Pelé disse que tinha um sonho. O Rei do Futebol queria que seu último gol tivesse sido com a amarelinha, e não com a do New York Cosmos, o clube americano pelo qual encerrou a carreira na década de 1970.
Pelé entrou em campo para curta em sua homenagem
Então uma legião de mais de 600 profissionais, entre diretores de publicidade, técnicos, iluminadores etc etc – e mais de mil figurantes – ficaram dois dias enfurnados no estádio do Morumbi. O objetivo era tornar “realidade” o sonho de Pelé.
Eles estavam lá para filmar “1284”, curta-metragem criado pela Young & Rubicam, com produção da O2 Filmes, para a Vivo. O título é uma referência ao total de gols de Pelé em sua carreira – foram 1283, ou 1284, com o “gol” que o curta proporciona ao Rei do Futebol.
Filme com o Rei quer fisgar internauta pela emoção
Com requintes de superprodução e cerca de sete minutos, o filme tem um detalhe que o torna diferente: você não o verá na TV; ele foi pensado e criado para a internet.
Um novo paradigma de produção?
Trata-se de um fato que merece atenção do mercado, dos profissionais de web e também dos internautas que querem ver na tela do PC ou smartphones produções de qualidade: raríssimas vezes no Brasil, se é que houve alguma (alguém aí lembra de outro exemplo?) um curta-metragem com linguagem cinematográfica, embora servindo a objetivos institucionais de uma marca, foi bancado por uma empresa.
Carro elétrico, a hidrogênio, híbrido – carros do futuro, com os olhos voltados para o desenvolvimento sustentável? Há muitas interrogações no ar. Com tantos protótipos na praça – inclusive no Brasil -, parece-me a tecnologia não é o entrave para a comercialização em série, por exemplo, dos carros elétricos (menos poluentes), embora ainda seja necessário resolver problemas, como o da autonomia. O xis da questão é político e econômico, sempre.
Na semana passada, o anúncio do programa brasileiro de estímulo ao carro elétrico foi cancelado de última hora por divergências no próprio governo – há quem tema prejuízos ao flex, bandeira do Brasil no exterior.
Bom, foi diante da curiosidade em torno desse tema que assisti ontem, em DVD, ao documentário “Quem matou o carro elétrico?” (Chris Paine, 2006, EUA). Ele aborda a criação e o fim misterioso do EV1. Projeto de carro elétrico concebido pela GM nos anos 1990, nos EUA, o veículo foi recolhido do mercado americano pela própria montadora.
Se ele era rápido, eficiente e havia conquistado a aceitação por parte dos consumidores, por que o fim abrupto? Segundo o documentário, as montadoras, o setor petrolífero e o governo americano são os responsáveis pelo atestado de óbito do EV1. Vale assistir.
O plano-sequência na abertura de O Jogador, de Robert Altman (1992), é marcante: mais de 8 minutos de pequenas histórias que se ligam – sem cortes. Diz muito sobre o fazer cinema. Quem quiser ler mais respeito, o crítico José Carlos Avellar explica.
“A imagem é contínua, a ação que ela narra é absolutamente descontínua.
Um plano só. Dentro dele, tudo é montagem: nenhum corte, mas um sem número de pequenos incidentes, conversas interrompidas, fragmentos de gestos que só aparecem por inteiro quando montados ao lado de outro fragmento.”
Easy Rider (Sem Destino) foi lançado em 14 de julho de 1969, num cinema chamado Beekman, em Nova York. A administração do local nunca tinha visto uma cena parecida por aquelas bandas: espectadores cabeludos e rebeldes sentavam-se na calçada, sem sapatos, e fumavam maconha nos banheiros, diz Peter Biskind no livro “Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood” (Editora Intrínseca).
“Sem Destino deixou a contracultura estatelada com o choque do reconhecimento”, diz Biskind.
Filme contou com Hopper, Fonda e Nicholson
Road movie que conquistou seu espaço na história do cinema, especialmente como um dos que provocaram a derrocada na Velha Hollywood, na transição das décadas de 1960 e 1970, Easy Rider conta a história de dois caras (Dennis Hooper, também diretor do longa, e Peter Fonda, produtor; Jack Nicholson também atua) que cruzam o sul e o sudoeste dos EUA em suas motocicletas.
Talvez tenha sido o primeiro filme a captar as vísceras da contracultura – basta lembrar que Woodstock foi realizado no mesmo ano. A trilha é fantástica, com Steppenwolf e Jimi Hendrix, por exemplo).
