O que fazemos de nossos dias?

Mudei-me recentemente e, por isso, caixas e mais caixas tomam conta do meu apartamento. Elas já deveriam ter sido desfeitas, mas continuam lá. Um dos resultados disso é que não acho meus CDs direito. Mas eis que, revirando uma das caixas, deparo com um CD de poesias de Fernando Pessoa recitado por Paulo Autran.

Um de meus prediletos. Tenho-o há muitos anos. Ele é meu companheiro de muitas jornadas. Passagens tristes, felizes, de descobertas e angústias – um amigo com quem há algum tempo não conversava. Peguei-o, e assim voltei em minha vida. Retornei uns dez anos, e de lá fui votando em direção ao presente.

Relembrei quando morava com meus queridos pais e dormia ao som desse e de outros CDs de poesias. Uma doce nostalgia do futuro tomou conta de mim.

Ouvi novamente um dos poemas mais belos que conheço e que me faz recuperar novamente a suavidade que, desapercebidamente, pode escapar pelos dedos na correria dos dias ( lembro-me sempre de Pessoa na voz do grande ator; perdi a conta das noites em que, regado a vinho, me entreguei à audição e dormi escutando Pessoa ou Drummond).

O poema é “Vem sentar-te comigo, Lídia”, de Ricardo Reis. Houve uma época em que eu o recitava de cor e salteado.

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio/ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa – e não estamos de mãos enlaçadas/ (enlacemos as mãos)”

A vida passa, ele diz, a vida passa…O que fazemos de nossos dias?

O Obama brasileiro gosta, é claro, de churrasquinho

 Já temos o nosso Barack Obama. É Rinaldo Gaudêncio Américo, de 36 anos, motorista da Rádio Globo do Rio de Janeiro.

 Veja mais aqui:

A vitória histórica de Barack Obama

 

Não se trata de achar que o mundo vai virar uma maravilha nem de babar ovo para os americanos. Mas a vitória de Obama é um fato histórico. Alguma coisa acontece no coração da América.

A felicidade, desesperadamente

Este post foi feito ao som de Chet Baker

 

 

“Todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar” (Pascal)

 

Depois de quase uma semana na encantadora Buenos Aires, cá estou de volta à terrinha querida, à marginal do meu coração. Muitas histórias e fotos para postar. Mas, antes disso, umas palavrinhas sobre algo que atualmente me perturba – no melhor sentido do termo, diga-se. Um sentimento que a elegância melancólica da capital portenha pode ter feito aflorar.

 

Estou lendo “A felicidade, desesperadamente”, de André Comte-Sponville. Fruto de uma conferência feita pelo filósofo francês em 1999, o livro é um grande bate-papo sobre o que é a felicidade e por que a perseguimos eternamente (“Todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar”, escreve Sponville, citando Pascal).

 

 

Com leveza e uma narrativa claro e simples, Sponville nos mostra que o fim da filosofia não é formulação de tratados inacessíveis, estéreis, mas sim ser uma amiga que nos auxilia a tornar a vida uma jornada mais prazerosa.

 

Diz Sponville, citando Epicuro, que “a filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona uma vida feliz”.  

“Trata-se de pensar melhor para viver melhor”, reforça Sponville.

 

 

 

 

 

Ele continua:

 

“A felicidade é a meta da filosofia. Ou, mais exatamente, a meta da filosofia é a sabedoria – já que, mais uma vez, uma das idéias mais aceitas em toda a tradição filosófica , especialmente na tradição grega, é que se reconhece a sabedoria pela felicidade, em todo caso por certo tipo de felicidade.(…) Digamos que a sabedoria aponta para uma direção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez”.

 

Conforme Sponville, a norma da filosofia é a verdade, pelo menos a “verdade possível (porque nunca a conhecemos por inteiro, nem absolutamente, nem com total certeza)”. Portanto, “trata-se de pensar não o que me torna feliz, mas o que me parece verdadeiro – e fica a meu encargo tentar encontrar, diante dessa verdade, seja ela triste ou angustiante, o máximo de felicidade possível”.

 

Se não dermos a devida atenção ao fato, o cinza da paisagem cotidiana – reflexo da preocupação com contas, dívidas, problemas e dedicação exacerbada ao trabalho -, é capaz de nos embotar a vista e nos tirar do prumo. A filosofia, assim com a Arte, nos aproxima de nossa essência e nos humaniza.

 

Por isso leituras como a de Sponville são necessárias. E renovadoras.

 

 

 

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