Pelé faz seu último gol em superprodução da web

Post meu publicado originalmente no Nave Digital, meu blog no IDG Now!

Pelé disse que tinha um sonho. O Rei do Futebol queria que seu último gol tivesse sido com a amarelinha, e não com a do New York Cosmos, o clube americano pelo qual encerrou a carreira na década de 1970.


Pelé entrou em campo para curta em sua homenagem

Então uma legião de mais de 600 profissionais, entre diretores de publicidade, técnicos, iluminadores etc etc – e mais de mil figurantes – ficaram dois dias enfurnados no estádio do Morumbi. O objetivo era tornar “realidade” o sonho de Pelé.

Eles estavam lá para filmar “1284”, curta-metragem criado pela Young & Rubicam, com produção da O2 Filmes, para a Vivo. O título é uma referência ao total de gols de Pelé em sua carreira – foram 1283, ou 1284, com o “gol” que o curta proporciona ao Rei do Futebol.


Filme com o Rei quer fisgar internauta pela emoção

Com requintes de superprodução e cerca de sete minutos, o filme tem um detalhe que o torna diferente: você não o verá na TV; ele foi pensado e criado para a internet.

Um novo paradigma de produção?

Trata-se de um fato que merece atenção do mercado, dos profissionais de web e também dos internautas que querem ver na tela do PC ou smartphones produções de qualidade: raríssimas vezes no Brasil, se é que houve alguma (alguém aí lembra de outro exemplo?) um curta-metragem com linguagem cinematográfica, embora servindo a objetivos institucionais de uma marca, foi bancado por uma empresa.

Veja o curta e mais detalhes sobre a produção no meu blog no IDG Now!, o Nave Digital.

Quem matou o carro elétrico?


Documentário aborda o projeto EV1, da GM

Carro elétrico, a hidrogênio, híbrido – carros do futuro, com os olhos voltados para o desenvolvimento sustentável? Há muitas interrogações no ar. Com tantos protótipos na praça – inclusive no Brasil -, parece-me a tecnologia não é o entrave para a comercialização em série, por exemplo, dos carros elétricos (menos poluentes), embora ainda seja necessário resolver problemas, como o da autonomia. O xis da questão é político e econômico, sempre.

Na semana passada, o anúncio do programa brasileiro de estímulo ao carro elétrico foi cancelado de última hora por divergências no próprio governo – há quem tema prejuízos ao flex, bandeira do Brasil no exterior.

Bom, foi diante da curiosidade em torno desse tema que assisti ontem, em DVD, ao documentário “Quem matou o carro elétrico?” (Chris Paine, 2006, EUA). Ele aborda a criação e o fim misterioso do EV1. Projeto de carro elétrico concebido pela GM nos anos 1990, nos EUA, o veículo foi recolhido do mercado americano pela própria montadora.

Se ele era rápido, eficiente e havia conquistado a aceitação por parte dos consumidores, por que o fim abrupto? Segundo o documentário, as montadoras, o setor petrolífero e o governo americano são os responsáveis pelo atestado de óbito do EV1. Vale assistir.

O plano-sequência de O Jogador, de Robert Altman

O plano-sequência na abertura de O Jogador, de Robert Altman (1992), é marcante: mais de 8 minutos de pequenas histórias que se ligam – sem cortes. Diz muito sobre o fazer cinema. Quem quiser ler mais respeito, o crítico José Carlos Avellar explica.

“A imagem é contínua, a ação que ela narra é absolutamente descontínua.
Um plano só. Dentro dele, tudo é montagem: nenhum corte, mas um sem número de pequenos incidentes, conversas interrompidas, fragmentos de gestos que só aparecem por inteiro quando montados ao lado de outro fragmento.”

Veja análise na íntegra no blog dele.

Agora veja o plano-sequência. Vale a pena.

Easy Rider, a contracultura vai ao cinema


Easy Rider ecoou a rebeldia da geração hippie

Easy Rider (Sem Destino) foi lançado em 14 de julho de 1969, num cinema chamado Beekman, em Nova York. A administração do local nunca tinha visto uma cena parecida por aquelas bandas: espectadores cabeludos e rebeldes sentavam-se na calçada, sem sapatos, e fumavam maconha nos banheiros, diz Peter Biskind no livro “Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood” (Editora Intrínseca).

