Especial “Os melhores filmes de tecnologia de todos os tempos: parte 1- o post que deu origem à série”


Planeta Proibido, filme de 1957

A arte cinematográfica existe por uma traição bem organizada da realidade, já disse François Truffaut, um dos fundadores da nouvelle vague, movimento criado na França no finalzinho dos anos 1950 e que, seguindo a trilha aberta pelo neo-realismo italiano, revolucionou o cinema.

A frase de Truffaut – cineasta que, exceto por Fahrenheit 451, não tinha o universo tecnológico como matéria-prima – nos ajuda a entender o modo como o cinema retratou a tecnologia ao longo de sua história.

Fantasia de futuro

Melhor dizendo, o cinema deu conta de como o homem pode desenhar sua fantasia de futuro, suas expectativas e projeções diante das máquinas. Ao fazer isso, nos fez rir, pensar, ter medo, achar que podemos ser muito poderosos e – por que não? – também ridículos.

“Até onde podemos chegar e qual o preço a pagar por isso?”, parecem nos dizer os filmes dessa lavra.

Ou “será que as máquinas vão nos vencer?”, como nos faz pensar Limite de Segurança (Sidney Lumet), enquanto War Games (John Badham) diz “cuidado, vocês podem perder o controle desse jogo, e aí bum! – vai tudo pelos ares”.

Veja a matéria completa no Nave Digital, blog que mantenho no IDG Now!

E aguardem, porque logo vem mais cinefilia tecnológica.

Podcast na CBN com este blogueiro sobre Apple e iPad

Comentários deste missivista 2.0 na rádio CBN sobre como funciona a estratégia de rumores para a promoção de produtos da Apple. E o papel de Steve Jobs em tudo isso.

Acesse por aqui: CBN – A rádio que toca notícia – CBN Tecnologia da Informação.

8 cenas inesquecíveis do cinema


“Beijos Probidos” homenageia a Cinemateca Francesa

A Folha de S.Paulo publicou neste domingo (24/1/2010), no Mais, uma matéria bacana sobre as grandes cenas do cinema, na opinião de cineastas e especialistas.

Resolvi entrar na brincadeira. Segue uma listinha bem pessoal, mas bem pessoal mesmo e sem pretensão alguma. Listo apenas algumas daquelas que me marcaram pela beleza, história ou porque me tocaram de alguma maneira.

Várias das citadas na matéria são belíssimas e estão no panteão do cinema. Procurei buscar, no entanto, outros filmes – com exceção de Beijos Proibidos, embora as cenas não sejam as mesmas.

É difícil fazer uma lista com essa, mesmo que seja por pura diversão. Há várias passagens que gostaria ter colocado. Mas isso pode ser assunto para outro post.

Lá vai.

1.Beijos Proibidos – François Truffaut (1968)

Começo por esta por se tratar de uma homenagem ao cinema.

Filme da saga de Antoine Doinel, ele começa com uma passagem que não tem nada a ver com a trama – está ali para fazer uma homenagem à Cinemateca Francesa e em defesa de Henry Langlois, figura fundamental para a criação da cinemateca e que havia sido destituído do cargo por André Malraux, então ministro da Cultura francês.

A medida revoltou cinéfilos e cineastas e foi um dos episódios que culminaram em Maio de 68. Esse episódio foi retratado, em 2003, em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci.

2.Acossado – Jean-Luc Godard (1959)

Um dos filmes capitais para aquilo que depois recebeu o nome de nouvelle vague, O Acossado é revolucionário na forma e na abordagem, embora pareça um filme leve e despretensioso. É um dos meus preferidos, tenho uma ligação afetiva muito grande com ele.

Não me esqueço jamais de Jean Seberg vendendo jornal (“New York Herald Tribuuune”), enquanto é xavecada por Belmondo.

3.Os Cafajestes – Ruy Guerra (1962)

A cena da praia é antológica. Norma Benguel, nua e aflita, é rodeada pelo carro em que estão dois fanfarrões, Daniel Filho e Jece Valadão.