Personalidade difícil de Hooper complicou produção
O filme causou barulho em seu lançamento tanto quanto durante sua própria produção. O período de filmagens foi uma tormenta, uma confusão atrás da outra. Depois de maluquices mil de Hopper – um sujeito difícil de lidar -, a equipe começou a debandar no meio das filmagens. Para piorar, Hopper e Fonda tiveram uma briga feia.
Hopper queria trazer à tona a carga emocional da morte da mãe de Fonda, que havia se suicidado, para uma cena em que o parceiro faria uma série de reclamações para uma estátua de Nossa Senhora. Depois de ingerir várias bolinhas e ficar doidão, Hopper falou para Fonda:
- Eu quero que você vá lá se sente no colo dela, essa é a versão italiana da Estátua da Liberdade, bicho, eu quero que você se sente no colo dela e pergunte à sua mãe porque ela abandonou você.
- Hoppy, você não pode fazer isso. Você está se aproveitando da situação – disse, irado, Peter Fonda.
- Ninguém vai saber, bicho. Tem que fazer isso, bicho.
- Todo mundo vai saber, todo mundo sabe o que aconteceu.
A tensão entre ambos chegou a tal ponto que os olhos de Hopper se encheram de lágrimas. Então Fonda subiu na Estátua e, com esforço, falou:
- Você é uma boba, mãe. Eu te odeio tanto.
“Essa foi a primeira vez que vocalizei alguma coisa desse assunto”, disse Fonda posteriormente. “Na verdade, eu também comecei a sucumbir. Estava aos soluços”.
Fonda atuou e produziu o longa
Easy Rider foi um sucesso: com um custo de U$S 501 mil, rendeu US$ 19,1 milhões e colocou Hooper na lista do grandes da contracultura, ao lado de John Lennon e Timothy Leary, relata Suskind, o que aguçou a megalomania do diretor.
“Sem Destino mostrava os rebeldes, os fora de lei e, por extensão, a contracultura como um todo, como vítimas. Estavam sendo exterminados pelo mundo careta, por Lyndon Jonhson, pela maioria silenciosa de Richard Nixon ou seus imitadores”, escreve Suskind.
A cena abaixo retrata bem o clima do filme – fotografia que explora a paisagem, a liberdade da estrada ao ritmo frenético de Born to be Wild.
Que começo de filme, não?
O visual sombrio, escuro mesmo de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, causou estranheza e críticas na época do lançamento do filme, em 1972. Naquele tempo, a estética de Hollywood primava pela ambientação bem iluminada, limpa. “As cenas eram tão iluminadas que dava para ver cada canto de cada banheiro e armário no set”, descreve Gordon Willis, diretor de fotografia da obra-prima dirigida por Coppola.
Mas Willis mandou às favas a convenção e mergulhou na escuridão – uma maneira de realçar o aspecto nebuloso da máfia, personificada na figura de Don Corleone, magnificamente interpretado por Marlon Brando.
Veja o que o diretor de fotografia diz sobre a cena inicial, que, em muitos aspectos, mostra a que veio o filme.
“O desenho da luz veio da justaposição da festa de casamento no jardim, ensolorada e alegre, e a sombra do que se passava naquela casa escura. Usei iluminação vinda de cima porque Don Corleone era a personificação do mal e eu não queria que a plateia pudesse ver os olhos dele, ver o que ele estava pensando, queira mantê-lo nas sombras.”
Mais:
“…quando aquelas imagens escuras começaram a aparecer na tela, aquilo deu um tremendo susto em gente que estava habituada a ver filmes de Doris Day (…)Evans perguntou a Bart: ’será que ainda estou de óculos escuros?’”
Detalhe: a primeira frase do filme é “Eu acredito na América”, uma ironia fina do roteiro, dado o fato de ser dita por um homem que implora ao mafioso a vingança de sua filha. É a chave para o entendimento do que o filme discute: o fracasso do sonho americano de nação ideal.
Vale relembrar a sequência.
Fonte: o ótimo livro “Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood”, de Peter Bisking (Editora Intrínseca)
A arte cinematográfica existe por uma traição bem organizada da realidade, já disse François Truffaut, um dos fundadores da nouvelle vague, movimento criado na França no finalzinho dos anos 1950 e que, seguindo a trilha aberta pelo neo-realismo italiano, revolucionou o cinema.
