E lá estava Ziggy Stardust, numa câmara escura, conversando com Inácio e Fradique. Pediu para guardarem suas spiders from Mars enquanto procurava Lady Stardust – no balcão, escondida, ela se divertia com o jeito esquisito de ele tocar guitarra, com a mão esquerda. “É um homem especial”, disse ela. À espreita, o prefeito de Bloganvile espiava por Lady Stardust e pensava que Ziggy era mesmo um sujeito de sorte. E vem uma China Girl, e vem um Modern Love – livre, intenso e do tamanho da noite.
Me vi um homem a flutuar pelas estrelas – “Let´s dance, Lady Stardust?”. Gosto assim, quando o passado é futuro e um novo homem se constrói na calada da noite, noite escura, barulhenta em seu silêncio.
Bowie rolando sem parar, eu no meio da pista, rolando sem parar, dançando como se assim não parasse para lembrar, como se assim o riso e o choro fossem uma coisa só.
Mergulho em Space Oddity levando na boca uma vida inteira. A moça ao lado então me pergunta – ou comenta, ou fala qualquer coisa que não me lembro direito, só me lembro de sua voz segura, mulher feita: “O cantor tem o timbre de voz do Bowie, não?” ou “Você gosta mesmo de Bowie, né?” ou ainda “Você canta todas as músicas”. Cabelos curtos, pretos, gestos suaves. “Entra no site da minha editora que você encontra meu e-mail”, ela disse, para logo emendar. “Você é jornalista, né?”. Como sabe? Deve estar escrito na minha testa.
Surge Rebel, Rebel, e eu chamo novamente Major Tom, para tomar uns goles, flutando acima da Lua. O mundo é mesmo azul, e vejo então como as estrelas podem parecer diferentes hoje.