Pílulas de cinefilia: A fotografia de O Poderoso Chefão


Fotografia escura realça o mal em Don Corleone

O visual sombrio, escuro mesmo de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, causou estranheza e críticas na época do lançamento do filme, em 1972. Naquele tempo, a estética de Hollywood primava pela ambientação bem iluminada, limpa. “As cenas eram tão iluminadas que dava para ver cada canto de cada banheiro e armário no set”, descreve Gordon Willis, diretor de fotografia da obra-prima dirigida por Coppola.

Mas Willis mandou às favas a convenção e mergulhou na escuridão – uma maneira de realçar o aspecto nebuloso da máfia, personificada na figura de Don Corleone, magnificamente interpretado por Marlon Brando.

Veja o que o diretor de fotografia diz sobre a cena inicial, que, em muitos aspectos, mostra a que veio o filme.

“O desenho da luz veio da justaposição da festa de casamento no jardim, ensolorada e alegre, e a sombra do que se passava naquela casa escura. Usei iluminação vinda de cima porque Don Corleone era a personificação do mal e eu não queria que a plateia pudesse ver os olhos dele, ver o que ele estava pensando, queira mantê-lo nas sombras.”

Mais:

“…quando aquelas imagens escuras começaram a aparecer na tela, aquilo deu um tremendo susto em gente que estava habituada a ver filmes de Doris Day (…)Evans perguntou a Bart: ’será que ainda estou de óculos escuros?’”

Detalhe: a primeira frase do filme é “Eu acredito na América”, uma ironia fina do roteiro, dado o fato de ser dita por um homem que implora ao mafioso a vingança de sua filha. É a chave para o entendimento do que o filme discute: o fracasso do sonho americano de nação ideal.

Vale relembrar a sequência.

Fonte: o ótimo livro “Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood”, de Peter Bisking (Editora Intrínseca)

“A Fronteira da Alvorada”, de Philippe Garrel

“A Fronteira da Alvorada”, de Philippe Garrel, entortou um parafuso na minha cabeça.

“Um só pecado”, de François Truffaut

Quem não cometeria um só pecado por Françoise Dorléac?

Especial “Os melhores filmes de tecnologia de todos os tempos: parte 1- o post que deu origem à série”


Planeta Proibido, filme de 1957

A arte cinematográfica existe por uma traição bem organizada da realidade, já disse François Truffaut, um dos fundadores da nouvelle vague, movimento criado na França no finalzinho dos anos 1950 e que, seguindo a trilha aberta pelo neo-realismo italiano, revolucionou o cinema.

A frase de Truffaut – cineasta que, exceto por Fahrenheit 451, não tinha o universo tecnológico como matéria-prima – nos ajuda a entender o modo como o cinema retratou a tecnologia ao longo de sua história.

Fantasia de futuro

Melhor dizendo, o cinema deu conta de como o homem pode desenhar sua fantasia de futuro, suas expectativas e projeções diante das máquinas. Ao fazer isso, nos fez rir, pensar, ter medo, achar que podemos ser muito poderosos e – por que não? – também ridículos.

“Até onde podemos chegar e qual o preço a pagar por isso?”, parecem nos dizer os filmes dessa lavra.

Ou “será que as máquinas vão nos vencer?”, como nos faz pensar Limite de Segurança (Sidney Lumet), enquanto War Games (John Badham) diz “cuidado, vocês podem perder o controle desse jogo, e aí bum! – vai tudo pelos ares”.

Veja a matéria completa no Nave Digital, blog que mantenho no IDG Now!

E aguardem, porque logo vem mais cinefilia tecnológica.

8 cenas inesquecíveis do cinema


“Beijos Probidos” homenageia a Cinemateca Francesa

A Folha de S.Paulo publicou neste domingo (24/1/2010), no Mais, uma matéria bacana sobre as grandes cenas do cinema, na opinião de cineastas e especialistas.

Resolvi entrar na brincadeira. Segue uma listinha bem pessoal, mas bem pessoal mesmo e sem pretensão alguma. Listo apenas algumas daquelas que me marcaram pela beleza, história ou porque me tocaram de alguma maneira.

