“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?”

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Carta relembra feridas de um tempo sangrento

Daniel A. Rubio é meu amigo de fé, meu irmão camarada. “Cabra bom”, para usar uma frase típica de outro amigo querido, o jornalista Costábile Nicoletta.

Daniel é um documentarista chileno dos bons que mora no Brasil há cerca de uma década – e com quem começo a aprender essa arte, que aproxima duas de minhas paixões, o jornalismo e o cinema (já fizemos até um primeiro vídeo em conjunto, por puro prazer e diversão).

Ele escreveu um texto tocante sobre seu país depois do resultado das eleições presidenciais, no domingo passado.

A carta – é a carta aberta a um amigo em comum, o chapa Edson Lima, produtor cultural, responsável projeto O Autor na Praça –nasceu depois que o Edson lhe enviou uma matéria de um portal cuja manchete era: “Direita volta ao poder no Chile”.

E então Edson, no mesmo e-mail, perguntou:“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?

A carta traz reminiscências de um tempo sangrento. É como um filme que, embora de horror, também seja feito com cenas de amor e solidariedade.

É um pouco longo, mas vale a pena.

CARTA ABERTA A EDSON LIMA

“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?”

Daniel A Rubio

Na segunda-feira, dia 18 de janeiro de 2010, recebi um e-mail de meu amigo Edson Lima. Ele me questionava. “Daniel, o que aconteceu no Chile?”, e me copiava os resultados da eleição para presidente no meu país. “Direita volta ao poder no Chile”, dizia manchete da matéria que me enviou.

“Daniel, o que aconteceu?”

Como explicar para Edson? Pensei até em criar uma história ou inventar uma desculpa, mas ele não acreditaria em qualquer coisa.

Edson é um apaixonado por política. Gestor cultural na área de literatura em São Paulo, é completamente dedicado à paixão aos livros e à cultura. Eu precisava explicar de alguma forma. Foi assim que uma série de imagens me veio à mente.

Embora não viva no Chile há muitos anos, minha mente foi longe.

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Empresas escondiam produtos para sabotar Allende

Lembrei-me de, quando ainda uma criança de doze anos, pegava filas para comprar óleo, açúcar ou arroz para minha família. Claro que não se conseguia comprar tudo no mercado negro, por causa do embargo comercial e da falta de mercadorias – a direita havia retirado os produtos das prateleiras como forma de pressionar Salvador Allende, o primeiro governo socialista eleito (1970) por voto direito e democrático na América Latina.

Segundo a direita – e os EUA -, essa pressão tinha o objetivo de extirpar do continente uma corrente perigosa de esquerda que crescia por aqueles anos.

Depois me lembrei dos aviões, rasantes, que retomavam altitude de voo depois de lançarem bombas sobre o La Moneda, o palácio de governo, naquele fatídico 11 se setembro de 1973. Gente pulava e buzinava nas ruas. E também muita gente triste. Era o começo da ditadura de Augusto Pinochet.

Já de início os direitos civis foram terrivelmente esmagados. As organizações de bases foram reprimidas e praticamente exterminadas. Não havia permissão para reuniões de grupos. Os movimentos comunitários, clubes esportivos ou um simples centro de mães: nada podia se organizar.

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Bombardeio ao La Moneda matou Allende

Num país historicamente católico, extremadamente conservador e socialmente homogêneo, isso tornava a população ainda mais dependente de um poder central. As informações eram filtradas antes de chegarem ao povo, enquanto as decisões da ditadura eram disseminadas como a voz oficial, de modo a nos convencer de que um novo Chile, livre do perigo do comunismo, estava em construção.

E eis que, num passo de mágica, as coisas começaram a funcionar. Poucas semanas depois do golpe as prateleiras dos supermercados estavam novamente repletas de produtos… Tudo parecia voltar ao normal depois do “caos”.

Bom, parecia normal para a massa, mas não para os muitos que eram perseguidos, exilados, torturados ou desaparecidos.

Começava a construção de um “novo” Chile. Em meados dos anos 1970, instaurou-se o regime econômico neoliberal, inspirado em estudos de livre mercado de um grupo de economistas de Chicago (os “Chicago´s boys”). O livre mercado tomava conta do Chile.

Pela primeira vez na minha vida, vejam que ironia, podia sonhar com uma calça jeans da Levis, comprada numa loja de um bairro nobre de Santiago! Antes, isso só era possível se o algum amigo viajasse ao exterior e contrabandeasse os preciosos jeans da Levis.