Trecho ficou famoso como o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Pena não ter achado a cena inteira no YouTube.


4.Blow up – Michelangelo Antonioni (1968)

Neste filme, Antonioni discute algo caro ao cinema moderno, do qual ele é um dos expoentes: o que é real e o que ilusão? O cinema dá conta do real? O que os olhos veem é mesmo real? É o que se vê (?) na cena do imaginário jogo de tênis que os clows travam, sob os olhos de Thomas (David Hemmings), que entra na onda e vai buscar uma “bola” lançada para fora da quadra.

5.Eles não usam black tie – Leon Hirszman (1981)

Uma das belas passagens do cinema nacional está neste filme: a sequência em que o casal interpretado por Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri separam o feijão. O contexto: a dura vida nos tempos da repressão. Se quiser ir direto ao ponto, avance até o 3º minuto.

6.Os Incompreendidos – François Truffaut (1959)

Este filme também é um dos favoritos. A cena em que Antoine Doinel foge – seria mesmo fugir ou ir me busca de? – rumo ao mar é dos grandes momentos na história do cinema.

7.Deus e o Diabo na Terra do Sol – Glauber Rocha (1964)

Depois que Antonio das Mortes mata Corisco, o sertanejo Manoel (Geraldo Del Rey) sai em disparada em meio à aridez do sertão. Clara referência ao final de Os Incompreendidos.

Vale lembrar o mito que “o sertão vai virar mar” está presente”.

8.Eu te amo – Arnaldo Jabor (1981)

Sonia Braga e Paulo César Peréio estão fantásticos. Ironia, sacanagem e diálogos meio loucos, neuróticos. A atmosfera é meio cafona, decadente, com um bolerão de fundo.
Um exemplo:

Sônia Braga – Estou querendo um pouco mais de…
Peréio – …palpabilidade.
S.Braga – O quê?
Peréio – Pal-pa-bi-li-da-de. Coisa mais concretas, mais reais.
S.Braga- É, é isso aí. Pegar um pão, passar manteiga no pão e pensar assim: ´Eu estou comendo pão.’

“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?”

Reprodução web

Carta relembra feridas de um tempo sangrento

Daniel A. Rubio é meu amigo de fé, meu irmão camarada. “Cabra bom”, para usar uma frase típica de outro amigo querido, o jornalista Costábile Nicoletta.

Daniel é um documentarista chileno dos bons que mora no Brasil há cerca de uma década – e com quem começo a aprender essa arte, que aproxima duas de minhas paixões, o jornalismo e o cinema (já fizemos até um primeiro vídeo em conjunto, por puro prazer e diversão).

Ele escreveu um texto tocante sobre seu país depois do resultado das eleições presidenciais, no domingo passado.

A carta – é a carta aberta a um amigo em comum, o chapa Edson Lima, produtor cultural, responsável projeto O Autor na Praça –nasceu depois que o Edson lhe enviou uma matéria de um portal cuja manchete era: “Direita volta ao poder no Chile”.

E então Edson, no mesmo e-mail, perguntou:“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?

A carta traz reminiscências de um tempo sangrento. É como um filme que, embora de horror, também seja feito com cenas de amor e solidariedade.

É um pouco longo, mas vale a pena.

CARTA ABERTA A EDSON LIMA

“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?”

Daniel A Rubio

Na segunda-feira, dia 18 de janeiro de 2010, recebi um e-mail de meu amigo Edson Lima. Ele me questionava. “Daniel, o que aconteceu no Chile?”, e me copiava os resultados da eleição para presidente no meu país. “Direita volta ao poder no Chile”, dizia manchete da matéria que me enviou.

“Daniel, o que aconteceu?”

Como explicar para Edson? Pensei até em criar uma história ou inventar uma desculpa, mas ele não acreditaria em qualquer coisa.

Edson é um apaixonado por política. Gestor cultural na área de literatura em São Paulo, é completamente dedicado à paixão aos livros e à cultura. Eu precisava explicar de alguma forma. Foi assim que uma série de imagens me veio à mente.