“Sem Destino deixou a contracultura estatelada com o choque do reconhecimento”, diz Biskind.


Filme contou com Hopper, Fonda e Nicholson

Road movie que conquistou seu espaço na história do cinema, especialmente como um dos que provocaram a derrocada na Velha Hollywood, na transição das décadas de 1960 e 1970, Easy Rider conta a história de dois caras (Dennis Hooper, também diretor do longa, e Peter Fonda, produtor; Jack Nicholson também atua) que cruzam o sul e o sudoeste dos EUA em suas motocicletas.

Talvez tenha sido o primeiro filme a captar as vísceras da contracultura – basta lembrar que Woodstock foi realizado no mesmo ano. A trilha é fantástica, com Steppenwolf e Jimi Hendrix, por exemplo).


Personalidade difícil de Hooper complicou produção

O filme causou barulho em seu lançamento tanto quanto durante sua própria produção. O período de filmagens foi uma tormenta, uma confusão atrás da outra. Depois de maluquices mil de Hopper – um sujeito difícil de lidar -, a equipe começou a debandar no meio das filmagens. Para piorar, Hopper e Fonda tiveram uma briga feia.

Hopper queria trazer à tona a carga emocional da morte da mãe de Fonda, que havia se suicidado, para uma cena em que o parceiro faria uma série de reclamações para uma estátua de Nossa Senhora. Depois de ingerir várias bolinhas e ficar doidão, Hopper falou para Fonda:

- Eu quero que você vá lá se sente no colo dela, essa é a versão italiana da Estátua da Liberdade, bicho, eu quero que você se sente no colo dela e pergunte à sua mãe porque ela abandonou você.
- Hoppy, você não pode fazer isso. Você está se aproveitando da situação – disse, irado, Peter Fonda.
- Ninguém vai saber, bicho. Tem que fazer isso, bicho.
- Todo mundo vai saber, todo mundo sabe o que aconteceu.

A tensão entre ambos chegou a tal ponto que os olhos de Hopper se encheram de lágrimas. Então Fonda subiu na Estátua e, com esforço, falou:

- Você é uma boba, mãe. Eu te odeio tanto.

“Essa foi a primeira vez que vocalizei alguma coisa desse assunto”, disse Fonda posteriormente. “Na verdade, eu também comecei a sucumbir. Estava aos soluços”.


Fonda atuou e produziu o longa

Easy Rider foi um sucesso: com um custo de U$S 501 mil, rendeu US$ 19,1 milhões e colocou Hooper na lista do grandes da contracultura, ao lado de John Lennon e Timothy Leary, relata Suskind, o que aguçou a megalomania do diretor.

“Sem Destino mostrava os rebeldes, os fora de lei e, por extensão, a contracultura como um todo, como vítimas. Estavam sendo exterminados pelo mundo careta, por Lyndon Jonhson, pela maioria silenciosa de Richard Nixon ou seus imitadores”, escreve Suskind.

A cena abaixo retrata bem o clima do filme – fotografia que explora a paisagem, a liberdade da estrada ao ritmo frenético de Born to be Wild.
Que começo de filme, não?

Bob Dylan, o Twitter e o futuro

Leio em “Crônicas-Volume 1″, de Bob Dylan (Ed Planeta), ele relembrando que nasceu na Segunda Guerra, época de transformações profundas. “Se você tivesse nascido por volta dessa época ou estivesse vivo e antenado, poderia sentir o velho mundo acabando e o novo começando”.

E o que dizer de hoje, com as mentes alvoroçadas diante da revolução tecnológica, da contínua conexão de tudo e todos, com efeitos diretos em corações e mentes? Novas maneiras de criar, organizar e expressar ideias? Visões de mundo em 140 caracteres ?

Necessidade de reinventar as formas de participação política, cultural e de fazer relacionamentos? Ou tudo passaria apenas de mais uma jornada insana da humanidade, um delírio de início de milênio? Bom, se eu estiver devaneando demais, esqueça tudo. Apenas veja e ouça o velho Bob.(com Joan Baez, melhor ainda).

Para o Pomplamoose, videoclipe é ver o que você ouve

Para a ótima dupla franco-americana Pomplamoose, conceito de clipe é: você vê o que você ouve.

Repare como o vídeo é feito: os cortes seguem a lógica do som, o que cada instrumento faz e quem está em destaque – se Nataly Dawn, a vocalista, ou Jack Conte, o instrumentista, ou ambos.

