“Passamos à poesia; passamos à vida. A poesia não é alheia – a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante” (Jorge Luis Borges)
“Passamos à poesia; passamos à vida. A poesia não é alheia – a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante” (Jorge Luis Borges)
O beijo: qual a forma, os descaminhos, o fazer e desfazer, o ir e o voltar, o começar e recomeçar, o reviver partindo do zero. O beijo: de novo, agora com um sabor debaixo das lembranças, outro acima dos desejos, novos contornos para uma geografia amorosa, nossa re-construção mútua, nosso mar de desilusões.
Somos beijo. Beijo. Somos.
Furacão flutuante, águas plácidas de uma dor serenada – o tempo escorrega pelos dedos. O beijo: quantas vezes senti esse tremor no peito, essa vontade de esculpir labaredas em teus lábios.
Do meu apê, num final de tarde quase etílico
Da minha janela: São Paulo. São. Somos: não-somos. Não-ser, sendo. Qualquer coisa, tudo e nada. Vira-latas puro sangue.
Sampa vermelha, azul, amarela, preta, ferrugem, verde, verde musgo, tom pastel, prata, bijouteria, aço inox, tropa rosa-choque, ultravioleta. Cinza; em estado puro.
São Paulo é o Borba Gato, o Deixa-que-eu-puxo (aquele, do Ibira), é o Largo Treze, Capão, Cidade Ademar, é o Largo da Batata. É a frescuraiada da Oscar Freire, nossa Beverly Hills, tão cafona e surreal quanto.
- Vai uma balinha aí, tio?
Somos camelôs de almas, de sonhos made in China, Paraguai. Viva os coreanos do Stand Center.
- Pode dar uma olhadinha no carro aí, Dotô?
São somos São Paulo. Descabelados, empinados, enjoados, alegres, rabugentos, porra-loucas, pero no mucho; decadentes avec elegance, certinhos engravatados.
!
Há dias, mas muitos dias mesmo, que venho ensaiando escrever sobre Santiago, documentário (documentário?) dirigido por João Moreira Salles.
Fiquei enrolando, porque o filme é bom demais e travo na hora de escrever. Sabe aquela sensação de que qualquer coisa que se diga sobre ele possa soar rasa demais – tamanha a riqueza e complexidade desse filme – ou ter o gosto de déjà vu, dada a infinidade de críticas positivas?
Mas, ao visitar o bom blog do Josa, que faz curso de cinema comigo no Gafanhoto, me encorajei. Ah, quer saber, vai na lata mesmo e está tudo certo. Deixei o seguinte comentário no Cine-Verdade:
“Josa, Santiago valem mil posts. Por sua ousadia narrativa e beleza plástica; pela metalinguagem muito bem trabalhada; por sua contundência como inventário familiar-pessoal; por sua sinceridade ao expor a voz do filho do patrão mandando o mordomo obedecer ordens. Santiago é simplesmente uma obra-prima. Pronto.”
Bem, agora que me empolguei, senta que lá vem história. Veja só: “Santiago” nos embaralha as convicções sobre o que é documental e o que é ficcional. A voz fala de quem? De Santiago, o mordomo – um espécie de Outro escondido no porão da memória – ou de quem está atrás da lente (João Moreira Salles)? Dos dois? Ou de algum outro que desconhecemos? Dos irmãos Salles? Dos pais? De todos? Do cinema?

Essa câmera, que supostamente está focada no “protagonista” (?!), na verdade não quer mostrar outra coisa? Essa câmera, que ressalta os amplos espaços da mansão dos Moreira Salles e reforça a claustrofobia no minúsculo apartamento de Santiago, não quer colocar em relevo o fosso social entre dois pólos?
Mas não será o social pequeno demais ante o paradoxo existencial e moral de um “personagem” que se dedica à pesquisa alucinada sobre a aristocracia e a nobreza ao longo dos séculos, como faz o reles mordomo Santiago?
O que é um documentário?
O filme nos diz a todo momento: “desconfie do que está vendo, desconfie daquilo que o cinema lhe diz que é verdade”. O que é o real? O real pode ser simplesmente o que está na minha memória – e não o que de fato aconteceu. Será? E quem é que pode dizer de fato o que aconteceu, se tudo passa por uma lente cerebral que responde a estímulos sabe-se lá engendrados pelo quê? Com a poesia do preto e branco, Santiago é de uma beleza que emociona sutil e perenemente, como tudo aquilo a que se pode chamar de Arte.

