de lá tempos

em tempos. Até mesmo as escadas rolantes, que ficaram mumificadas uma eternidade, funcionam novamente.  Irei num sábado, com parada no Bar do Léo, para um chope, como já fiz muito.

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Está na hora. Saudades de mim. Reminiscências do futuro. Meu sangue pulsa de novo, caudaloso, subindo a corredeira – com força, o meu sangue. Meu sangue sedento de algo que não sei que é. Um pedaço de mim esquecido na estrada.  Algo que eu exibia em meus olhos, mas que hoje pode perfeitamente estar em minhas mãos sem que eu perceba o impacto de seu brilho, a vitalidade de sua imponência.

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Let’s Fall in Love, Diana

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Diana Krall, no show do Parque Villa Lobos, no domingo

Domingo no parque. Cachorro, gato, família, namorados, gente de bicicleta e capacetes coloridos. Jazz. Diana Krall, linda, leve, solta. De bem com a vida, mamãe de dois filhos, a mesma classe de sempre. O mesmo jazz que me acompanha há anos e faz rir e sonhar – às vezes provoca também o choro, porque a beleza não escolhe a cor dos sentimentos.  

“Do you like jazz?” E a multidão (quantos milhares?) delira, brinca, pula. Quer jazz, quer Diana, quer curtir o domingo no parque Villa Lobos. “Let´s fall in love”, todos, agora. Tem gente a perder de vista. Eu é que não vou lá no meião nem a pau. Fico aqui, na lateral, no fundão, e deixo-me levar pela voz grave, suave, pelo Cole Porter que ela carrega por onde anda. “I’ve Got You Under My Skin…” 

Da última vez, há dois anos, assisti a dois shows de Diana em São Paulo, em dois dias seguidos, em casa fechada; vinho na mesa e que-tais. Em um dos dias, vi-a de pertinho. Era possível saber onde ela centrava os olhos.

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Naquele momento, Diana falou-me de um modo todo especial. Havia razões para isso. Agora, também falou, embora de uma forma diferente. Ao ar livre, na praça, pra todo mundo ouvir. O sabor do recomeço tem um frescor que a gente não esquece.    

E essa lua que nos esquenta o sangue, a alma. “Tá muito quente”. Tá sim, ai se tá.  E não dá nem pra se proteger direto do calorão, porque nessa vasta área de gramado não há árvores frondosas – quando existe alguma, é um toquinho de madeira. Só benezinhos de patrocinador. Será que foi de propósito?

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“Já comprei cachorro quente e suco, vem logo”, diz uma mulher, com o tal boné de patrocinador na cabeça e guloseimas nas mãos. E a outra passa correndo, chama a amiga e diz: “Vem, aqui tá melhor”. Cabaninhas de cangas montadas. Meninas de shortinho, barriguinhas de fora, óculos escuros espalhafatosos, como grandes olhos de mosca? É poesia, minha gente, poesia para meus olhos.

E eu que não encontro Felipe nem Priscila. Celular. “Não dá pra estacionar”, dizem. Minha bateria prestes a descarregar. “Tô do lado esquerdo do palco, perto de uma ambulância”. Sobe Diana, não a vejo. A multidão se agita. Não vejo Diana numa batinha azul, óculos escuros no rosto, ora nas mãos. Não vejo que como ela sorri gostoso, como acena pra multidão. Mas, hoje, tudo bem. Basta-me sentir e deixar-me levar por Diana.    

Fotos: Fotos de Alexandre Scheneider

Noite David Bowie

E lá estava Ziggy Stardust, numa câmara escura, conversando com Inácio e Fradique. Pediu para guardarem suas spiders from Mars enquanto procurava Lady Stardust – no balcão, escondida, ela se divertia com o jeito esquisito de ele tocar guitarra, com a mão esquerda. “É um homem especial”, disse ela. À espreita, o prefeito de Bloganvile espiava por Lady Stardust e pensava que Ziggy era mesmo um sujeito de sorte.   E vem uma China Girl, e vem um Modern Love – livre, intenso e do tamanho da noite.

Me vi um homem a flutuar pelas estrelas – “Let´s dance, Lady Stardust?”. Gosto assim,   quando o passado é futuro e um novo homem se constrói na calada da noite, noite escura, barulhenta em seu silêncio.   

Bowie rolando sem parar, eu no meio da pista, rolando sem parar, dançando como se assim não parasse para lembrar, como se assim o riso e o choro fossem uma coisa só.

Mergulho em Space Oddity levando na boca uma vida inteira. A moça ao lado então me pergunta – ou comenta, ou fala qualquer coisa que não me lembro direito, só me lembro de sua voz segura, mulher feita:  “O cantor tem o timbre de voz do Bowie, não?” ou “Você gosta mesmo de Bowie, né?” ou ainda “Você canta todas as músicas”.  Cabelos curtos, pretos,  gestos suaves. “Entra no site da minha editora que você encontra meu e-mail”, ela disse, para logo emendar.  “Você é jornalista, né?”. Como sabe? Deve estar escrito na minha testa.

Surge Rebel, Rebel, e eu chamo novamente Major Tom, para tomar uns goles, flutando acima da Lua. O mundo é mesmo azul, e vejo então como as estrelas podem parecer diferentes hoje.