Várias das citadas na matéria são belíssimas e estão no panteão do cinema. Procurei buscar, no entanto, outros filmes – com exceção de Beijos Proibidos, embora as cenas não sejam as mesmas.

É difícil fazer uma lista com essa, mesmo que seja por pura diversão. Há várias passagens que gostaria ter colocado. Mas isso pode ser assunto para outro post.

Lá vai.

1.Beijos Proibidos – François Truffaut (1968)

Começo por esta por se tratar de uma homenagem ao cinema.

Filme da saga de Antoine Doinel, ele começa com uma passagem que não tem nada a ver com a trama – está ali para fazer uma homenagem à Cinemateca Francesa e em defesa de Henry Langlois, figura fundamental para a criação da cinemateca e que havia sido destituído do cargo por André Malraux, então ministro da Cultura francês.

A medida revoltou cinéfilos e cineastas e foi um dos episódios que culminaram em Maio de 68. Esse episódio foi retratado, em 2003, em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci.

2.Acossado – Jean-Luc Godard (1959)

Um dos filmes capitais para aquilo que depois recebeu o nome de nouvelle vague, O Acossado é revolucionário na forma e na abordagem, embora pareça um filme leve e despretensioso. É um dos meus preferidos, tenho uma ligação afetiva muito grande com ele.

Não me esqueço jamais de Jean Seberg vendendo jornal (“New York Herald Tribuuune”), enquanto é xavecada por Belmondo.

3.Os Cafajestes – Ruy Guerra (1962)

A cena da praia é antológica. Norma Benguel, nua e aflita, é rodeada pelo carro em que estão dois fanfarrões, Daniel Filho e Jece Valadão.

Trecho ficou famoso como o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Pena não ter achado a cena inteira no YouTube.


4.Blow up – Michelangelo Antonioni (1968)

Neste filme, Antonioni discute algo caro ao cinema moderno, do qual ele é um dos expoentes: o que é real e o que ilusão? O cinema dá conta do real? O que os olhos veem é mesmo real? É o que se vê (?) na cena do imaginário jogo de tênis que os clows travam, sob os olhos de Thomas (David Hemmings), que entra na onda e vai buscar uma “bola” lançada para fora da quadra.

5.Eles não usam black tie – Leon Hirszman (1981)

Uma das belas passagens do cinema nacional está neste filme: a sequência em que o casal interpretado por Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri separam o feijão. O contexto: a dura vida nos tempos da repressão. Se quiser ir direto ao ponto, avance até o 3º minuto.

6.Os Incompreendidos – François Truffaut (1959)

Este filme também é um dos favoritos. A cena em que Antoine Doinel foge – seria mesmo fugir ou ir me busca de? – rumo ao mar é dos grandes momentos na história do cinema.

7.Deus e o Diabo na Terra do Sol – Glauber Rocha (1964)

Depois que Antonio das Mortes mata Corisco, o sertanejo Manoel (Geraldo Del Rey) sai em disparada em meio à aridez do sertão. Clara referência ao final de Os Incompreendidos.

Vale lembrar o mito que “o sertão vai virar mar” está presente”.

8.Eu te amo – Arnaldo Jabor (1981)

Sonia Braga e Paulo César Peréio estão fantásticos. Ironia, sacanagem e diálogos meio loucos, neuróticos. A atmosfera é meio cafona, decadente, com um bolerão de fundo.
Um exemplo:

Sônia Braga – Estou querendo um pouco mais de…
Peréio – …palpabilidade.
S.Braga – O quê?
Peréio – Pal-pa-bi-li-da-de. Coisa mais concretas, mais reais.
S.Braga- É, é isso aí. Pegar um pão, passar manteiga no pão e pensar assim: ´Eu estou comendo pão.’