Embora não viva no Chile há muitos anos, minha mente foi longe.

Reprodução web

Empresas escondiam produtos para sabotar Allende

Lembrei-me de, quando ainda uma criança de doze anos, pegava filas para comprar óleo, açúcar ou arroz para minha família. Claro que não se conseguia comprar tudo no mercado negro, por causa do embargo comercial e da falta de mercadorias – a direita havia retirado os produtos das prateleiras como forma de pressionar Salvador Allende, o primeiro governo socialista eleito (1970) por voto direito e democrático na América Latina.

Segundo a direita – e os EUA -, essa pressão tinha o objetivo de extirpar do continente uma corrente perigosa de esquerda que crescia por aqueles anos.

Depois me lembrei dos aviões, rasantes, que retomavam altitude de voo depois de lançarem bombas sobre o La Moneda, o palácio de governo, naquele fatídico 11 se setembro de 1973. Gente pulava e buzinava nas ruas. E também muita gente triste. Era o começo da ditadura de Augusto Pinochet.

Já de início os direitos civis foram terrivelmente esmagados. As organizações de bases foram reprimidas e praticamente exterminadas. Não havia permissão para reuniões de grupos. Os movimentos comunitários, clubes esportivos ou um simples centro de mães: nada podia se organizar.

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Bombardeio ao La Moneda matou Allende

Num país historicamente católico, extremadamente conservador e socialmente homogêneo, isso tornava a população ainda mais dependente de um poder central. As informações eram filtradas antes de chegarem ao povo, enquanto as decisões da ditadura eram disseminadas como a voz oficial, de modo a nos convencer de que um novo Chile, livre do perigo do comunismo, estava em construção.

E eis que, num passo de mágica, as coisas começaram a funcionar. Poucas semanas depois do golpe as prateleiras dos supermercados estavam novamente repletas de produtos… Tudo parecia voltar ao normal depois do “caos”.

Bom, parecia normal para a massa, mas não para os muitos que eram perseguidos, exilados, torturados ou desaparecidos.

Começava a construção de um “novo” Chile. Em meados dos anos 1970, instaurou-se o regime econômico neoliberal, inspirado em estudos de livre mercado de um grupo de economistas de Chicago (os “Chicago´s boys”). O livre mercado tomava conta do Chile.

Pela primeira vez na minha vida, vejam que ironia, podia sonhar com uma calça jeans da Levis, comprada numa loja de um bairro nobre de Santiago! Antes, isso só era possível se o algum amigo viajasse ao exterior e contrabandeasse os preciosos jeans da Levis.

E esse admirável mundo do consumo se estendeu a vários produtos: óculos, tênis, sapatos, jaquetas de estilo. O curso da moda para os jovens era a publicidade. Muitos se viram influenciados pelo glamour e a criatividade do apaixonante mundo da propaganda. Um desses jovens fui eu.

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País ficou cindido e gerou manifestações populares

Na minha época de estudante, percebi como a criatividade pode ser uma ferramenta bela e também poderosa. Se por um lado me apaixonei pela precisão da metodologia de aplicação do processo criativo na publicidade, de outro fiquei completamente aterrorizado pelo poder da propaganda e o uso que o mercado fazia dessa ferramenta.

O questionamento ético de sua aplicação inexistia.

E isso me provocava repulsa. O fim era manipular as emoções com um único fim: “vender”. Mas vender o quê? Qualquer coisa, bastava vender.

Executavam-se estratégias para despertar as mais íntimas emoções e desejos, e as emoções eram substituídas por produtos, coisas que as pessoas compravam, compravam… Compravam como se comprassem a felicidade. Compravam emoções.

Os produtos conquistavam corações e mentes, partindo da classe A, que despertava o desejo da classe B, depois da classe C, da D, E. As estratégias de marketing eram planificadas dessa forma. Com perfeição milimétrica.

