
Acabo de ler na internet que Ingmar Bergman morreu, aos 89 anos. Imediatamente senti um negócio estranho. Não tive aquela simples reação diante da morte do grande artista, mas uma melancolia tão intensa, dessas que nos vão gotejando, até transbordar o coração revolto. Me lembrei na hora de Morangos Silvestres, um dos filmes mais belos e especiais em minha vida. Outros filmes dele também me tocaram profundamente, como O Sétimo Selo, Persona, Sonata de Outono, Fanny e Alexander. Mas algumas obras acabam adquirindo um significado particular, especial, que dificilmente se explica pela razão. Simplesmente nos comovem, e pronto, como Morangos Silvestres.
Assisti a esse longa pela primeira vez há uns 13 ou 14 anos e de lá para cá o revi um punhado de vezes, em momentos diferentes. Na época, me descobria no mundo, prestes a iniciar a minha jornada, abrir as próprias trincheiras. Minhas dúvidas eram em relação ao futuro, meus sonhos, o ímpeto de viver intensamente. Nada mais paradoxal, pois o filme trata de um velho que se volta para o passado, repassando a vida diante da perspectiva da morte. Um homem em contato com os próprios demônios e seu inferno pessoal, revirando os escombros da memória, as dores e as paixões, os sonhos partidos. Disse Bergman certa vez, em entrevista à Reuters: “Os demônios são inumeráveis, aparecem nos momentos mais inconvenientes e criam pânico e terror”.
Na época, os meus começavam a se manifestar, e eu gostava daquilo.
Talvez isso explique porque ver na tela o rosto atormentado daquele velho professor, o protagonista, interpretado pelo cineasta Victor Sjöstrom, tenha sido por demais revelador para os olhos de um garoto perplexo diante da vida.