“Uma Mulher tão bela como eu” (Truffaut, 1972)


Cartaz de “Uma mulher tão bela como eu”

Camille Bliss é o pior tipo de sedutora pela qual um homem pode se derreter. Que o diga o pobre sociólogo Stanislas Previne (André Dussollier) que, a despeito de entrevistas para seu doutorado sobre mulheres criminosas, trava longas conversas com essa irresistível criatura que está atrás das grades acusada de matar o amante.

Camille Bliss é Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague.

Veja nesta cena como Camille sabia provocar os marmanjos

Poderosa e desbocada, Camille comanda o jogo do amor e faz gato e sapato do coitado da vez.

É capaz de enfeitiçar pelas curvas e pelo olhar penetrante – ceder aos seus encantos é como entornar o veneno sem sentir o gosto de fel.

- Não se divorciou? – perguntou Stanislas.
- Não se pode divorciar-se de um asno com 27 fraturas. Não seria elegante – respondeu, sobre seu marido, que estava todo quebrado no hospital.


De tanto entrevistá-la, Stanislas se complicou

Ela quer esmagar o macho, humilhá-lo, deixá-lo prostrado à mercê de seus caprichos. Quer fazê-lo babar, fazer juras de amor e, por fim, deixá-lo de mãos abanando. Vai ao limite do seu poder de sedução. Por quê?

- A princípio, sua relação com Golden era puramente profissional. Quando foi que se interessou por ele?
- Esse é o problema de ir para a cama com alguém e depois falar de negócios.


No começo ela é doce, depois…

Seria Camille Bliss, a anti-dama, a estonteante desbocada de “Uma Mulher tão bela como eu”, de François Truffaut, uma criatura sem coração? Uma fêmea movida pelo ódio?

- É uma ninfomaníaca que vai com todos! – indigna-se a digitadora lourinha que transcreve as entrevistas e é apaixonada Stanislas.

Claro que não. Ou é?

Camille seria tão somente uma mulher que desenvolveu uma forma peculiar de reagir às cruezas da vida?

Elucubrações à parte, lembremo-nos de que, num filme de Truffaut, nunca se verá alguém guiado por um sentimento que não seja o amor - ou pela emergência de reparar a dor de um dia ter sentido o vento gelado do desamparo

Já estou com saudades de Eric Rohmer…

O Joelho de Claire, filme de 1970

Ícone da nouvelle vague ao lado de Truffaut, Godard e Claude Chabrol, Eric Rohmer - morto no dia 11 de janeiro de 2010, aos 89 anos – era o cineasta das palavras, dos encontros e desencontros.

O cineasta de personagens que vagam por ruas, praias e campos em busca de alguma coisa – a solução para uma angústia, um desejo, uma tristeza contida -  que nem mesmo eles sabiam direito o que era. Personagens assim como nós.

Separei um trecho de um de seus filmes de que mais gosto, Amor à Tarde, de 1972. Na história, um homem – Frédéric,  interpretado por Bernard Verley-  que tem uma vida pacata de casado ( e, até prova em contrário, feliz)  vive em devaneios eróticos vespertinos com as mulheres que vê na rua.

Chloé é a tentação em pessoa na vida de Frédéric

As fantasias não ultrapassam as fronteiras morais até que aparece no escritório do qual é sócio a tentação: a provocante Chloé – a belíssima e forte atriz Zouzou -, ex-amante de um amigo que está disposta lhe tirar atiçar os hormônios.

Moral, recato e erotismo se misturam num filme delicado e construído a partir do olhar masculino.

Reparem na câmera livre pelas ruas de Paris, no fato de os personagens estarem quase sempre em movimento e na cidade que salta pelas lentes, viva, intensa – traços da nouvelle vague que Rohmer tingiu com cores próprias em seu cinema.

Bod Woodward e “Todos os homens do presidente”

All-Presidents-Men-np02
Em cena Dustin Hoffman (Carl Berstein), Robert Redford (Bob Woodward)

Sábado comprei por acaso num sebo da Augusta o livro “Bush em Guerra”,do jornalista Bob Woodward, parceiro de Carl Berstein na série de reportagens que desmascarou o escândalo de Watergate, responsável pelo impeachment de Richard Nixon. Louco para lê-lo.