E esse admirável mundo do consumo se estendeu a vários produtos: óculos, tênis, sapatos, jaquetas de estilo. O curso da moda para os jovens era a publicidade. Muitos se viram influenciados pelo glamour e a criatividade do apaixonante mundo da propaganda. Um desses jovens fui eu.

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País ficou cindido e gerou manifestações populares

Na minha época de estudante, percebi como a criatividade pode ser uma ferramenta bela e também poderosa. Se por um lado me apaixonei pela precisão da metodologia de aplicação do processo criativo na publicidade, de outro fiquei completamente aterrorizado pelo poder da propaganda e o uso que o mercado fazia dessa ferramenta.

O questionamento ético de sua aplicação inexistia.

E isso me provocava repulsa. O fim era manipular as emoções com um único fim: “vender”. Mas vender o quê? Qualquer coisa, bastava vender.

Executavam-se estratégias para despertar as mais íntimas emoções e desejos, e as emoções eram substituídas por produtos, coisas que as pessoas compravam, compravam… Compravam como se comprassem a felicidade. Compravam emoções.

Os produtos conquistavam corações e mentes, partindo da classe A, que despertava o desejo da classe B, depois da classe C, da D, E. As estratégias de marketing eram planificadas dessa forma. Com perfeição milimétrica.

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Consumo crescia, e tanques tomavam as ruas

Como podia uma pessoa agüentar tudo aquilo? As comunidades estavam destruídas, logo elas que, para mim, sempre foram o berço dos valores humanos mais nobres, como a solidariedade. Elas eram o caminho para se trabalhar juntos, aprender juntos, desenvolver a consciência do bem comum. Nada disso existia mais.

Assim se passaram 17 anos da ditadura que implantou o neoliberalismo no Chile, até chegarmos a 1989.

Depois de uma nova constituição no país, a transição para a democracia se iniciava. Mas essa transição foi feita a partir das normas da ditadura. Nesse tempo, tudo, ou boa parte no Chile, estava nas mãos do capital privado. Os primeiros ares da globalização que sopravam mundo afora tinham tomado conta do Chile, onde a política e a economia continuavam atadas.

Esse era o contexto quando um novo governo foi escolhido por votação popular depois dos anos de chumbo.

Tratava-se de um governo de coalizão dos partidos de centro e esquerda, grupo representado por Patricio Alwin. Dali por diante sucederam-se 20 anos de diferentes gestões da chamada “Concertación!”, que tentava desatar o país e acabar com a herança da ditadura por meio de políticas sociais.

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Patricio Alwin, o presidente da redemocratização

Percebia-se a tentativa de ficar um pouco longe do mercado, mas o mercado tinha tomado conta do Chile. Também nesses 20 anos – os mesmos anos em que a globalização do capital tomou conta do mundo – a “Concertación” não conseguiu sair disso.

Bom, depois dessas reminiscências todas, volto ao meu amigo Edson: “O que aconteceu no Chile domingo passado?”

Edson, você me fez pensar em parte da minha história, em lembranças quase fotográficas me levam a dizer que tudo o que escrevi aqui não tem fundamento histórico algum: é apenas uma reflexão provocada pela sua pergunta e feita a partir dessas “fotografias” que tirei da memória.

“Daniel, o que aconteceu no Chile?”

A verdade, meu amigo, é que não sei…

Tenho mais perguntas que respostas. A “Concertación”, com problemas de gestão, não teria conseguido superar suas próprias diferenças?

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Michelle Bachelet não conseguiu eleger sucessor

A coalizão de centro-direita ganhou com 52% dos votos! Coalizão de centro-direita? Não existe direita? Não existe mais esquerda? O que fez 52% dos eleitores optarem por um Berlusconi latino americano? Será que a exposição por 37 anos ao espírito do “mercado” criou grande classe média arrivista, que se quer nos braços da direita?

Quais os valores que uma sociedade em busca do desenvolvimento tem hoje? E que conceito de desenvolvimento pode ter uma sociedade exposta brutalmente ao capitalismo durante os últimos 37 anos, sem que se refletisse sobre esse processo? Eu sou o que compro e tenho? Sou feliz com o que compro e tenho? Não existe direita nem esquerda, todos são progressistas? O que posso responder?

Sei apenas que hoje a direita no Chile, que se autodenomina “centro-direita”, conquistou o poder.