A frase de Truffaut – cineasta que, exceto por Fahrenheit 451, não tinha o universo tecnológico como matéria-prima – nos ajuda a entender o modo como o cinema retratou a tecnologia ao longo de sua história.
Fantasia de futuro
Melhor dizendo, o cinema deu conta de como o homem pode desenhar sua fantasia de futuro, suas expectativas e projeções diante das máquinas. Ao fazer isso, nos fez rir, pensar, ter medo, achar que podemos ser muito poderosos e – por que não? – também ridículos.
“Até onde podemos chegar e qual o preço a pagar por isso?”, parecem nos dizer os filmes dessa lavra.
Ou “será que as máquinas vão nos vencer?”, como nos faz pensar Limite de Segurança (Sidney Lumet), enquanto War Games (John Badham) diz “cuidado, vocês podem perder o controle desse jogo, e aí bum! – vai tudo pelos ares”.
“Beijos Probidos” homenageia a Cinemateca Francesa
A Folha de S.Paulo publicou neste domingo (24/1/2010), no Mais, uma matéria bacana sobre as grandes cenas do cinema, na opinião de cineastas e especialistas.
Resolvi entrar na brincadeira. Segue uma listinha bem pessoal, mas bem pessoal mesmo e sem pretensão alguma. Listo apenas algumas daquelas que me marcaram pela beleza, história ou porque me tocaram de alguma maneira.
Várias das citadas na matéria são belíssimas e estão no panteão do cinema. Procurei buscar, no entanto, outros filmes – com exceção de Beijos Proibidos, embora as cenas não sejam as mesmas.
É difícil fazer uma lista com essa, mesmo que seja por pura diversão. Há várias passagens que gostaria ter colocado. Mas isso pode ser assunto para outro post.
Lá vai.
1.Beijos Proibidos – François Truffaut (1968)
Começo por esta por se tratar de uma homenagem ao cinema.
Filme da saga de Antoine Doinel, ele começa com uma passagem que não tem nada a ver com a trama – está ali para fazer uma homenagem à Cinemateca Francesa e em defesa de Henry Langlois, figura fundamental para a criação da cinemateca e que havia sido destituído do cargo por André Malraux, então ministro da Cultura francês.
A medida revoltou cinéfilos e cineastas e foi um dos episódios que culminaram em Maio de 68. Esse episódio foi retratado, em 2003, em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci.
Um dos filmes capitais para aquilo que depois recebeu o nome de nouvelle vague, O Acossado é revolucionário na forma e na abordagem, embora pareça um filme leve e despretensioso. É um dos meus preferidos, tenho uma ligação afetiva muito grande com ele.
Não me esqueço jamais de Jean Seberg vendendo jornal (“New York Herald Tribuuune”), enquanto é xavecada por Belmondo.
3.Os Cafajestes – Ruy Guerra (1962)
A cena da praia é antológica. Norma Benguel, nua e aflita, é rodeada pelo carro em que estão dois fanfarrões, Daniel Filho e Jece Valadão.
Trecho ficou famoso como o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Pena não ter achado a cena inteira no YouTube.
Neste filme, Antonioni discute algo caro ao cinema moderno, do qual ele é um dos expoentes: o que é real e o que ilusão? O cinema dá conta do real? O que os olhos veem é mesmo real? É o que se vê (?) na cena do imaginário jogo de tênis que os clows travam, sob os olhos de Thomas (David Hemmings), que entra na onda e vai buscar uma “bola” lançada para fora da quadra.
5.Eles não usam black tie – Leon Hirszman (1981)
Uma das belas passagens do cinema nacional está neste filme: a sequência em que o casal interpretado por Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri separam o feijão. O contexto: a dura vida nos tempos da repressão. Se quiser ir direto ao ponto, avance até o 3º minuto.
6.Os Incompreendidos – François Truffaut (1959)
Este filme também é um dos favoritos. A cena em que Antoine Doinel foge – seria mesmo fugir ou ir me busca de? – rumo ao mar é dos grandes momentos na história do cinema.
7.Deus e o Diabo na Terra do Sol – Glauber Rocha (1964)
Depois que Antonio das Mortes mata Corisco, o sertanejo Manoel (Geraldo Del Rey) sai em disparada em meio à aridez do sertão. Clara referência ao final de Os Incompreendidos.
Vale lembrar o mito que “o sertão vai virar mar” está presente”.
8.Eu te amo – Arnaldo Jabor (1981)
Sonia Braga e Paulo César Peréio estão fantásticos. Ironia, sacanagem e diálogos meio loucos, neuróticos. A atmosfera é meio cafona, decadente, com um bolerão de fundo.