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Consumo crescia, e tanques tomavam as ruas

Como podia uma pessoa agüentar tudo aquilo? As comunidades estavam destruídas, logo elas que, para mim, sempre foram o berço dos valores humanos mais nobres, como a solidariedade. Elas eram o caminho para se trabalhar juntos, aprender juntos, desenvolver a consciência do bem comum. Nada disso existia mais.

Assim se passaram 17 anos da ditadura que implantou o neoliberalismo no Chile, até chegarmos a 1989.

Depois de uma nova constituição no país, a transição para a democracia se iniciava. Mas essa transição foi feita a partir das normas da ditadura. Nesse tempo, tudo, ou boa parte no Chile, estava nas mãos do capital privado. Os primeiros ares da globalização que sopravam mundo afora tinham tomado conta do Chile, onde a política e a economia continuavam atadas.

Esse era o contexto quando um novo governo foi escolhido por votação popular depois dos anos de chumbo.

Tratava-se de um governo de coalizão dos partidos de centro e esquerda, grupo representado por Patricio Alwin. Dali por diante sucederam-se 20 anos de diferentes gestões da chamada “Concertación!”, que tentava desatar o país e acabar com a herança da ditadura por meio de políticas sociais.

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Patricio Alwin, o presidente da redemocratização

Percebia-se a tentativa de ficar um pouco longe do mercado, mas o mercado tinha tomado conta do Chile. Também nesses 20 anos – os mesmos anos em que a globalização do capital tomou conta do mundo – a “Concertación” não conseguiu sair disso.

Bom, depois dessas reminiscências todas, volto ao meu amigo Edson: “O que aconteceu no Chile domingo passado?”

Edson, você me fez pensar em parte da minha história, em lembranças quase fotográficas me levam a dizer que tudo o que escrevi aqui não tem fundamento histórico algum: é apenas uma reflexão provocada pela sua pergunta e feita a partir dessas “fotografias” que tirei da memória.

“Daniel, o que aconteceu no Chile?”

A verdade, meu amigo, é que não sei…

Tenho mais perguntas que respostas. A “Concertación”, com problemas de gestão, não teria conseguido superar suas próprias diferenças?

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Michelle Bachelet não conseguiu eleger sucessor

A coalizão de centro-direita ganhou com 52% dos votos! Coalizão de centro-direita? Não existe direita? Não existe mais esquerda? O que fez 52% dos eleitores optarem por um Berlusconi latino americano? Será que a exposição por 37 anos ao espírito do “mercado” criou grande classe média arrivista, que se quer nos braços da direita?

Quais os valores que uma sociedade em busca do desenvolvimento tem hoje? E que conceito de desenvolvimento pode ter uma sociedade exposta brutalmente ao capitalismo durante os últimos 37 anos, sem que se refletisse sobre esse processo? Eu sou o que compro e tenho? Sou feliz com o que compro e tenho? Não existe direita nem esquerda, todos são progressistas? O que posso responder?

Sei apenas que hoje a direita no Chile, que se autodenomina “centro-direita”, conquistou o poder.

Esta mesma centro-direita que procura se desvincular da era Pinochet sempre teve – e continua a ter – o poder econômico no Chile. Depois da eleição do domingo passado, voltou a ter também o poder político. Coisa muito perigosa…

Sim, Edson, temos que seguir lutando. Mas lutar como, contra quem ou o quê se não existe mais direita ou esquerda e todos são progressistas?

Dias atrás um outro amigo me deixou uma mensagem no Facebook. Ele dizia: “Daniel, estou preparando o meu ‘pasa-montaña’’.

“Pasa-montaña” é um boné que servia para cobrir o rosto dos jovens que faziam barricadas nos bairros populares de Santiago.

Barricadas? Será tempo de barricadas? Será que estou ficando velho? Será que temos que reinventar as formas de luta? Como incentivar os valores humanos em mentes mutiladas pelo mercado?

Perguntas, perguntas…

Mas é bom pensar, né?