Esta mesma centro-direita que procura se desvincular da era Pinochet sempre teve – e continua a ter – o poder econômico no Chile. Depois da eleição do domingo passado, voltou a ter também o poder político. Coisa muito perigosa…

Sim, Edson, temos que seguir lutando. Mas lutar como, contra quem ou o quê se não existe mais direita ou esquerda e todos são progressistas?

Dias atrás um outro amigo me deixou uma mensagem no Facebook. Ele dizia: “Daniel, estou preparando o meu ‘pasa-montaña’’.

“Pasa-montaña” é um boné que servia para cobrir o rosto dos jovens que faziam barricadas nos bairros populares de Santiago.

Barricadas? Será tempo de barricadas? Será que estou ficando velho? Será que temos que reinventar as formas de luta? Como incentivar os valores humanos em mentes mutiladas pelo mercado?

Perguntas, perguntas…

Mas é bom pensar, né?

“Abrazo”

A década digital e a convergência de mídias

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Como é praxe, replico artigo meu – publicado nesta segunda-feira – na Gazeta Mercantil. Aqui com uma roupagem, digamos, mais modernosa.

27-Abril-2009
A década digital e a convergência de mídias
Gazeta Mercantil – Caderno C
Opinião
Clayton Melo

27 de Abril de 2009 – O período compreendido entre 1999 e o ano 2000 representa, para muitos estudiosos da cibercultura, o marco inicial da primeira década digital. Ali se delinearam melhor os contornos da sociedade em rede, cujos reflexos são sentidos com maior intensidade agora nos negócios, na comunicação e na cultura. Cravar 1999/2000 como o período-chave para o começo da década digital é apenas uma maneira de delimitar um processo na época já em andamento. Há razões para crer, no entanto, que os acontecimentos deflagrados naquele intervalo aceleraram o florescimento de uma nova cultura da mídia.

Se há uma obra que simboliza essa travessia, ela se chama “Matrix”, e veio embalada num universo midiático que inseriu a comunicação na lógica da convergência de mídias. O estudo do projeto “Matrix” dá pistas para os veículos de comunicação, produtores de conteúdo e profissionais de marketing sobre a melhor maneira de trafegar na sociedade digital.

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Na levada do videogame e de fantásticos golpes de kung fu cibernético, o longa-metragem “Matrix”, lançado em 1999, discute a fluidez entre o real e o virtual e relê velhos mitos, como o do Messias – caracterizado como um hacker -, com a missão de salvar o mundo no ambiente da virtualidade e do embate entre humanos e máquinas superinteligentes. A obra não marcou época somente por sua qualidade estética, mas também por promover a interação de uma série de produtos midiáticos e, assim, desbravar uma vereda: a criação convergente de conteúdos.

Veja bem, não falo de um mesmo produto esparramado por diferentes canais. Em vez disso, temos uma ideia central interconectada a várias mídias e que tem na participação dos fãs um componente fundamental de sua estratégia. Esse fenômeno é um exemplo da narrativa transmidiática de que fala Henry Jenkins, diretor do programa de Mídia Comparada do MIT (Massachussetts Institute of Technology), no livro “Cultura da Convergência” (Editora Aleph).

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Para o autor, a convergência não é um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro de um mesmo equipamento (como um celular com voz, web e TV, por exemplo), mas sim “uma transformação cultural, à medida que os consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos midiáticos dispersos“. Nesse contexto, uma “história transmidiática se desenrola por meio de múltiplos suportes midiáticos, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para o todo”. É o que se vê em “Matrix”.

Andy e Larry Wachowski, os idealizadores, criaram um universo de conteúdo que se completa em diferentes suportes de comunicação. O anúncio do pré-lançamento do filme provocou os consumidores com a pergunta “O que é Matrix?”, estimulando-os a buscar respostas na web, enquanto o segundo filme da série não recapitula a história inicial e termina abruptamente, para levar o consumidor a assistir ao terceiro filme.

Para encaixar o quebra-cabeça, seria necessário ter experimentado um game. Uma história paralela era revelada em curtas de animação baixados na rede. “Os fãs saíram correndo dos cinemas, pasmos e confusos, e se plugaram nas listas de discussão da internet, onde cada detalhe era dissecado e cada interpretação possível, debatida”, diz Jenkins.