Assim me lembrei, claro, do ótimo “Todos os homens do presidente‘, filme de 1976 de Alan Pakula. O longa tem Robert Redford e Dustin Hoffman nos papéis, respectivamente, de Woodward e Berstein. A cena final é esplêndida, esplêndida!

Mas separo aqui trecho em que Woodward se encontra com o Deep Throat, a fonte que mostra onde estão os ovos de ouro dessa história cabeluda. Na cena – os encontros sempre se dão num estacionamento, tarde da noite-, Woooward perde apaciência com os “joguinhos” do Garganta Profunda, que passa as dicas em pílulas.

Reparem na atmosfera angustiante e na tensão da cena, presente no diálogo, nos sinais corporais e na fotografia obscura. Ouve-se até o barulho da saliva que percorre o Garganta Profunda.

Um dos grandes filmes sobre jornalismo. Vencedor de quatro estatuetas do Oscars. Memorável.

O longa mereceu um homenagem bem bacana. Bacana, não: nota dez!

Embalado pela eletrizante “Sabotage”, dos nova-iorquinos do Beast Boys – a música é uma de minhas preferidas da banda -, esse filmete praticamente resume o longa, ou pelo menos faz uma leitura em ritmo de videoclipe da obra. Edição caprichada, alucinada. Vejam:

Exemplo da cultura do fá de que fala Henry Jenkins. No mais alto nível.

4º Mostra de cinema árabe

sinopses_01_andarilhos
“Andarilhos do Silêncio”, da diretora tunisiana Moufida Tlatli

Boa pedida na área: 4º Mostra de Cinema Árabe, projeto capitaneado pelo Instituto da Cultura Árabe em parceria com a Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo, o CineSesc e a Casa Árabe de Madri-Espanha.
Obras de países como Tunísia, Egito, Líbano e Iraque.

Os filmes podem ser vistos até 13 de setembro. Confira a programação e outras informações aqui.

Agradecimento especial ao André Dogon, que fez o ótimo site da Mostra e passou a dica.

Dilema moral no meio do inferno

falsarios-2
Salomon Sorowitsch (interpretado por Karl Markovicz) é o ambíguo protagonista de Os Falsários

Entregar um companheiro é um crime moral inafiançável. Mas o que dizer de uma delação que tem objetivo salvar pessoas da morte – incluindo a si próprio – ou minimizar um sofrimento, embora essa atitude possa fortalecer o opressor? Mais: será imoral colaborar com o inimigo para se livrar da câmara de gás e obter certos privilégios – leia-se não levar pancadas ou ser fuzilado – sabendo que outros companheiros não têm direito à mesma sorte?

Em poucas palavras, esse é o dilema moral vivido por Salomon Sorowitsch (interpretado por Karl Markovicz) em Os Falsários, longa-metragem vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sem julgamentos de personagens e envolta em flashbacks, a obra provoca e emociona o espectador. O filme está em cartaz. Assisti-o ontem à noite.

falsarios-1
Salomon se desentende com Burger, que é contra colaborar com os nazistas

O diretor Stefan Ruzowitzky leva às telas uma história real. Durante a Segunda Guerra, judeus com talento para a falsificação de dinheiro, especialmente Salomon, um expert no assunto, são obrigados a produzir cédulas em série para os nazistas. O objetivo era salvar a Alemanha do endividamento e desestabilizar a economia de países aliados, como a Inglaterra.

O talento de Salomon o leva à condição destacada perante um dos chefe nazistas, que o livra dos espancamentos. Salomon então passa a liderar um grupo de trabalho dentro da prisão. Mas um companheiro, Burger, começa a sabotar a falsificação de dólares porque não quer ajudar os nazistas. Os demais presos perseguem Burger, pois temem morrer.

falsarios_41
…mas não entrega o amigo, mesmo sob o risco de ser fuzilado

Salomon por vezes parece subserviente aos alemães, dono de um instinto de proteção que beira o servilismo. Mas, mesmo colocando o pescoço a prêmio, não delata Burger. Pelo contrário, protege-o. O que o move? A solidariedade? Mas como ser solidário num campo de concentração? E será que, ao esconder a sabotagem de Burger, ele não condenou seus demais amigos à morte? Esta questão percorre todo o filme.