E gosto das versões que eles fazem, como é o caso de Mrs Robinson (Simon and Garfunkel, abaixo), ou Beat it. Sem falar no espírito 2.0 (simples, feito em casa, mas com qualidade). Eles bombam no YouTube.

(Mrs Robinson, original de Simon and Garfunkel)

Podcast: onde vai parar a pendenga Google x China?

Comentário meu em podcast na rádio CBN (boletim CBN Tecnologia da Informação) sobre a pendenga China X Google.

Clique aqui para ouvir.

Ou aqui para ouvir mais comentários: o segredo da Apple.

Pílulas de cinefilia: A fotografia de O Poderoso Chefão


Fotografia escura realça o mal em Don Corleone

O visual sombrio, escuro mesmo de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, causou estranheza e críticas na época do lançamento do filme, em 1972. Naquele tempo, a estética de Hollywood primava pela ambientação bem iluminada, limpa. “As cenas eram tão iluminadas que dava para ver cada canto de cada banheiro e armário no set”, descreve Gordon Willis, diretor de fotografia da obra-prima dirigida por Coppola.

Mas Willis mandou às favas a convenção e mergulhou na escuridão – uma maneira de realçar o aspecto nebuloso da máfia, personificada na figura de Don Corleone, magnificamente interpretado por Marlon Brando.

Veja o que o diretor de fotografia diz sobre a cena inicial, que, em muitos aspectos, mostra a que veio o filme.

“O desenho da luz veio da justaposição da festa de casamento no jardim, ensolorada e alegre, e a sombra do que se passava naquela casa escura. Usei iluminação vinda de cima porque Don Corleone era a personificação do mal e eu não queria que a plateia pudesse ver os olhos dele, ver o que ele estava pensando, queira mantê-lo nas sombras.”

Mais:

“…quando aquelas imagens escuras começaram a aparecer na tela, aquilo deu um tremendo susto em gente que estava habituada a ver filmes de Doris Day (…)Evans perguntou a Bart: ’será que ainda estou de óculos escuros?’”

Detalhe: a primeira frase do filme é “Eu acredito na América”, uma ironia fina do roteiro, dado o fato de ser dita por um homem que implora ao mafioso a vingança de sua filha. É a chave para o entendimento do que o filme discute: o fracasso do sonho americano de nação ideal.

Vale relembrar a sequência.

Fonte: o ótimo livro “Como a geração sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood”, de Peter Bisking (Editora Intrínseca)

“A Fronteira da Alvorada”, de Philippe Garrel

“A Fronteira da Alvorada”, de Philippe Garrel, entortou um parafuso na minha cabeça.

“Um só pecado”, de François Truffaut

Quem não cometeria um só pecado por Françoise Dorléac?

Quando um poema nos arrebata

Reprodução(TantU de Arte, UFMG)

Adriana Calcanhoto, uma de minhas artistas minhas prediletas há muitos e muitos anos, disse que ficou chapada quando conheceu o poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, poeta que também admiro e leio de tempos em tempos.

E eu digo: ao tomar contato com o texto, fiquei não só chapado, mas completamente absorto, consumido, entregue.

O sentimento foi reforçado porque o conheci a partir da música de Adriana, também de uma beleza arrebatadora.

Isso aconteceu minutos antes de escrever este texto – como, sendo fã e me considerando um bom conhecedor do trabalho de Adriana, nunca tinha ouvido essa versão tão linda?

Embora leia Gullar, não o conheço em profundidade, o que não impede de pensar: como não conhecia um poema magistral como esse?

É isso o que se sente quando a Arte nos toca de modo tão profundo.

O texto – logo abaixo está o vídeo com a música.

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

Folia, marchinhas e Twitter no lançamento do Bloco de Notas no Carnaval 2010


Ala das Princesas alegrou a noite no O do Borogodó

Aguardem: nos próximos dias, a cobertura completa do lançamento do Bloco de Notas, o bloco de carnaval dos profissionais de comunicação de São Paulo, lançado no sábado, no O do Borogodó. Jornalista para contar a história é o que não falta.

Quem estava online acompanhou em tempo real a cobertura pelo Twitter! É a folia 2.0

Bloco Vai Quem Qué e a alegria da festa nas ruas

No sábado de Carnaval, o Bloco Vai Quem Qué saiu pelas ruas de Pinheiros e arrastou uma multidão.