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São poucos os produtos que exploram a convergência tal como o fez “Matrix” – as bem-sucedidas séries de TV Lost e Heroes são outros exemplos. O entendimento de experiências como essas, no entanto, é importante por algumas razões: elas são edificadas em um terreno de linguagem apreciado pelos mais jovens (videogame, interatividade, participação) e exploram o cruzamento de mídias de maneira a potencializar o impacto do conteúdo.

Essa será a forma predominante de entretenimento daqui por diante? É difícil afirmar categoricamente. Mas acredito se tratar de uma experimentação de linguagem em sintonia com os novos hábitos de consumo de mídia. Se bem conduzida, pode representar uma renovação estética e, como ninguém é de ferro, fazer tilintar os caixas das empresas de mídia na era da cultura da convergência.

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 3) CLAYTON MELO* – Editor de ComunicaçãoE-mail: cmelo@gazetamercantil.com.br)

As estrelas da blogosfera internacional

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Existem no mundo mais de 112,8 milhões de blogs. Veja mais em artigo meu publicado ontem, que replico aqui.

Clayton Melo
Gazeta Mercantil
30-03

Os blogs também têm suas grandes estrelas

O inglês Tim Berners-Lee, conhecido como o “Pai da Web” por ter, em 1989, inventado a world wide web – o “www” dos endereços da rede -, também é o pioneiro dos blogs. Segundo o estudo a “Blogosfera na América Latina”, da The Jeffrey Group, ele publicou o primeiro weblog da rede em 1992, quando trabalhava no Laboratório Europeu de Partículas Físicas (CERN). Na ocasião, ninguém sabia – nem mesmo ele – como chamar a engenhoca que facilitaria a qualquer cidadão colocar na rede o que lhe desse na telha. Foi só em 1997 que John Berger cunhou o termo “weblog”, abreviado dois anos mais tarde para “blog” por Peter Merholz. Naquela época, o mundo tinha apenas 23 blogs.

Aproximadamente uma década depois de o blog receber nome e sobrenome, sabe quantos representantes da espécie existem no planeta? Mais de 112,8 milhões, com uma média de 175 mil blogs criados por dia, conforme dados do Technoratti, portal especializado no tema, com dados de junho de 2008. A empresa indica que naquele período cerca de 1,6 milhão de posts – textos veiculados nos blogs – são publicados diariamente, a uma taxa impressionante de 18 por segundo! Na América Latina, havia em 2007 por volta de 9,1 milhões de blogueiros. Em dezembro do ano passado, 11,6 milhões de brasileiros acessaram blogs, ante os 9,5 milhões de dezembro de 2007, conforme dados do Ibope Nielsen Online.

A sopa de números quer dizer o seguinte: os blogs vieram para ficar. Mas isso parece não significar muita coisa para alguns, que insistem em relembrar- e com um pouco, mas apenas um pouco, de razão – a imensa oferta de bobagens presente na blogosfera. Um olhar mais aprofundado sobre esse universo, no entanto, mostrará que há blogs capazes de influenciar o voto dos eleitores, a opinião sobre empresas e apontar tendências de consumo e comportamento. E, no cibespaço, a blogosfera ostenta suas estrelas. São blogueiros que conquistaram a confiança de milhares – às vezes milhões – de leitores mundo afora.

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O livro “Blogging Heroes”, de Michael Banks, lançado no Brasil pela Digerati Books, nos traz a história de 30 blogueiros internacionais tidos como influentes e inovadores. Por meio de perfis e entrevistas, a obra mostra como eles se tornaram celebridades da rede e qual o segredo para fisgar os leitores na barafunda da web. Uma boa parte dos blogueiros é composta por especialistas de diferentes áreas profissionais.

Um dos campeões da rede é Dave Taylor, que nos anos 1980 trabalhou na HP e hoje é consultor de negócios para a web. Com mais de 20 obras publicadas, mantém três blogs, todos técnicos e ligados a negócios. Um deles, o AskDaveTaylor (www.askdavetaylor.com), recebe mais de 1 milhão de visitantes por mês. “Um blog pode ajudar você a estabelecer uma voz e uma identidade em sua área de mercado e dar uma excelente saída em relação a aprender mais sobre o que torna seus clientes confiantes”, diz.

O AuctionBytes (www.auctionbytes.com), comandado por Ina Steiner, não fica atrás. Usado como referência por veículos como o The New York Times e o The Wall Street Journal, o blog é o espaço para comerciantes on-line buscarem informações sobre produtos e suporte para empreendimentos digitais. “Essa é uma ótima maneira de oferecer serviço aos seus clientes, fornecendo conteúdo de interesse deles”, defende.