“Abrazo”

“Uma Mulher tão bela como eu” (Truffaut, 1972)


Cartaz de “Uma mulher tão bela como eu”

Camille Bliss é o pior tipo de sedutora pela qual um homem pode se derreter. Que o diga o pobre sociólogo Stanislas Previne (André Dussollier) que, a despeito de entrevistas para seu doutorado sobre mulheres criminosas, trava longas conversas com essa irresistível criatura que está atrás das grades acusada de matar o amante.

Camille Bliss é Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague.

Veja nesta cena como Camille sabia provocar os marmanjos

Poderosa e desbocada, Camille comanda o jogo do amor e faz gato e sapato do coitado da vez.

É capaz de enfeitiçar pelas curvas e pelo olhar penetrante – ceder aos seus encantos é como entornar o veneno sem sentir o gosto de fel.

- Não se divorciou? – perguntou Stanislas.
- Não se pode divorciar-se de um asno com 27 fraturas. Não seria elegante – respondeu, sobre seu marido, que estava todo quebrado no hospital.


De tanto entrevistá-la, Stanislas se complicou

Ela quer esmagar o macho, humilhá-lo, deixá-lo prostrado à mercê de seus caprichos. Quer fazê-lo babar, fazer juras de amor e, por fim, deixá-lo de mãos abanando. Vai ao limite do seu poder de sedução. Por quê?

- A princípio, sua relação com Golden era puramente profissional. Quando foi que se interessou por ele?
- Esse é o problema de ir para a cama com alguém e depois falar de negócios.


No começo ela é doce, depois…

Seria Camille Bliss, a anti-dama, a estonteante desbocada de “Uma Mulher tão bela como eu”, de François Truffaut, uma criatura sem coração? Uma fêmea movida pelo ódio?

- É uma ninfomaníaca que vai com todos! – indigna-se a digitadora lourinha que transcreve as entrevistas e é apaixonada Stanislas.

Claro que não. Ou é?

Camille seria tão somente uma mulher que desenvolveu uma forma peculiar de reagir às cruezas da vida?

Elucubrações à parte, lembremo-nos de que, num filme de Truffaut, nunca se verá alguém guiado por um sentimento que não seja o amor - ou pela emergência de reparar a dor de um dia ter sentido o vento gelado do desamparo

Já estou com saudades de Eric Rohmer…

O Joelho de Claire, filme de 1970

Ícone da nouvelle vague ao lado de Truffaut, Godard e Claude Chabrol, Eric Rohmer - morto no dia 11 de janeiro de 2010, aos 89 anos – era o cineasta das palavras, dos encontros e desencontros.

O cineasta de personagens que vagam por ruas, praias e campos em busca de alguma coisa – a solução para uma angústia, um desejo, uma tristeza contida -  que nem mesmo eles sabiam direito o que era. Personagens assim como nós.

Separei um trecho de um de seus filmes de que mais gosto, Amor à Tarde, de 1972. Na história, um homem – Frédéric,  interpretado por Bernard Verley-  que tem uma vida pacata de casado ( e, até prova em contrário, feliz)  vive em devaneios eróticos vespertinos com as mulheres que vê na rua.

Chloé é a tentação em pessoa na vida de Frédéric

As fantasias não ultrapassam as fronteiras morais até que aparece no escritório do qual é sócio a tentação: a provocante Chloé – a belíssima e forte atriz Zouzou -, ex-amante de um amigo que está disposta lhe tirar atiçar os hormônios.

Moral, recato e erotismo se misturam num filme delicado e construído a partir do olhar masculino.

Reparem na câmera livre pelas ruas de Paris, no fato de os personagens estarem quase sempre em movimento e na cidade que salta pelas lentes, viva, intensa – traços da nouvelle vague que Rohmer tingiu com cores próprias em seu cinema.