Bonita a história de Os Falsários. E tratada sem maniqueísmos pelo diretor Stefan Ruzowitzky.

Ponto de Fuga em ritmo de aventura

- Você disse que o Roberto Carlos está preso em lugar seguro?
- Disse.
- E onde é que está o Brasa?
- Lá!

Brrrrruuuuuuuuum!!!!

Palavra (En)cantada

Estou curioso para ver Palavra (En)cantada, documentário de Helena Solberg que estreia hoje em São Paulo. Depoimentos de Adriana Calcanhoto, Chico Buarque, Lirinha, Lenine, Maria Bethânia etc. Como o nome indica, trata íntima relação entre letras e música na MPB. Uma indagação sobre a língua, no dizer de O Estado de S. Paulo.

Veja o trailer.

A Mulher do Lado

Gérard Depardieu e Fanny Ardant , em A Mulher do Lado (Truffaut, 1981)

Livre delírio deste blogueiro feito a partir de A Mulher do Lado, de Truffaut.

“Você sempre vai me amar, vai me proteger?”, perguntou ela. Seu medo era o de sempre: o amor que acaba, as juras perdidas entre cartas, fotos e lembranças amareladas. Havia anos que não se viam, até que se mudou para a casa vizinha à dele. “Pra onde vão todos esses carros?” Ele não falou nada – quieto, tentava descobrir por que o passado retorna.

“Quanto mais estúpidas, mais verdadeiras são as músicas”, disse ele. Ela não entendeu. “O que importa”, emendou ele, “é que as histórias de amor precisam ter um início, um meio e um fim”. Ela continuou sem compreender. E então puxou o gatilho. Foram dois disparos.

São Paulo x Palmeiras, Bergman e a balada


Cena do filme Terra Vermelha, que abriu a Mostra

Gente com guia cultural na mão, andar apressado pelas cercanias da avenida Paulista, comentários sobre a próxima sessão. Às vezes filas bem grandes, outras um pouco menores – com sorte, nas sessões vespertinas, apenas uns gatos pingados atrás de ingressos para as sessões da Mostra Internacional de Cinema. São Paulo é mesmo saborosa nos dias de jornada cinéfila. Adquire um clima diferente, uma empolgação a mais.

Festa de arromba

E a loucura começou já na festa de lançamento, na quinta-feira semana passada. Depois de exibição do bom Terra Vermelha, obra ítalo-brasileira dirigida pelo italiano Marco Bechis e produzido pela Gullane Filmes e a Classic SRL, festa de arromba na casa The Week, na Lapa. Gente pelos borbotões até alta madrugada. Creio não ser exagero falar em mais de mil pessoas. Estava lotado. Em meio a uns birinaites, a pista pegava fogo embalada por remix de clássicos da MPB, como Lulu Santos, Tim, Marina etc. Eu e minha querida Elzinha nos divertimos a beça.

No domingo passado, eu e meu grande comparsa de boemia e blogofilia (boa essa, não?) Márcio “Prefeito de Bloganvile” Dal Rio encaramos um Bergman no Cinesesc: sei que o nome do filme é piada pronta, mas vamos lá: “Chove em nosso Amor”. Bom filme, do início de carreira do cineasta, assim com os demais do diretor sueco em exibição na Mostra. Mas prefiro o “Crise”, seu primeiro longa, que assisti no dia anterior com a Elza.

“Chove em nosso amor” é um dos primeiros longas do mestre sueco

 

Bergman e o clássico paulista

Depois do filme, mais uma demonstração da delícia que é São Paulo – e o Brasil. No boteco que fica na esquina de cima do Cinesesc, tradicional das sessões “sescianas”, uma turma assistia a São Paulo x Palmeiras. Quase decisão de campeonato brasileiro. Confesso: eu quase deixei de lado Bergman – que eu queria muito ver, pois as obras exibidas na Mostra são raras -, para ver pela TV o Tricolor. Mas, como o filme acabou pouco antes das 17H e a partida começou às 16h, deu para pegar o segundo tempo inteiro (uma breve digressão: o São Paulo jogou muito mais, dominou e teve a vitória na mão, só que vacilou. E ou não é?).

