Mudei-me recentemente e, por isso, caixas e mais caixas tomam conta do meu apartamento. Elas já deveriam ter sido desfeitas, mas continuam lá. Um dos resultados disso é que não acho meus CDs direito. Mas eis que, revirando uma das caixas, deparo com um CD de poesias de Fernando Pessoa recitado por Paulo Autran.
Um de meus prediletos. Tenho-o há muitos anos. Ele é meu companheiro de muitas jornadas. Passagens tristes, felizes, de descobertas e angústias – um amigo com quem há algum tempo não conversava. Peguei-o, e assim voltei em minha vida. Retornei uns dez anos, e de lá fui votando em direção ao presente.
Relembrei quando morava com meus queridos pais e dormia ao som desse e de outros CDs de poesias. Uma doce nostalgia do futuro tomou conta de mim.
Ouvi novamente um dos poemas mais belos que conheço e que me faz recuperar novamente a suavidade que, desapercebidamente, pode escapar pelos dedos na correria dos dias ( lembro-me sempre de Pessoa na voz do grande ator; perdi a conta das noites em que, regado a vinho, me entreguei à audição e dormi escutando Pessoa ou Drummond).
O poema é “Vem sentar-te comigo, Lídia”, de Ricardo Reis. Houve uma época em que eu o recitava de cor e salteado.
“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio/ Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos/ Que a vida passa – e não estamos de mãos enlaçadas/ (enlacemos as mãos)”
A vida passa, ele diz, a vida passa…O que fazemos de nossos dias?





