Estou lendo o ótimo O olho interminável (Cosac & Naify), de Jacques Aumont, um dos principais pensadores de cinema da atualidade e ensaísta da geração de críticos da Cahiers du Cinéma nos anos 60.
Por demais rico e sedutor, o livro trata do encontro entre cinema e pintura, tema que dá pano pra manga e que desejo abordá-lo melhor nos próximos posts. Mas algumas passagens me inquietaram de tal forma que os dedos coçaram e cá estou postando esta mensagem.

Um dos pontos que me mais chamaram a atenção até este momento da leitura diz respeito à mudança no olhar que se deu na passagem do século 19 para o 20, fenômeno que pavimentou o caminho para o surgimento do cinema, em 1985, pelos irmãos Lumière. A estrada de ferro (ou as máquinas móveis associadas a ela), por exemplo, exerceu um papel importante nesse processo. Isso porque o vagão e a locomotiva modelaram o imaginário ao permitirem o deslocamento – surgia ali a figura do viajante imóvel. Veja o que diz Aumont a esse respeito:
– Sentado, passivo, transportado, o passageiro de trem aprende depressa a olhar desfilar um espetáculo enquadrado, a paisagem atravessada.(…) A similitude, no mais das vezes, vai bem longe:trem e cinema transportam o sujeito para a ficção, para o imaginário, para o sonho e também para o espaço onde as inibições são, parcialmente, sanadas. O sujeito do cinema e o sujeito da estrada de ferro – Freud e Benjamin estão de acordo sobre isso – é um “sujeito de massa”, atormentado por um ser-de-espectador anônimo e coletivo.(…) Em suma, é um sujeito neurótico, ou possível de ser neurotizado, ou seja, moderno. E o cinema, reconhecido, fará da locomotiva sua primeira estrela.
Fantástico, não? Forjava-se naquele período o olho móvel, desenvolvendo assim uma nova relação do olhar, desta vez com imagens em movimento – e o que é o cinema senão imagens em movimento?
Aumont reforça sua tese mostrando que o trem substitui o espectador “ecológico”, o andarilho, da pintura de paisagem. E há uma diferença que me parece fundamental entre esse andarilho e o viajante de trem e, em última instância, o espectador do cinema: estes estão imóveis observando uma paisagem em movimento, enquanto o outro está em movimento, ao passo em que a paisagem não.
Há um outro aspecto interessantíssimo para comentar, que são os “panoramas pintados” (ou moving panorama) do final do século 18 e início do 19. Mas deixo isso para outro post.