Eu estava lá, como já faço há alguns anos. Ao lado de velhos e novos amigos e de pessoas que nunca vi antes. O que vale é que todos estavam ali para se divertir e fazer uma festa bem brasileira como ela tem de ser: nas ruas.

E assim é a vida. Assim é o Brasil.

Bloco Vai quem Qué agitou a
Madalena no sábado de Carnaval.

Pausa para a pose carnavalesca, com os queridos
amigos da Benedito, antes de seguirmos com o bloco.

Bateria do bloco esquenta os tamborins na praça.

Todas as tribos em torno do samba. Esse garotinho
de azul, de costas, era um dos mais animados.

Bloco partiu da Benedito.

Na Henrique Schaumann com a Arthur de Azevedo.

A comissão de frente.

Resumo da épera: como é bom uma festa tomar
as ruas e a gente fazer disso.

A imprensa vai botar o Bloco de Notas na rua


Atenção, convocatória para jornalistas, assessores de imprensa e simpatizantes:

Nós – um grupo de jornalistas de TI – estamos (a)fundando um bloco de carnaval.

Um bloco da imprensa, porque jornalista pode não saber sambar direito, mas sempre acha um lead para fazer festa.

A (a)fundação do BLOCO DE NOTAS será neste domingo (14/2) no bar Ó do Borogodó, na rua Horácio Lane, 21, na Vila Madalena.

Estaremos lá a partir das 19h!

Por favor, espalhem a convocatória carnavalesca para os amigos das redações, assessorias e simpatizantes.

Mais informações e conspirações, procure o Núcleo Duro do Bloco(!) no Twitter: @clayton_melo, @veronicacouto, @DeLuca, @rsantos e @ brauncafe.
Ou mande um e-mail: cmelo2010@gmail.com

Contatos: cmelo2010@gmail ou Twitter @clayton_melo.

Especial “Os melhores filmes de tecnologia de todos os tempos: parte 1- o post que deu origem à série”


Planeta Proibido, filme de 1957

A arte cinematográfica existe por uma traição bem organizada da realidade, já disse François Truffaut, um dos fundadores da nouvelle vague, movimento criado na França no finalzinho dos anos 1950 e que, seguindo a trilha aberta pelo neo-realismo italiano, revolucionou o cinema.

A frase de Truffaut – cineasta que, exceto por Fahrenheit 451, não tinha o universo tecnológico como matéria-prima – nos ajuda a entender o modo como o cinema retratou a tecnologia ao longo de sua história.

Fantasia de futuro

Melhor dizendo, o cinema deu conta de como o homem pode desenhar sua fantasia de futuro, suas expectativas e projeções diante das máquinas. Ao fazer isso, nos fez rir, pensar, ter medo, achar que podemos ser muito poderosos e – por que não? – também ridículos.

“Até onde podemos chegar e qual o preço a pagar por isso?”, parecem nos dizer os filmes dessa lavra.

Ou “será que as máquinas vão nos vencer?”, como nos faz pensar Limite de Segurança (Sidney Lumet), enquanto War Games (John Badham) diz “cuidado, vocês podem perder o controle desse jogo, e aí bum! – vai tudo pelos ares”.

Veja a matéria completa no Nave Digital, blog que mantenho no IDG Now!

E aguardem, porque logo vem mais cinefilia tecnológica.

Podcast na CBN com este blogueiro sobre Apple e iPad

Comentários deste missivista 2.0 na rádio CBN sobre como funciona a estratégia de rumores para a promoção de produtos da Apple. E o papel de Steve Jobs em tudo isso.

Acesse por aqui: CBN – A rádio que toca notícia – CBN Tecnologia da Informação.

8 cenas inesquecíveis do cinema


“Beijos Probidos” homenageia a Cinemateca Francesa

A Folha de S.Paulo publicou neste domingo (24/1/2010), no Mais, uma matéria bacana sobre as grandes cenas do cinema, na opinião de cineastas e especialistas.

Resolvi entrar na brincadeira. Segue uma listinha bem pessoal, mas bem pessoal mesmo e sem pretensão alguma. Listo apenas algumas daquelas que me marcaram pela beleza, história ou porque me tocaram de alguma maneira.