Um exemplo:
Sônia Braga – Estou querendo um pouco mais de…
Peréio – …palpabilidade.
S.Braga – O quê?
Peréio – Pal-pa-bi-li-da-de. Coisa mais concretas, mais reais.
S.Braga- É, é isso aí. Pegar um pão, passar manteiga no pão e pensar assim: ´Eu estou comendo pão.’
Camille Bliss é o pior tipo de sedutora pela qual um homem pode se derreter. Que o diga o pobre sociólogo Stanislas Previne (André Dussollier) que, a despeito de entrevistas para seu doutorado sobre mulheres criminosas, trava longas conversas com essa irresistível criatura que está atrás das grades acusada de matar o amante.
Camille Bliss é Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague.
Veja nesta cena como Camille sabia provocar os marmanjos
Poderosa e desbocada, Camille comanda o jogo do amor e faz gato e sapato do coitado da vez.
É capaz de enfeitiçar pelas curvas e pelo olhar penetrante – ceder aos seus encantos é como entornar o veneno sem sentir o gosto de fel.
- Não se divorciou? – perguntou Stanislas.
- Não se pode divorciar-se de um asno com 27 fraturas. Não seria elegante – respondeu, sobre seu marido, que estava todo quebrado no hospital.
De tanto entrevistá-la, Stanislas se complicou
Ela quer esmagar o macho, humilhá-lo, deixá-lo prostrado à mercê de seus caprichos. Quer fazê-lo babar, fazer juras de amor e, por fim, deixá-lo de mãos abanando. Vai ao limite do seu poder de sedução. Por quê?
- A princípio, sua relação com Golden era puramente profissional. Quando foi que se interessou por ele?
- Esse é o problema de ir para a cama com alguém e depois falar de negócios.
No começo ela é doce, depois…
Seria Camille Bliss, a anti-dama, a estonteante desbocada de “Uma Mulher tão bela como eu”, de François Truffaut, uma criatura sem coração? Uma fêmea movida pelo ódio?
- É uma ninfomaníaca que vai com todos! – indigna-se a digitadora lourinha que transcreve as entrevistas e é apaixonada Stanislas.
Claro que não. Ou é?
Camille seria tão somente uma mulher que desenvolveu uma forma peculiar de reagir às cruezas da vida?
Elucubrações à parte, lembremo-nos de que, num filme de Truffaut, nunca se verá alguém guiado por um sentimento que não seja o amor - ou pela emergência de reparar a dor de um dia ter sentido o vento gelado do desamparo
Ícone da nouvelle vague ao lado de Truffaut, Godard e Claude Chabrol, Eric Rohmer - morto no dia 11 de janeiro de 2010, aos 89 anos – era o cineasta das palavras, dos encontros e desencontros.
O cineasta de personagens que vagam por ruas, praias e campos em busca de alguma coisa – a solução para uma angústia, um desejo, uma tristeza contida - que nem mesmo eles sabiam direito o que era. Personagens assim como nós.
Separei um trecho de um de seus filmes de que mais gosto, Amor à Tarde, de 1972. Na história, um homem – Frédéric, interpretado por Bernard Verley- que tem uma vida pacata de casado ( e, até prova em contrário, feliz) vive em devaneios eróticos vespertinos com as mulheres que vê na rua.
Chloé é a tentação em pessoa na vida de Frédéric
As fantasias não ultrapassam as fronteiras morais até que aparece no escritório do qual é sócio a tentação: a provocante Chloé – a belíssima e forte atriz Zouzou -, ex-amante de um amigo que está disposta lhe tirar atiçar os hormônios.
Moral, recato e erotismo se misturam num filme delicado e construído a partir do olhar masculino.
Reparem na câmera livre pelas ruas de Paris, no fato de os personagens estarem quase sempre em movimento e na cidade que salta pelas lentes, viva, intensa – traços da nouvelle vague que Rohmer tingiu com cores próprias em seu cinema.
Em cena Dustin Hoffman (Carl Berstein), Robert Redford (Bob Woodward)
Sábado comprei por acaso num sebo da Augusta o livro “Bush em Guerra”,do jornalista Bob Woodward, parceiro de Carl Berstein na série de reportagens que desmascarou o escândalo de Watergate, responsável pelo impeachment de Richard Nixon. Louco para lê-lo.