5 curiosidades sobre o homem que salvou Woodstock

Reprodução web

Max Yasgur, o fazendeiro que alugou a fazenda para
a realização do festival

Alguns posts atrás, ao comentar sobre a leitura do livro “Woodstock – quarenta anos depois, o festival dia a dia, show a show, contado por quem esteve lá” (Peter Fornatale, editora Agir), disse que voltaria ao tema. E aqui está. O personagem agora é Max Yasgur, um pacato fazendeiro de 49 anos que alugou a fazenda que abrigou o festival.

Yasgur entrou para a história de Woodstock por um desses acasos do destino, e de forma dramática.

“Seja qual for a versão, não fosse a gentileza do fazendeiro de leite Max Yasgur não teria havido Woodstock”, escreve Fornatale em seu livro.

O que está escrito abaixo foi retirado da obra de Fornatale.

1-Desespero - Quatro semanas antes abertura do festival, a licença para a realização do evento no local original, numa região chamada Wallkill, foi retirada – é necessário lembrar que, naqueles tempos, essa história de sexo, drogas e rock and roll arrepiava os cabelos das boas famílias e autoridades, sejam elas quais fossem.

“Pânico é a palavra para o que sentimos”, afirmou Michael Lang, produtor executivo do festival.

Site de Woodstock

Lang e Yasgur

2-O salvador da pátria – Quem livrou os produtores do desastre foi um fazendeiro de leite chamado Max Yasgur, um dos heróis (quase) anônimos de Woodstock. Dono de uma fazenda de 240 hectares na cidade de Bethel que reunia as condições necessárias para abrigar o festival, ele foi descoberto, depois de muita procura, pelos produtores. Resolveu então alugar o espaço, mesmo com as reações nervosas de membros da comunidade local, que queriam a todo o custo impedir os shows.

3- Preço salgado - Ok, Yasgur não era uma alma caridosa disposta a contribuir de graça com a felicidade dos hippies. Ele cobrou uma fortuna para ceder a fazenda. “Em vez de US$ 7,5 mil (proposta inicial dos organizadores), pagamos a ele US$ 75 mil”, disse John Roberts, fundador de Woodstock que financiou o festival, sobre o valor inflacionado que Yasgur cobrou pelo aluguel.

Reprodução web

Estima-se em 500 mil pessoas o público de Woodstock

Mas, fechado o negócio, Yasgur segurou a bronca, que foi forte, e deu de ouvidos para as vozes contrárias à realização de Woodstock. “Vocês foram prejudicados – acho uma besteira essa guerra de gerações que está acontecendo. Posso ajudá-los, porém sou um homem de negócios e isso vai ter um custo para vocês”, falou Max Yasgur aos produtores.

Divulgação

Eugene Levy interpretou Yasgur
em “Aconteceu em Woodstock” (Ang Lee)

4 – Deixa os garotos se divertirem - Eis o que diz Sam Yasgur, filho de Max, sobre a postura do pai: “… alguns vizinhos tiveram uma postura extremada contra os assim chamados hippies que vieram à parte oriental do condado de Sullivan. E aquilo aborreceu papai.

Lembro de dizerem que não gostavam do pessoal por causa da aparência e meu pai respondia que também não gostava do visual deles, mas que isso não era o mais importante – eles estavam protestando contra a guerra e milhares de soldados haviam morrido para que aqueles jovens pudessem fazer exatamente o que eles estavam fazendo, e essa era a essência da América”.

Reprodução web

Max Yasgur em Woodstock

5 – Falando para meio milhão – No festival, aquele que para alguns poderia não passar de um caipira desengonçado, fez um discurso marcante no palco, para meio de milhão de pessoas.

Eu sou um fazendeiro. Eu não sei – eu não sei como falar para vinte pessoas ao mesmo tempo, o que dizer de uma multidão dessas. Mas acho que vocês, jovens, provaram uma coisa ao mundo. Não apenas à cidade de Bethel ou ao condado de Sullivan. Vocês provaram algo ao mundo.

Este é o maior grupo de pessoas já reunido num lugar. Não tínhamos ideia de que iria haver um grupo desse tamanho e, por causa disso, vocês tiveram alguma inconveniência com água, comida e outras coisas. Os produtores fizeram um esforço monumental para tomar conta de vocês. Eles apreciariam um obrigado.