Várias das citadas na matéria são belíssimas e estão no panteão do cinema. Procurei buscar, no entanto, outros filmes – com exceção de Beijos Proibidos, embora as cenas não sejam as mesmas.

É difícil fazer uma lista com essa, mesmo que seja por pura diversão. Há várias passagens que gostaria ter colocado. Mas isso pode ser assunto para outro post.

Lá vai.

1.Beijos Proibidos – François Truffaut (1968)

Começo por esta por se tratar de uma homenagem ao cinema.

Filme da saga de Antoine Doinel, ele começa com uma passagem que não tem nada a ver com a trama – está ali para fazer uma homenagem à Cinemateca Francesa e em defesa de Henry Langlois, figura fundamental para a criação da cinemateca e que havia sido destituído do cargo por André Malraux, então ministro da Cultura francês.

A medida revoltou cinéfilos e cineastas e foi um dos episódios que culminaram em Maio de 68. Esse episódio foi retratado, em 2003, em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci.

2.Acossado – Jean-Luc Godard (1959)

Um dos filmes capitais para aquilo que depois recebeu o nome de nouvelle vague, O Acossado é revolucionário na forma e na abordagem, embora pareça um filme leve e despretensioso. É um dos meus preferidos, tenho uma ligação afetiva muito grande com ele.

Não me esqueço jamais de Jean Seberg vendendo jornal (“New York Herald Tribuuune”), enquanto é xavecada por Belmondo.

3.Os Cafajestes – Ruy Guerra (1962)

A cena da praia é antológica. Norma Benguel, nua e aflita, é rodeada pelo carro em que estão dois fanfarrões, Daniel Filho e Jece Valadão.

Trecho ficou famoso como o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Pena não ter achado a cena inteira no YouTube.


4.Blow up – Michelangelo Antonioni (1968)

Neste filme, Antonioni discute algo caro ao cinema moderno, do qual ele é um dos expoentes: o que é real e o que ilusão? O cinema dá conta do real? O que os olhos veem é mesmo real? É o que se vê (?) na cena do imaginário jogo de tênis que os clows travam, sob os olhos de Thomas (David Hemmings), que entra na onda e vai buscar uma “bola” lançada para fora da quadra.

5.Eles não usam black tie – Leon Hirszman (1981)

Uma das belas passagens do cinema nacional está neste filme: a sequência em que o casal interpretado por Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri separam o feijão. O contexto: a dura vida nos tempos da repressão. Se quiser ir direto ao ponto, avance até o 3º minuto.

6.Os Incompreendidos – François Truffaut (1959)

Este filme também é um dos favoritos. A cena em que Antoine Doinel foge – seria mesmo fugir ou ir me busca de? – rumo ao mar é dos grandes momentos na história do cinema.

7.Deus e o Diabo na Terra do Sol – Glauber Rocha (1964)

Depois que Antonio das Mortes mata Corisco, o sertanejo Manoel (Geraldo Del Rey) sai em disparada em meio à aridez do sertão. Clara referência ao final de Os Incompreendidos.

Vale lembrar o mito que “o sertão vai virar mar” está presente”.

8.Eu te amo – Arnaldo Jabor (1981)

Sonia Braga e Paulo César Peréio estão fantásticos. Ironia, sacanagem e diálogos meio loucos, neuróticos. A atmosfera é meio cafona, decadente, com um bolerão de fundo.
Um exemplo:

Sônia Braga – Estou querendo um pouco mais de…
Peréio – …palpabilidade.
S.Braga – O quê?
Peréio – Pal-pa-bi-li-da-de. Coisa mais concretas, mais reais.
S.Braga- É, é isso aí. Pegar um pão, passar manteiga no pão e pensar assim: ´Eu estou comendo pão.’

“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?”

Reprodução web

Carta relembra feridas de um tempo sangrento

Daniel A. Rubio é meu amigo de fé, meu irmão camarada. “Cabra bom”, para usar uma frase típica de outro amigo querido, o jornalista Costábile Nicoletta.

Daniel é um documentarista chileno dos bons que mora no Brasil há cerca de uma década – e com quem começo a aprender essa arte, que aproxima duas de minhas paixões, o jornalismo e o cinema (já fizemos até um primeiro vídeo em conjunto, por puro prazer e diversão).

Ele escreveu um texto tocante sobre seu país depois do resultado das eleições presidenciais, no domingo passado.