Assim me lembrei, claro, do ótimo “Todos os homens do presidente‘, filme de 1976 de Alan Pakula. O longa tem Robert Redford e Dustin Hoffman nos papéis, respectivamente, de Woodward e Berstein. A cena final é esplêndida, esplêndida!
Mas separo aqui trecho em que Woodward se encontra com o Deep Throat, a fonte que mostra onde estão os ovos de ouro dessa história cabeluda. Na cena – os encontros sempre se dão num estacionamento, tarde da noite-, Woooward perde apaciência com os “joguinhos” do Garganta Profunda, que passa as dicas em pílulas.
Reparem na atmosfera angustiante e na tensão da cena, presente no diálogo, nos sinais corporais e na fotografia obscura. Ouve-se até o barulho da saliva que percorre o Garganta Profunda.
Um dos grandes filmes sobre jornalismo. Vencedor de quatro estatuetas do Oscars. Memorável.
O longa mereceu um homenagem bem bacana. Bacana, não: nota dez!
Embalado pela eletrizante “Sabotage”, dos nova-iorquinos do Beast Boys – a música é uma de minhas preferidas da banda -, esse filmete praticamente resume o longa, ou pelo menos faz uma leitura em ritmo de videoclipe da obra. Edição caprichada, alucinada. Vejam:
Exemplo da cultura do fá de que fala Henry Jenkins. No mais alto nível.
“Andarilhos do Silêncio”, da diretora tunisiana Moufida Tlatli
Boa pedida na área: 4º Mostra de Cinema Árabe, projeto capitaneado pelo Instituto da Cultura Árabe em parceria com a Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo, o CineSesc e a Casa Árabe de Madri-Espanha.
Obras de países como Tunísia, Egito, Líbano e Iraque.
Os filmes podem ser vistos até 13 de setembro. Confira a programação e outras informações aqui.
Agradecimento especial ao André Dogon, que fez o ótimo site da Mostra e passou a dica.
Salomon Sorowitsch (interpretado por Karl Markovicz) é o ambíguo protagonista de Os Falsários
Entregar um companheiro é um crime moral inafiançável. Mas o que dizer de uma delação que tem objetivo salvar pessoas da morte – incluindo a si próprio – ou minimizar um sofrimento, embora essa atitude possa fortalecer o opressor? Mais: será imoral colaborar com o inimigo para se livrar da câmara de gás e obter certos privilégios – leia-se não levar pancadas ou ser fuzilado – sabendo que outros companheiros não têm direito à mesma sorte?
Em poucas palavras, esse é o dilema moral vivido por Salomon Sorowitsch (interpretado por Karl Markovicz) em Os Falsários, longa-metragem vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sem julgamentos de personagens e envolta em flashbacks, a obra provoca e emociona o espectador. O filme está em cartaz. Assisti-o ontem à noite.
Salomon se desentende com Burger, que é contra colaborar com os nazistas…
O diretor Stefan Ruzowitzky leva às telas uma história real. Durante a Segunda Guerra, judeus com talento para a falsificação de dinheiro, especialmente Salomon, um expert no assunto, são obrigados a produzir cédulas em série para os nazistas. O objetivo era salvar a Alemanha do endividamento e desestabilizar a economia de países aliados, como a Inglaterra.
O talento de Salomon o leva à condição destacada perante um dos chefe nazistas, que o livra dos espancamentos. Salomon então passa a liderar um grupo de trabalho dentro da prisão. Mas um companheiro, Burger, começa a sabotar a falsificação de dólares porque não quer ajudar os nazistas. Os demais presos perseguem Burger, pois temem morrer.
…mas não entrega o amigo, mesmo sob o risco de ser fuzilado
Salomon por vezes parece subserviente aos alemães, dono de um instinto de proteção que beira o servilismo. Mas, mesmo colocando o pescoço a prêmio, não delata Burger. Pelo contrário, protege-o. O que o move? A solidariedade? Mas como ser solidário num campo de concentração? E será que, ao esconder a sabotagem de Burger, ele não condenou seus demais amigos à morte? Esta questão percorre todo o filme.
Bonita a história de Os Falsários. E tratada sem maniqueísmos pelo diretor Stefan Ruzowitzky.
Estou curioso para ver Palavra (En)cantada, documentário de Helena Solberg que estreia hoje em São Paulo. Depoimentos de Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Lirinha, Lenine, Maria Bethânia etc. Como o nome indica, trata íntima relação entre letras e música na MPB. Uma indagação sobre a língua, no dizer de O Estado de S. Paulo.
