O plano-sequência na abertura de O Jogador, de Robert Altman (1992), é marcante: mais de 8 minutos de pequenas histórias que se ligam – sem cortes. Diz muito sobre o fazer cinema. Quem quiser ler mais respeito, o crítico José Carlos Avellar explica.
“A imagem é contínua, a ação que ela narra é absolutamente descontínua.
Um plano só. Dentro dele, tudo é montagem: nenhum corte, mas um sem número de pequenos incidentes, conversas interrompidas, fragmentos de gestos que só aparecem por inteiro quando montados ao lado de outro fragmento.”
Easy Rider (Sem Destino) foi lançado em 14 de julho de 1969, num cinema chamado Beekman, em Nova York. A administração do local nunca tinha visto uma cena parecida por aquelas bandas: espectadores cabeludos e rebeldes sentavam-se na calçada, sem sapatos, e fumavam maconha nos banheiros, diz Peter Biskind no livro “Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood” (Editora Intrínseca).
“Sem Destino deixou a contracultura estatelada com o choque do reconhecimento”, diz Biskind.
Filme contou com Hopper, Fonda e Nicholson
Road movie que conquistou seu espaço na história do cinema, especialmente como um dos que provocaram a derrocada na Velha Hollywood, na transição das décadas de 1960 e 1970, Easy Rider conta a história de dois caras (Dennis Hooper, também diretor do longa, e Peter Fonda, produtor; Jack Nicholson também atua) que cruzam o sul e o sudoeste dos EUA em suas motocicletas.
Talvez tenha sido o primeiro filme a captar as vísceras da contracultura – basta lembrar que Woodstock foi realizado no mesmo ano. A trilha é fantástica, com Steppenwolf e Jimi Hendrix, por exemplo).
Personalidade difícil de Hooper complicou produção
O filme causou barulho em seu lançamento tanto quanto durante sua própria produção. O período de filmagens foi uma tormenta, uma confusão atrás da outra. Depois de maluquices mil de Hopper – um sujeito difícil de lidar -, a equipe começou a debandar no meio das filmagens. Para piorar, Hopper e Fonda tiveram uma briga feia.
Hopper queria trazer à tona a carga emocional da morte da mãe de Fonda, que havia se suicidado, para uma cena em que o parceiro faria uma série de reclamações para uma estátua de Nossa Senhora. Depois de ingerir várias bolinhas e ficar doidão, Hopper falou para Fonda:
- Eu quero que você vá lá se sente no colo dela, essa é a versão italiana da Estátua da Liberdade, bicho, eu quero que você se sente no colo dela e pergunte à sua mãe porque ela abandonou você.
- Hoppy, você não pode fazer isso. Você está se aproveitando da situação – disse, irado, Peter Fonda.
- Ninguém vai saber, bicho. Tem que fazer isso, bicho.
- Todo mundo vai saber, todo mundo sabe o que aconteceu.
A tensão entre ambos chegou a tal ponto que os olhos de Hopper se encheram de lágrimas. Então Fonda subiu na Estátua e, com esforço, falou:
- Você é uma boba, mãe. Eu te odeio tanto.
“Essa foi a primeira vez que vocalizei alguma coisa desse assunto”, disse Fonda posteriormente. “Na verdade, eu também comecei a sucumbir. Estava aos soluços”.
Fonda atuou e produziu o longa
Easy Rider foi um sucesso: com um custo de U$S 501 mil, rendeu US$ 19,1 milhões e colocou Hooper na lista do grandes da contracultura, ao lado de John Lennon e Timothy Leary, relata Suskind, o que aguçou a megalomania do diretor.
“Sem Destino mostrava os rebeldes, os fora de lei e, por extensão, a contracultura como um todo, como vítimas. Estavam sendo exterminados pelo mundo careta, por Lyndon Jonhson, pela maioria silenciosa de Richard Nixon ou seus imitadores”, escreve Suskind.
A cena abaixo retrata bem o clima do filme – fotografia que explora a paisagem, a liberdade da estrada ao ritmo frenético de Born to be Wild.
Que começo de filme, não?
Leio em “Crônicas-Volume 1″, de Bob Dylan (Ed Planeta), ele relembrando que nasceu na Segunda Guerra, época de transformações profundas. “Se você tivesse nascido por volta dessa época ou estivesse vivo e antenado, poderia sentir o velho mundo acabando e o novo começando”.
E o que dizer de hoje, com as mentes alvoroçadas diante da revolução tecnológica, da contínua conexão de tudo e todos, com efeitos diretos em corações e mentes? Novas maneiras de criar, organizar e expressar ideias? Visões de mundo em 140 caracteres ?
Necessidade de reinventar as formas de participação política, cultural e de fazer relacionamentos? Ou tudo passaria apenas de mais uma jornada insana da humanidade, um delírio de início de milênio? Bom, se eu estiver devaneando demais, esqueça tudo. Apenas veja e ouça o velho Bob.(com Joan Baez, melhor ainda).
Para a ótima dupla franco-americana Pomplamoose, conceito de clipe é: você vê o que você ouve.
Repare como o vídeo é feito: os cortes seguem a lógica do som, o que cada instrumento faz e quem está em destaque – se Nataly Dawn, a vocalista, ou Jack Conte, o instrumentista, ou ambos.
E gosto das versões que eles fazem, como é o caso de Mrs Robinson (Simon and Garfunkel, abaixo), ou Beat it. Sem falar no espírito 2.0 (simples, feito em casa, mas com qualidade). Eles bombam noYouTube.