A carta – é a carta aberta a um amigo em comum, o chapa Edson Lima, produtor cultural, responsável projeto O Autor na Praça –nasceu depois que o Edson lhe enviou uma matéria de um portal cuja manchete era: “Direita volta ao poder no Chile”.

E então Edson, no mesmo e-mail, perguntou:“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?

A carta traz reminiscências de um tempo sangrento. É como um filme que, embora de horror, também seja feito com cenas de amor e solidariedade.

É um pouco longo, mas vale a pena.

CARTA ABERTA A EDSON LIMA

“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?”

Daniel A Rubio

Na segunda-feira, dia 18 de janeiro de 2010, recebi um e-mail de meu amigo Edson Lima. Ele me questionava. “Daniel, o que aconteceu no Chile?”, e me copiava os resultados da eleição para presidente no meu país. “Direita volta ao poder no Chile”, dizia manchete da matéria que me enviou.

“Daniel, o que aconteceu?”

Como explicar para Edson? Pensei até em criar uma história ou inventar uma desculpa, mas ele não acreditaria em qualquer coisa.

Edson é um apaixonado por política. Gestor cultural na área de literatura em São Paulo, é completamente dedicado à paixão aos livros e à cultura. Eu precisava explicar de alguma forma. Foi assim que uma série de imagens me veio à mente.

Embora não viva no Chile há muitos anos, minha mente foi longe.

Reprodução web

Empresas escondiam produtos para sabotar Allende

Lembrei-me de, quando ainda uma criança de doze anos, pegava filas para comprar óleo, açúcar ou arroz para minha família. Claro que não se conseguia comprar tudo no mercado negro, por causa do embargo comercial e da falta de mercadorias – a direita havia retirado os produtos das prateleiras como forma de pressionar Salvador Allende, o primeiro governo socialista eleito (1970) por voto direito e democrático na América Latina.

Segundo a direita – e os EUA -, essa pressão tinha o objetivo de extirpar do continente uma corrente perigosa de esquerda que crescia por aqueles anos.

Depois me lembrei dos aviões, rasantes, que retomavam altitude de voo depois de lançarem bombas sobre o La Moneda, o palácio de governo, naquele fatídico 11 se setembro de 1973. Gente pulava e buzinava nas ruas. E também muita gente triste. Era o começo da ditadura de Augusto Pinochet.

Já de início os direitos civis foram terrivelmente esmagados. As organizações de bases foram reprimidas e praticamente exterminadas. Não havia permissão para reuniões de grupos. Os movimentos comunitários, clubes esportivos ou um simples centro de mães: nada podia se organizar.

Reprodução web

Bombardeio ao La Moneda matou Allende

Num país historicamente católico, extremadamente conservador e socialmente homogêneo, isso tornava a população ainda mais dependente de um poder central. As informações eram filtradas antes de chegarem ao povo, enquanto as decisões da ditadura eram disseminadas como a voz oficial, de modo a nos convencer de que um novo Chile, livre do perigo do comunismo, estava em construção.

E eis que, num passo de mágica, as coisas começaram a funcionar. Poucas semanas depois do golpe as prateleiras dos supermercados estavam novamente repletas de produtos… Tudo parecia voltar ao normal depois do “caos”.

Bom, parecia normal para a massa, mas não para os muitos que eram perseguidos, exilados, torturados ou desaparecidos.

Começava a construção de um “novo” Chile. Em meados dos anos 1970, instaurou-se o regime econômico neoliberal, inspirado em estudos de livre mercado de um grupo de economistas de Chicago (os “Chicago´s boys”). O livre mercado tomava conta do Chile.

Pela primeira vez na minha vida, vejam que ironia, podia sonhar com uma calça jeans da Levis, comprada numa loja de um bairro nobre de Santiago! Antes, isso só era possível se o algum amigo viajasse ao exterior e contrabandeasse os preciosos jeans da Levis.

E esse admirável mundo do consumo se estendeu a vários produtos: óculos, tênis, sapatos, jaquetas de estilo. O curso da moda para os jovens era a publicidade. Muitos se viram influenciados pelo glamour e a criatividade do apaixonante mundo da propaganda. Um desses jovens fui eu.