Gérard Depardieu e Fanny Ardant , em A Mulher do Lado (Truffaut, 1981)
Livre delírio deste blogueiro feito a partir de A Mulher do Lado, de Truffaut.
“Você sempre vai me amar, vai me proteger?”, perguntou ela. Seu medo era o de sempre: o amor que acaba, as juras perdidas entre cartas, fotos e lembranças amareladas. Havia anos que não se viam, até que se mudou para a casa vizinha à dele. “Pra onde vão todos esses carros?” Ele não falou nada – quieto, tentava descobrir por que o passado retorna.
“Quanto mais estúpidas, mais verdadeiras são as músicas”, disse ele. Ela não entendeu. “O que importa”, emendou ele, “é que as histórias de amor precisam ter um início, um meio e um fim”. Ela continuou sem compreender. E então puxou o gatilho. Foram dois disparos.
Gente com guia cultural na mão, andar apressado pelas cercanias da avenida Paulista, comentários sobre a próxima sessão. Às vezes filas bem grandes, outras um pouco menores – com sorte, nas sessões vespertinas, apenas uns gatos pingados atrás de ingressos para as sessões da Mostra Internacional de Cinema. São Paulo é mesmo saborosa nos dias de jornada cinéfila. Adquire um clima diferente, uma empolgação a mais.
Festa de arromba
E a loucura começou já na festa de lançamento, na quinta-feira semana passada. Depois de exibição do bom Terra Vermelha, obra ítalo-brasileira dirigida pelo italiano Marco Bechis e produzido pela Gullane Filmes e a Classic SRL, festa de arromba na casa The Week, na Lapa. Gente pelos borbotões até alta madrugada. Creio não ser exagero falar em mais de mil pessoas. Estava lotado. Em meio a uns birinaites, a pista pegava fogo embalada por remix de clássicos da MPB, como Lulu Santos, Tim, Marina etc. Eu e minha querida Elzinha nos divertimos a beça.
No domingo passado, eu e meu grande comparsa de boemia e blogofilia (boa essa, não?) Márcio “Prefeito de Bloganvile” Dal Rio encaramos um Bergman no Cinesesc: sei que o nome do filme é piada pronta, mas vamos lá: “Chove em nosso Amor”. Bom filme, do início de carreira do cineasta, assim com os demais do diretor sueco em exibição na Mostra. Mas prefiro o “Crise”, seu primeiro longa, que assisti no dia anterior com a Elza.
“Chove em nosso amor” é um dos primeiros longas do mestre sueco
Bergman e o clássico paulista
Depois do filme, mais uma demonstração da delícia que é São Paulo – e o Brasil. No boteco que fica na esquina de cima do Cinesesc, tradicional das sessões “sescianas”, uma turma assistia a São Paulo x Palmeiras. Quase decisão de campeonato brasileiro. Confesso: eu quase deixei de lado Bergman – que eu queria muito ver, pois as obras exibidas na Mostra são raras -, para ver pela TV o Tricolor. Mas, como o filme acabou pouco antes das 17H e a partida começou às 16h, deu para pegar o segundo tempo inteiro (uma breve digressão: o São Paulo jogou muito mais, dominou e teve a vitória na mão, só que vacilou. E ou não é?).
Boteco lotado, olhos vidrados na TV. Gritos e provocações mútuas, mas tudo na boa. A lanchonete-arquibancada fervia. Na “primeira fila”, uns seis ou sete monitores da Mostra dividiam-se, entusiasmadíssimos, na torcida por São Paulo e Palmeiras. Em vez de camisas dos clubes, uniformes da Mostra.
Findada a peleja, empate em 2 x2. Tomaram o último gole da cerveja e voltaram para o trabalho no Cinesesc. A sessão seguinte já ia começar.
Homenagem com um dia de antecedência: 90 anos de uma grande diva. Rita Hayworth nasceu no dia 17 de outubro de 1918 e morreu em 14 de maio de 1987. Gilda, Salomé, A Dama de Xangai – este, com o então marido Orson Welles. Protagonista de clássicos inesquecíveis.
Depois de Anna Karina, viver a vida tornou-se uma aventura muito mais colorida, poética, bela.
Com Anna Karina, uma mulher não é só uma mulher.
Por Anna Karina eu me tornaria o melhor dançarino do mundo, só para acompanhá-la nessas dancinhas. Faria até sapateado, tocaria corneta. Depois de Anna Karina, eu vivo a vida feliz da vida.