Cena de Matou a família e foi ao cinema, de Júlio Bressane
Hoje vou ver na Cinemateca Matou a família e foi ao cinema (1969), de Júlio Bressane. Amanhã verei A Mulher de todos (1969), de Rogério Sganzerla, O caso dos irmãos Naves (1967), de Luiz Sérgio Person, e O corpo ardente (1966), de Walter Hugo Khouri. Isso sem falar que no domingo tem Gamal, o delírio do sexo (1969), de João Batista de Andrade. Se tivesse tempo assistiria a mais filmes.
Esses e outros longas estão sendo exibidos na mostra em homenagem a Jairo Ferreira dos Santos, crítico de cinema com atuação destacada nas décadas de 1960 e 1970 e que escreveu muito sobre o Cinema Marginal.
Maravilha o que a Cinemateca vem nos proporcionando.
Programação, endereço e outros detalhes aqui.
Para ler mais sobre o Cinema Marginal:
Liv Ullmann, atriz e diretora de cinema
“Certa vez disse a Ingmar que ele era ‘um gênio’, enquanto que eu era simplesmente ‘um talento’. A reação dele foi uma metáfora musical que nunca esqueci: ‘Você é meu Stradivarius’. Foi o mais belo que alguém me disse.”
Quem diz isso é Liv Ullmann, atriz maravilhosa que estrelou diversos filmes de Ingmar Bergman, com quem foi casada. Transcrevi essa passagem, de uma entrevista, porque ela sintetiza o destaque de Liv no cinema bergmaniano – e vice-versa – e porque também, cá entre nós, ser atriz-fetiche de Bergman não era para qualquer uma. Podemos colocar nesse grupo Harriet Andersson e Bibi Andersson, igualmente marcantes.
E tem outra razão: é porque ultimamente tenho assistido a muitos filmes em que atua, por enquanto todos de Bergman (que novidade!) – e a cada obra fico admirado com sua interpretação. Ela me emociona, é isso.
E tem mais uma razão: enquanto esperava terminar o horário do meu rodízio hoje, fui a um sebo na rua Augusta e lá encontrei Mutações, livro (de memórias? autobiográfico?) escrito por ela e lançado em 1977, já na época uma atriz de fama mundial. Não tive dúvidas: desembolsei os R$ 10 e o trouxe para casa. Já o estou lendo, com muito prazer.
Nascida casualmente em Tóquio, criada na Noruega, perdeu o pai quando tinha seis anos (“ele não me deixou nenhuma lembrança real. Apenas uma grande carência”).
Sobre a mãe, veja que coisa linda escreveu: “E quando, afinal, a porta se abria para nós, crianças, víamos pela primeira vez a árvore de natal,no meio da sala, cheia de velas reluzentes, quase desmaiávamos de alegria.
Mamãe ao piano. Ela, muito mais jovem do que eu imaginava. Com seus anseios que só agora percebo, tarde demais para partilhá-los. Histórias à beira da cama. Chocolate e pão e manteiga com bananas e geléia de maça.
Uma mulher sentada, curvando-se sobre um livro, sua cabeça, com o cabelo castanho, curto, virando-se ligeiramente para o outro lado. Erguendo-se de vez em quando e sorrindo.
Aquilo era a felicidade”
Eu continuo o mesmo
Em minha fortaleza de vidro,
E não mais aquele,
Que chorava pedras
E tecia tempestades.
Eu continuo o mesmo
Em meu deserto de sangue,
E não mais aquele,
Que chovia sem saber
Que o céu era o espelho dos famintos

Começou ontem a mostra sobre Ingmar Bergman na Cinemateca Brasileira, aqui em São Paulo. O primeiro a que vi foi Morangos Silvestres, que nunca havia assistido no cinema – apenas em VHS e DVD (veja mais sobre este filme e sobre Bergman clicando no ícone Cinema, do lado esquerdo da tela). É um dos filmes que mais emocionam e que certamente carregarei com muito carinho por toda a vida. Mais uma vez, saí comovido. Aquela cena final; que primeiro plano sensacional! A alma do velho professor Isak Borg estava ali, em cada ruga, nas olheiras e brandura de uma face cansada.
Um bonito balanço de vida ante a perspectiva da morte, o encontro de si mesmo no momento em que a areia escorre da ampulheta; a reflexão sobre o que foi feito de uma existência, o peso da solidão. Venho falando muito sobre Bergman ultimamente, porque cada vez mais percebo o quanto seus filmes me tocam, me perturbam e me comovem. Sim, tem um significado especial dado meu atual momento de vida. Mas, indo mais além, tem a ver mesmo é com um modo de ver e sentir a vida, sobre o qual reflito bastante nos últimos tempos. Um novo sentido de existência, um novo olhar para dentro. A maratona vai até o dia 9 de setembro. Para ver endereço, programação e outros detalhes, clique aqui.

Ele foi ao encontro dela. Não sabia o que iria encontrar – intuía. Uma nova mulher, refeita, com a elegância da dor sublimada? Quem estaria ali? O que veria quando mergulhasse na mansidão de seus olhos? Das cinzas, os girassóis? Ele tinha dúvidas. O que o movia? O que arrebentava em seu peito? O que era esse grito que ele não escutava? O que o fazia revirar-se em memórias e inscrever-se no diminuto espaço entre a escuridão e a esperança? “Você tem medo de seu silêncio”, ela disse. Então eles se deram um longo beijo e desejaram que aquele momento bastasse.
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