Reprodução web

País ficou cindido e gerou manifestações populares

Na minha época de estudante, percebi como a criatividade pode ser uma ferramenta bela e também poderosa. Se por um lado me apaixonei pela precisão da metodologia de aplicação do processo criativo na publicidade, de outro fiquei completamente aterrorizado pelo poder da propaganda e o uso que o mercado fazia dessa ferramenta.

O questionamento ético de sua aplicação inexistia.

E isso me provocava repulsa. O fim era manipular as emoções com um único fim: “vender”. Mas vender o quê? Qualquer coisa, bastava vender.

Executavam-se estratégias para despertar as mais íntimas emoções e desejos, e as emoções eram substituídas por produtos, coisas que as pessoas compravam, compravam… Compravam como se comprassem a felicidade. Compravam emoções.

Os produtos conquistavam corações e mentes, partindo da classe A, que despertava o desejo da classe B, depois da classe C, da D, E. As estratégias de marketing eram planificadas dessa forma. Com perfeição milimétrica.

Reprodução web

Consumo crescia, e tanques tomavam as ruas

Como podia uma pessoa agüentar tudo aquilo? As comunidades estavam destruídas, logo elas que, para mim, sempre foram o berço dos valores humanos mais nobres, como a solidariedade. Elas eram o caminho para se trabalhar juntos, aprender juntos, desenvolver a consciência do bem comum. Nada disso existia mais.

Assim se passaram 17 anos da ditadura que implantou o neoliberalismo no Chile, até chegarmos a 1989.

Depois de uma nova constituição no país, a transição para a democracia se iniciava. Mas essa transição foi feita a partir das normas da ditadura. Nesse tempo, tudo, ou boa parte no Chile, estava nas mãos do capital privado. Os primeiros ares da globalização que sopravam mundo afora tinham tomado conta do Chile, onde a política e a economia continuavam atadas.

Esse era o contexto quando um novo governo foi escolhido por votação popular depois dos anos de chumbo.

Tratava-se de um governo de coalizão dos partidos de centro e esquerda, grupo representado por Patricio Alwin. Dali por diante sucederam-se 20 anos de diferentes gestões da chamada “Concertación!”, que tentava desatar o país e acabar com a herança da ditadura por meio de políticas sociais.

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Patricio Alwin, o presidente da redemocratização

Percebia-se a tentativa de ficar um pouco longe do mercado, mas o mercado tinha tomado conta do Chile. Também nesses 20 anos – os mesmos anos em que a globalização do capital tomou conta do mundo – a “Concertación” não conseguiu sair disso.

Bom, depois dessas reminiscências todas, volto ao meu amigo Edson: “O que aconteceu no Chile domingo passado?”

Edson, você me fez pensar em parte da minha história, em lembranças quase fotográficas me levam a dizer que tudo o que escrevi aqui não tem fundamento histórico algum: é apenas uma reflexão provocada pela sua pergunta e feita a partir dessas “fotografias” que tirei da memória.

“Daniel, o que aconteceu no Chile?”

A verdade, meu amigo, é que não sei…

Tenho mais perguntas que respostas. A “Concertación”, com problemas de gestão, não teria conseguido superar suas próprias diferenças?

Reprodução web

Michelle Bachelet não conseguiu eleger sucessor

A coalizão de centro-direita ganhou com 52% dos votos! Coalizão de centro-direita? Não existe direita? Não existe mais esquerda? O que fez 52% dos eleitores optarem por um Berlusconi latino americano? Será que a exposição por 37 anos ao espírito do “mercado” criou grande classe média arrivista, que se quer nos braços da direita?

Quais os valores que uma sociedade em busca do desenvolvimento tem hoje? E que conceito de desenvolvimento pode ter uma sociedade exposta brutalmente ao capitalismo durante os últimos 37 anos, sem que se refletisse sobre esse processo? Eu sou o que compro e tenho? Sou feliz com o que compro e tenho? Não existe direita nem esquerda, todos são progressistas? O que posso responder?

Sei apenas que hoje a direita no Chile, que se autodenomina “centro-direita”, conquistou o poder.

Esta mesma centro-direita que procura se desvincular da era Pinochet sempre teve – e continua a ter – o poder econômico no Chile. Depois da eleição do domingo passado, voltou a ter também o poder político. Coisa muito perigosa…

Sim, Edson, temos que seguir lutando. Mas lutar como, contra quem ou o quê se não existe mais direita ou esquerda e todos são progressistas?