O blog mais popular do mundo, como um dia o chamou o Technoratti, também está lá. Pilotado por Mark Frauenfelder, ex-editor da revista Wired, o BoingBoing (www.boingboing.net), discorre sobre temas que vão de curiosidades a “tecnologias emergentes”. A correção de erros quase em tempo real é destacada por Frauenfelder. ” (Isso aconteceu) quando postei que havia algo relacionado à Fox News (emissora) e as pessoas me mostraram que era com a NBC. Então, apenas entrei no Ecto e fiz aquela alteração, incluindo uma nota (que dizia): não, não era a Fox, era a NBC.”

A essa altura, você, leitor, deve se perguntar: “E o Brasil? Tem estrelas na blogosfera?” É claro que tem. Mas isso é papo para outro artigo.

O marketing na era do narcisismo

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Caravaggio, Narciso, c. 1597, Palazzo Barberini, Roma

Mais um artigo meu, publicado na Gazeta Mercantil ontem.

Algumas ideias sobre Big Brother, web 2.0, marketing etc.
Se quiser ler no site, clique aqui.

Opinião

03/03 – 01:09
O marketing na era do narcisismo

Clayton Melo

3 de Março de 2009 – Você, leitor, já pensou por que um reality show em que moças turbinadas e rapazes sarados, entre fuxicos e remelexos debaixo dos lençóis, continua a hipnotizar milhões de telespectadores? Já analisou a razão pela qual as campanhas publicitárias usam cidadãos comuns como estrelas (vide Brahma, com um gari que trabalha no sambódromo do Rio de Janeiro) e grandes eventos (como o festival musical Skol Beats, cuja programação foi influenciada pelos internautas) converteram-se em tendência nos projetos de marketing?

Ou então já se perguntou o que levou à explosão extraordinária das comunidades virtuais, como Orkut e Facebook? Por que os blogs, espaços onde qualquer um é o protagonista, são acessados por mais de 11,6 milhões de pessoas por mês no Brasil?

De onde vem esse desejo irrefreável de participação, colaboração e exposição na sociedade contemporânea, fenômeno que a web 2.0 – modo como é definido o estágio atual da internet – deu novos contornos? O livro “A Era do Vazio – ensaios sobre o individualismo contemporâneo” (Editora Manole), do filósofo francês Gilles Lipovetsky, nos dá a chave para a compreensão desse complexo e fragmentado modo de vida.

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FRANCIS Bacon, Série de Auto-Retratos (1971/72)

Mesmo publicado no distante 1983, “A Era do Vazio” nos fornece uma análise atual sobre um processo que só se acentuou de lá para cá. Se hoje vivemos o reinado do indivíduo, as bases para essa realidade foram pavimentadas há algumas décadas, notadamente dos anos 1980 em diante.

O vazio a que se refere o título do livro é a “era pós-moralista, o fim de uma época de valorização do sacrifício e de condenação do prazer”, escreve na apresentação da obra Juremir Machado da Silva, doutor em Sociologia pela Sorbonne, Paris V. Assim, estamos mais soltos, livres e perdidos e menos engessados pelas regras sociais. É o “crepúsculo do dever” e a exaltação do efêmero como atmosfera cultural.
Para Lipovetsky, trata-se de um modo de socialização e de individualização inédito, que rompe com o que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII. É a segunda revolução individualista. “Negativamente, o processo de personalização remete à fratura da socialização disciplinar; positivamente, ele corresponde ao agenciamento de uma sociedade flexível baseada na informação e no estímulo das necessidades, no sexo e na consideração dos ‘fatores humanos’, do culto ao natural, da cordialidade e do humor.”

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E o que a web 2.0 e o Big Brother Brasil, da Rede Globo, têm a ver com isso? É que o diagnóstico feito por Lipovetsky – quando a internet comercial nem existia – constata que chegamos ao “individualismo total”, uma espécie de neonarcisismo. Época em que tudo muda pela comunicação, interação, contato e a livre escolha.