Boteco lotado, olhos vidrados na TV. Gritos e provocações mútuas, mas tudo na boa. A lanchonete-arquibancada fervia. Na “primeira fila”, uns seis ou sete monitores da Mostra dividiam-se, entusiasmadíssimos, na torcida por São Paulo e Palmeiras. Em vez de camisas dos clubes, uniformes da Mostra.

Findada a peleja, empate em 2 x2. Tomaram o último gole da cerveja e voltaram para o trabalho no Cinesesc. A sessão seguinte já ia começar.

Nunca houve uma mulher como Rita Hayworth

Homenagem com um dia de antecedência: 90 anos de uma grande diva. Rita Hayworth nasceu no dia 17 de outubro de 1918 e morreu em 14 de maio de 1987. Gilda, Salomé, A Dama de Xangai – este, com o então marido Orson Welles. Protagonista de clássicos inesquecíveis.

Declaração de amor de um cinéfilo

godard-anna-karinajpg.bmp

Depois de Anna Karina, viver a vida tornou-se uma aventura muito mais colorida, poética, bela.  

anna-karina-2.jpg

Com Anna Karina, uma mulher não é só uma mulher.

 

Por Anna Karina eu me tornaria o melhor dançarino do mundo, só para acompanhá-la nessas dancinhas. Faria até sapateado, tocaria corneta. Depois de Anna Karina, eu vivo a vida feliz da vida.

Godard, Rolling Stones e o mítico 1968

godard-sympathy.jpg

Godard e os Stones durante de “One Plus One”

 

Jean-Luc Godard é quase certamente o cineasta mais odiado, amado, idolatrado e xingado da história do cinema. Gênio ou um chato de galocha? Artista de primeira grandeza ou um enfadonho fazedor de filmes que levam do nada a lugar nenhum? Cada um toma seu partidoÉ fácil compreender o porquê de tanta reação quando o assunto é Godard.

Talvez o nome que melhor simbolize  as experiências estéticas do princípio do cinema moderno, evidentemente que alargando a trilha aberta pelo neo-realismo italiano, Godard foi ao limite na busca na (des)construção da linguagem cinematográfica. Sem ter esse contexto em mente, assistir a muitos de seus filmes pode não passar de uma sessão de tortura visual.   

godard-panteras.jpg

Até os Panteras Negras são retratados

 

Tudo isso me vêm à cabeça ao assistir a  “One Plus One”, filme que traz os bastidores de um ensaio no qual os Rolling Stones repassam a faixa Sympathy for the Devil. Lançado no mítico 1968, o longa traz  não só os ventos revolucionários daquele maio histórico na França, mas também a marca da vanguarda.

Como bem apontou um crítico, trata-se de um Godard-repórter, antes de um Godard-romancista. Equilibrando-se na linha tênue entre o documental e a ficção,  “One Plus One” dá voz às questões de seu tempo, como maoísmo, marxismo-leninismo, racismo, feminismo, ressaca do nazismo  e contracultura.

godard-nazi.jpg

Colagem pop no deixa escapar nem o nazismo

 

Com uma narrativa fragmentada, usa e abusa da colagem, ao melhor estilo pop, e delimita como espaço para as reflexões a sociedade de consumo que explodia a partir dos anos 1960.

Com tudo isso quero dizer o seguinte: “One Plus one” tem os Rolling Stones, mas vai dar com os burros n’água quem assisti-lo pensando se tratar de uma cinebiografia ou algo do gênero. Não estamos falando de um filme com ou sobre os Stones, pois Godard não estava para brincadeira.

 

godard2.jpg

Godard brigou com os produtores do filme

É um longa que dialoga com a rebeldia de seu tempo, seja no que se refere à linguagem, seja no olhar original com que trafega no delirante e extremado 1968. O DVD está fresquinho nas lojas, com direitos a ótimos extras.