Dias atrás um outro amigo me deixou uma mensagem no Facebook. Ele dizia: “Daniel, estou preparando o meu ‘pasa-montaña’’.

“Pasa-montaña” é um boné que servia para cobrir o rosto dos jovens que faziam barricadas nos bairros populares de Santiago.

Barricadas? Será tempo de barricadas? Será que estou ficando velho? Será que temos que reinventar as formas de luta? Como incentivar os valores humanos em mentes mutiladas pelo mercado?

Perguntas, perguntas…

Mas é bom pensar, né?

“Abrazo”

“Uma Mulher tão bela como eu” (Truffaut, 1972)


Cartaz de “Uma mulher tão bela como eu”

Camille Bliss é o pior tipo de sedutora pela qual um homem pode se derreter. Que o diga o pobre sociólogo Stanislas Previne (André Dussollier) que, a despeito de entrevistas para seu doutorado sobre mulheres criminosas, trava longas conversas com essa irresistível criatura que está atrás das grades acusada de matar o amante.

Camille Bliss é Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague.

Veja nesta cena como Camille sabia provocar os marmanjos

Poderosa e desbocada, Camille comanda o jogo do amor e faz gato e sapato do coitado da vez.

É capaz de enfeitiçar pelas curvas e pelo olhar penetrante – ceder aos seus encantos é como entornar o veneno sem sentir o gosto de fel.

- Não se divorciou? – perguntou Stanislas.
- Não se pode divorciar-se de um asno com 27 fraturas. Não seria elegante – respondeu, sobre seu marido, que estava todo quebrado no hospital.


De tanto entrevistá-la, Stanislas se complicou

Ela quer esmagar o macho, humilhá-lo, deixá-lo prostrado à mercê de seus caprichos. Quer fazê-lo babar, fazer juras de amor e, por fim, deixá-lo de mãos abanando. Vai ao limite do seu poder de sedução. Por quê?

- A princípio, sua relação com Golden era puramente profissional. Quando foi que se interessou por ele?
- Esse é o problema de ir para a cama com alguém e depois falar de negócios.


No começo ela é doce, depois…

Seria Camille Bliss, a anti-dama, a estonteante desbocada de “Uma Mulher tão bela como eu”, de François Truffaut, uma criatura sem coração? Uma fêmea movida pelo ódio?

- É uma ninfomaníaca que vai com todos! – indigna-se a digitadora lourinha que transcreve as entrevistas e é apaixonada Stanislas.

Claro que não. Ou é?

Camille seria tão somente uma mulher que desenvolveu uma forma peculiar de reagir às cruezas da vida?

Elucubrações à parte, lembremo-nos de que, num filme de Truffaut, nunca se verá alguém guiado por um sentimento que não seja o amor - ou pela emergência de reparar a dor de um dia ter sentido o vento gelado do desamparo

Já estou com saudades de Eric Rohmer…

O Joelho de Claire, filme de 1970

Ícone da nouvelle vague ao lado de Truffaut, Godard e Claude Chabrol, Eric Rohmer - morto no dia 11 de janeiro de 2010, aos 89 anos – era o cineasta das palavras, dos encontros e desencontros.

O cineasta de personagens que vagam por ruas, praias e campos em busca de alguma coisa – a solução para uma angústia, um desejo, uma tristeza contida -  que nem mesmo eles sabiam direito o que era. Personagens assim como nós.

Separei um trecho de um de seus filmes de que mais gosto, Amor à Tarde, de 1972. Na história, um homem – Frédéric,  interpretado por Bernard Verley-  que tem uma vida pacata de casado ( e, até prova em contrário, feliz)  vive em devaneios eróticos vespertinos com as mulheres que vê na rua.

Chloé é a tentação em pessoa na vida de Frédéric

As fantasias não ultrapassam as fronteiras morais até que aparece no escritório do qual é sócio a tentação: a provocante Chloé – a belíssima e forte atriz Zouzou -, ex-amante de um amigo que está disposta lhe tirar atiçar os hormônios.

Moral, recato e erotismo se misturam num filme delicado e construído a partir do olhar masculino.

Reparem na câmera livre pelas ruas de Paris, no fato de os personagens estarem quase sempre em movimento e na cidade que salta pelas lentes, viva, intensa – traços da nouvelle vague que Rohmer tingiu com cores próprias em seu cinema.