“Assim como a idade moderna foi obcecada pela produção e pela revolução, a idade pós-moderna é obcecada pela informação e pela expressão”, analisa Lipovetsky. “(…) trata-se de uma aspiração de massa cujo último avatar é o extraordinário aumento das rádios livres. Somos todos DJs, apresentadores e animadores: ligue na FM e será envolvido por uma onda de músicas, de mensagens rápidas, de entrevistas, de confidências (…). Democratização sem precedentes da palavra: todo mundo é incitado a ligar para a central telefônica, quer contar algo a partir de sua experiência íntima, ou pode se tornar um locutor e ser ouvido.” O filósofo completa ao dizer que, “quanto mais a gente se expressa, menos há o que dizer”. “Esse paradoxo é reforçado também pelo fato de que ninguém, no fundo, está interessado nessa profusão de expressões, com uma exceção que deve ser levada em conta: o próprio emitente ou criador.” Onde Lipovetsky escreve rádios livres, poderíamos perfeitamente colocar a palavra blogs.

Depois de ler o trecho acima, você pode pensar que o filósofo francês é mais um chato de galocha que está louco para lançar a mídia e a internet, essas criações do Coisa Ruim, no fogo do inferno. Não é nada disso. Embora crítico, Lipovetsky não se coloca nessa posição – muito menos eu. Antes, quer nos mostrar que já não somos os mesmos, pois cultural e moralmente mudamos de pressupostos, observa Juremir Machado da Silva. Talvez assim possamos sintonizar com outros olhos o Big Brother Brasil e então compreender melhor o tempo em que vivemos.

As sogras digitais

Ex-sogra também é cultura – ou cibercultura.

Alguns posts atrás, repliquei no PF um artigo meu “A Dona Vanda não quer sair do Messenger“. A Dona Vanda, mãe de uma ex-namorada, a Elza, me pediu para ensiná-la a usar o Messenger, o que fiz com o maior prazer. Agora, outra agradável surpresa.

A Dona Isabel, mãe da Ana Paula, me inspirou a redigir o artigo abaixo, publicado na Gazeta Mercantil. Dona Isabel é alegria, poesia e Orkut!

02/02 – 00:00
O que os pioneiros da web diriam de Dona Isabel?

Dona Isabel está toda serelepe com suas navegações virtuais. De sua página no Orkut, envia convites para que amigos a adicionem à rede social digital mais famosa do Brasil. Um desses amigos sou eu. Dona Isabel, que conheço há anos pelo fato de ter namorado sua filha, a Ana Paula, é uma maravilhosa senhora portuguesa que vive no Brasil há décadas. Amante da leitura, tem livros de poemas publicados de forma independente. Alguns de seus versos foram parar em sua página no Orkut. “Sou uma eterna sonhadora/ descortino o sol em noites de luar/ vejo o meu castelo de luz ruir e tenho a ilusão de que nunca irá cair/ Sinto na consciência a minha loucura/ Busco cegamente o sonho de ser Eu/ O Eu que se perdeu algures em noite escura”.

Ao aceitar o convite virtual de Dona Isabel, tive mais um sinal de que a transformação nas relações sociais provocadas pela web se alastraram de vez e de que a web há muito não se restringe ao seleto grupo de adolescentes de classe média – sobre isso, basta observar que 50% dos usuários da rede no País pertencem às classes CDE, segundo dados do Ibope/NetRatings.

Mas o episódio também me leva a outras elucubrações. Será que os pioneiros da web tinham a ideia de aonde essa engenhoca poderia chegar? Teria passado pela cabeça deles que, no ano passado, a internet contaria com mais de 1,5 bilhão de usuários no mundo, segundo dados da União Internacional de Telecomunicações? Ou que haveria 346 milhões de leitores de blogs no planeta em março de 2008 (Technorati e comScore)?

É provável que não, principalmente se pensarmos que as pesquisas que originaram a rede surgiram no contexto da Guerra Fria. Em todo caso, a rede carrega desde o seu nascimento um componente que pode, em certa medida, explicar seu poder revolucionário: o sonho dos cientistas de que aquele projeto modificaria a sociedade. “Enraizou-se num sonho científico de transformar o mundo através da comunicação por computador, embora alguns participantes do grupo se satisfizessem em simplesmente promover a boa ciência computacional”, escreve Manuel Castells em “A Galáxia da internet(Jorge Zahar Editor).

Tudo começou quando o Departamento de Defesa dos EUA convocou cientistas para desenvolverem, a partir de 1969, um sistema de comunicação capaz de interligar pontos estratégicos, como bases das Forças Armadas. A ideia foi levada adiante por meio da Advanced Research Projects Agency (Arpa), que destinou uma verba polpuda a uma rede chamada Arpanet. A estreia dessa rede se deu em 1972, com a interligação de quatro computadores instalados em diferentes universidades dos EUA.

