Com o tema Fronteiras do Cinema: O Exterior está no Interior, o curso de Ismail Xavier (veja mais no post anterior) que estou fazendo aborda a relação do cinema com as outras artes, como teatro, literatura e artes plásticas. A tradução de uma linguagem para a outra é o tema que perpassa todas as aulas. O que representa essa tradução? Como se faz artisticamente a passagem de uma linguagem para outra? Bem resumidamente, é por aí que o curso segue.
E veja que usei a palavra tradução, e não adaptação, que seria inadequada. Usar o termo “adaptação”, neste caso, seria reducionismo, penso eu. Incompleto, o termo não dá conta da complexidade embutida no diálogo entre diferentes linguagens.
E, ao falar da conversa entre linguagens, obrigatoriamente adentramos o terreno do olhar no cinema, que exerce o papel de mediação nesse processo. Como diz o próprio Ismail Xavier, em O olhar e a cena (Editora Cosac & Naify), “há entre o aparato cinematográfico e o olho natural uma série de elementos e operações comuns que favorecem uma identificação do meu olhar com o da câmera, resultando daí um forte sentimento de presença do mundo emoldurado na tela, simultâneo ao meu saber da ausência (trata-se das imagens, e não das coisas)”.
E continua: “A imagem que recebo compõe um mundo filtrado por um olhar exterior a mim, que me organiza uma aparência das coisas, estabelecendo uma ponte mas também se interpondo entre mim e o mundo”.
Daí que o espectador aceita e valoriza o olhar mediador do cinema porque as imagens que ele oferece têm algo que nos interessa: a câmera invade intimidades, apresenta-nos um mundo ao qual não temos acesso se não por meio de sua mediação. E tem mais: o olhar privilegiado que o cinema garante tem a vantagem de fazer ver o mundo e ainda assim manter o espectador a salvo. “Estamos presentes, sem participar do mundo observado”, escreve Ismail.
De todo esse processo, fica uma certeza: o olhar sem corpo do cinema nos permite ver mais e melhor – ver a nós mesmos em toda nossa fragilidade e magnitude. Para terminar, recorro mais uma vez ao professor Ismail Xavier: “Observando a experiência por esse ângulo, como então não exaltar o cinema?”