Em tempo: é possível comprar tanto “One Plus One”, filme montado e aprovado pelo próprio cineasta, como “Sympathy for the Devil”, versão que sofreu interferência dos produtores e é execrada por Godard. Já comprei os meus e ninguém tasca.  

Ian Curtis e Joy Division em Control

joy-control.bmp

 Longa foi premiado na Quinzena dos Realizadores, Cannes, 2007 

Ainda na levada inglesa: Control, longa-metragem sobre Ian Curtis, vocalista da banda inglesa Joy Division que se suicidou aos 23 anos, não é uma cinebiografia bobinha, dessas que descartamos ao final de duas horas.

joy-iancurtis-ed.jpg

 Ian Curtis gostava de David Bowie e Iggy Pop 

Se convencional na forma, tem o mérito de levar para as telas, com competência, a arte atormentada de um jovem que não agüentou o peso de si mesmo. Despe a pele do astro para nos relevar, numa bela fotografia em preto e branco, a complexa alma de um homem cindido.  

  

joy-annik-alexandra.jpg

 A bela Alaxandra Maria Lara faz Annik, amante de Curtis

Control é capaz de calar fundo, especialmente aqueles que se fizeram ouvindo Joy Division e, depois New Order, formado pelos remanescentes do grupo após a morte de Curtis, em 1980. É o meu caso. Para quem não ouviu ou não curte a banda, ainda assim vale o ingresso. É cinema, antes de tudo.

control-curtis-e-riley.bmp

Riley, à esquerda, interpretou Curtis de modo impecável

De quebra, Control captura um pouco do espírito de desalento pós-contracultura, os ecos do punk, no final dos 70 e início dos 80, misturado à energia de uma juventude que queria explodir, mandar tudo às favas e fazer rock and roll. Anton Corbjin, diretor do filme, foi fotógrafo do Joy Division e fez videoclipes de várias bandas, entre as quais Depeche Mode e U2.

 

control-2.jpg

Cena do filmeBanda foi criada em 1976, em Manchester 

 

Sam Riley, que interpreta Curtis, está simplesmente impecável. Não sei o que diriam os outros fãs da banda, mas, nas performances exibidas no filme, pareceu-me ver o próprio Curtis, assim como o fez Val Kilmer na pele de Jim Morrisson

em The Doors (Oliver Stone, 1991).   

control3.jpg

Cena: Curtis se suicidou pouco antes de turnê para EUA 

Segundo o UOL, as músicas de Joy Division apresentadas no longa (as ótimas Love will tear us apart, She´s Lost Control e Transmission etc) são tocadas pela própria banda que está em cana, com o Riley nos vocais.  

Última: Peter Hook, baixista do New Order, parece que não gostou do filme. Veja aqui.   

Vale conferir nos cinemas.

Veja mais em Ponto de Fuga aqui.

Cena de Control: tocando She´s lost control

Agora Joy Division, com Transmission

Bastidores da entrevista com Helena Ignez

dsc01951.jpg

 Capa do caderno Fim de Semana, com O Bandido

Como de praxe, Ponto de Fuga tarda, mas não falha – quer dizer, nem sempre. Disse que escreveria mais detalhes a respeito da matéria sobre o Bandido da Luz Vermelha, publicada em 18 de abril na Gazeta Mercantil. E aqui estou. Falemos dos bastidores.

Exceção óbvia feita às imagens de filmes arrebanhadas na web, as fotos deste post foram feitas durante a entrevista com a atriz e diretora Helena Ignez, viúva de Rogério Sganzerla, diretor de O Bandido e um dos grandes da história do cinema nacional. Quem bateu as fotos com a atriz e eu foi Vani Fátima, produtora de Helena.

 clayton-helena-2.jpg

“Por que está respingando água em nós?” Era o pessoal da limpeza em ação

Em março, Heleza me recebeu em seu escritório no centro de São Paulo. Na verdade, a entrevista foi feita numa área livre do edifício, porque o escritório de Helena estava em reforma, como se pode ver em um das fotos deste post.