Essas pesquisas culminaram, em 1990, na criação daquilo que de fato abriu a rede: a world wide web, o “www”, sistema que permite interligar as informações armazenadas em milhões de computadores. O responsável pelo invento foi o físico inglês Tim Berners-Lee, considerado por isso o “pai” da web.

Nesse mesmo ano, Alexandar Mandic criou o primeiro provedor de internet do Brasil, o Mandic. A “empresa” de Mandic funcionava no apartamento do empresário e permaneceu lá até que, em 1995, os vizinhos começassem a reclamar das 80 linhas telefônicas instaladas num edifício residencial, como relata matéria do site IDG. Outro pioneiro é Demi Getschko. Ele estava na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em janeiro de 1991, quando foi feita a conexão web inaugural do Brasil.

É preciso falar também de Jack London, economista brasileiro precursor do comércio eletrônico com a livraria virtual Booknet, vendida para o GP Investimentos em 1999 e que mais tarde resultou no Submarino. Marcos de Moraes é outro a ser relembrado. Filho de Olacyr de Moraes (o ex-rei da soja), ele criou em 1996 o Zip.net, responsável pelo Zipmail, o primeiro e-mail gratuito do Brasil. Passados cerca de dez anos do período em que a web se tornou de fato um negócio no País, relembrar os pioneiros – outros tantos poderiam ser citados – e histórias do surgimento da internet é um exercício importante para compreendermos o trajeto percorrido até que tivéssemos aventuras virtuais como a de Dona Isabel.

Por pertencer a uma parcela da população cuja presença na web seria improvável há até pouco tempo, ela é uma das faces de um país que, aos poucos, se entrega ao universo digital.

Dona Vanda não quer sair do Messenger

Replico aqui um artigo meu publicado na Gazeta Mercantil desta segunda-feira (1 de dezembro).
Vai junto o tradicional bico de pena do jornal, publicado junto com o texto. É engraçado me ver nesses traços. Clique aqui para ler na íntegra

Blogs / ArticulistasClayton Melo
Gazeta Mercantil
01/12 – 00:00

Dona Vanda não quer sair do Messenger

1 de Dezembro de 2008 – “Você me ensina a usar o Messenger?”, pediu dona Vanda, mãe de uma amiga minha, referindo-se ao sistema de comunicação do portal MSN que permite a troca rápida de mensagens pela internet. “É que minhas amigas começaram a usar. Queria ter também, para poder conversar com elas na rede”, reforçou. Enquanto eu instalava o programa e a orientava, ela escutava atentamente, tirava dúvidas e anotava tudo num caderninho. “É para não esquecer.”

O que me chamou a atenção nesse episódio é que dona Vanda – que tem mais de 50 anos e ficou viúva há cerca de um ano – e suas amigas são donas-de-casa, começaram a navegar na web recentemente e não são sintonizadas com a tecnologia. São apenas pessoas que descobriram uma nova forma de convívio social. Elas não querem mais ficar fora de um mundo ao qual os filhos e, especialmente, os netos tiram de letra. Não se trata de deslumbramento tecnológico, mas sim da busca de afetividade. É sinal de que as relações na sociedade se digitalizam a passos largos.

A essa altura do campeonato, você, leitor, pode se perguntar o que isso tem a ver com o mundo dos negócios. Saiba que a relação é muito mais estreita do que parece.

A história de dona Vanda demonstra que a comunicação na sociedade atravessa um período de profundas mudanças, com reflexos no modo de fazer negócios. A alteração fundamental é que pela primeira vez na história o cidadão comum tem voz ativa no processo. Até o surgimento da web 2.0 – a fase atual da internet, de cunho colaborativo e interativo -, as pessoas se limitavam a coadjuvantes do espetáculo. Agora, com os blogs e as redes sociais digitais – os sites que permitem a interação entre as pessoas, como Orkut, Facebook e MySpace -, todos podem criar e distribuir seu próprio conteúdo na web. Podem louvar e destruir marcas com alguns poucos cliques.

Um estudo comandado pelo pesquisador Marcelo Coutinho, diretor do Ibope Inteligência, ajuda a compreender o processo.

Estudioso de longa data do universo digital, Coutinho quer entender como funcionam as redes sociais digitais e quais as principais características de uma estratégia digital bem-sucedida.

(o texto ainda não acabou; clique aqui para ler o final).

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