Em dado momento, eu e o Leonardo Soares, fotógrafo da Gazeta Mercantil, subimos para fazer as fotos. Ao final da sessão, Helena me perguntou se eu poderia ajudar a restabelecer a conexão da internet. Ajudei então o rapaz que trabalha com ela (cometo a gafe de não ter o nome aqui neste momento). Mexemos em alguma coisa lá e o santo que zela pela conexões teve piedade de nós. Deu certo.

clayton-helena-1.jpg

Eu e Helena

Helena é uma mulher que fala  pausadamente, com a suavidade baiana a embalar as palavras – ela nasceu em Salvador. Transparece ser uma mulher convicta, de posições fortes. Para ela, cinema e teatro não são passatempos, não rimam com pipoca. São expressões da Arte.

A história de Helena está intimamente ligada ao período de ouro do cinema nacional, na década de 1960. Na vasta carreira constam filmes de Glauber Rocha, com quem foi casada (fez O Pátio, primeiro filme de Glauber) e outros do Cinema Novo, sem falar nos tantos de Sganzerla – para citar alguns, os ótimos A Mulher de Todos e Copacana Mon Amour.

dsc01952.jpg

 A foto do Leonardo, que ilustrou a matéria, ficou bem bacana

O teatro também ocupa lugar de destaque na vida de Helena. A propósito, veja o que diz a respeito das peculiaridades de interpretação em um e outro.  

“Não faço distinção entre cinema e teatro. O que se pode dizer é que no cinema  a interpretação deve ser mais econômica. O ator tem de pensar na câmera. Já o teatro é para o público. O prazer de estar no palco é insubstituível”, disse a atriz.  

helena-ignez-escritorio.jpg

 Leonardo me flagra tentando fazer a internet funcionar 

 

E por aí foi. Veja agora um pouco mais sobre as idéias de Helena.  

- “As pessoas que trabalhavam em O Bandido tinham consciência, no momento da realização, de que se tratava de um grande filme” 

- “O Rogério (Sganzerla) às vezes era nervoso. Era ágil, fazia o trabalho com amor”

- “O cinema nacional tem um problema: somos copiadores, não há personalidade (para impor uma linguagem própria)”

mulher-de-todos.bmp

Helena, Stênio Garcia e Antonio Pitanga, em A Mulher de Todos

 

“Estou empenhada empenhada em preservar e divulgar  a obra de Rogério Sganzerla, que é muito pouco conhecida no Brasil”“Vamos tentar lançar este Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha, continuação de O Bandido, cujo roteiro foi escrito por Rogério”  

sganzerla.jpg

Rogério Sganzerla, diretor de O Bandido

Por hora, é isso. Para ver mais sobre Sganzerla/Helena, no lado esquerdo da tela, em Assuntos, clique nas categorias Cinema-Sganzerla e Cinema – Bandido .

helena-ignez.jpg

 Essa foto com Helena parece ser de a Mulher de Todos ou Copacanaba

Se também quiser ler a reportagem sobre o Bandido, neste site é possível ler o começo da matéria.  

 

“Traz o omelete, madama. E bem temperado”

“Quem estiver de sapato não sobra”

Ele entrou na casa do bacana. Na calada da noite.  Lenço no rosto, lanterna na mão. “E vamu logo, acorda aí, dotô, vamu, vamu”. Trancou-o no banheiro.  

Foi até a distinta senhoura, que sonhava com os anjos. “Levanta”. Levou-a até a cozinha, tudo na paz, na calmaria. Tirou o lenço. “Traz o omelete, madama. E bem temperado”.  

 

40 Anos de O Bandido da Luz Vermelha, o faroeste sobre o Terceiro Mundo. Um filme de Rogério Sganzerla, nas páginas da Gazeta Mercantil desta sexta-feira, dia 18 de abril. Nas bancas.

 

E logo mais outras novidades em Ponto de Fuga. 

“A solução para o Brasil é o extermínio! Extermínio totaaaal!