Mas acima disso, a coisa mais importante é que vocês provaram ao mundo que meio milhão de garotos – eu chamo vocês de garotos porque tenho filhos mais velhos que vocês. Meio milhão de jovens podem ficar juntos e não vai haver nada além de diversão e música. Deus abençoe vocês”.

Veja o trecho do documentário sobre Woodstock, dirigido por Michael Wadleigh, com o discurso de Max Yasgur.

Venha tomar um drink no Inferno

Aí, pessoal, festa de aniversário deste missivista 2.0 em conjunto com o camaradão Ricardo Tarzan, amigo de infância, skatista, especialista em web e roqueiro. Com discotecagem de Kid Vinil. Estão todos convidados.

Cópia de convite_blog

David Bowie e Elvis Presley, os heróis de 8 de janeiro

Ponto de Fuga mantém com o maior prazer a tradição deste blog: a cada 8 de janeiro, uma homenagem, por mais simples, aos aniversariantes ilustres cujos sons, personas, ideias, loucuras me fazem a cabeça. Viva Bowie e Elvis!

“We can be heroes!”

Sir Bowie (Heroes)

O Rei (Unchained Melody)

O ano começa na base do sexo, drogas e rock and roll

woodstock-post

Ponto de Fuga está de volta. O blogueiro deixou esse recanto de lado por excesso de trabalho nos últimos meses. Uma pouca vergonha, sei. Mas, como diria o Frejat, “agora o rock and roll vai rolar aí e vai direto”.

Ano novo, blog renovado. Comecemos por reativar os posts. Nos próximos dias haverá novidades no visual do PdF. E assim vamos.

É hora de Woodstock
Primeiro post do ano vem em ritmo de sexo, drogas e rock and roll, motivado que estou pela leitura do livro “Woodstock- 40 anos depois, o festival dia a dia, show a show, contado por quem esteve lá”, de Peter Fornatale (Editora Agir).

Falar em Woodstock pode parecer a coisa mais batida, mais surrada, mais bicho grilo que se imagina.

Bom, talvez seja mesmo – ou não. O festival de música mais marcante de todos os tempos sem dúvida já foi muito repisado. Mas, debaixo da cortina de fumaça (juro que não é trocadilho), há ótimas histórias e personagens.

Jornalistas se revoltaram no NYT
Para começar a brincadeira, selecionei uma curiosidade sobre Woodstock que todo amante do rock – e também quem passa longe dos três acordes – vai gostar de saber. Está no livro que citei acima.

Houve uma batalha nos bastidores do The New York Times em relação à cobertura do festival feita pelo jornal.

woodstock

Assustador para o establishment americano, o que inclui a grande imprensa, o festival foi alvo de um editorial nervoso do jornal. O título diz tudo: “Pesadelo em Catskills”, referindo-se ao evento. “Que tipo de cultura pode provocar uma confusão colossal dessas?”

Os repórteres que cobriam Woodstock pelo Times protestaram contra a direção do jornal. Os jornalistas foram à sala de Arthur Sulzberger, o manda-chuva do Times, e não pestanejaram: “Estamos pedindo demissão”.

Eles diziam que o editorial distorceu o espírito de Woodstock e foi diferente das informações que eles produziam sobre o festival. O Times fez então um segundo editorial, desta vez bem diferente.

“Eles foram (o público), ao que parece, para desfrutar sua própria sociedade, livres para exultar no estilo de vida que é sua própria declaração de independência”, dizia o novo editorial.

Aguardem novas doses de paz e amor enquanto eu ouço “Soul Sacrifice”, com Santana.

John Lennon – 8 de dezembro de 1980

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Quando avistou John Lennon em frente ao edifício Dakota, no dia 8 de dezembro de 1980, Mark David Chapman chamou baixinho “senhor Lennon” e então disparou cinco tiros contra o músico.

Yoko veio gritando “Atiraram em John”. O porteiro tentou socorrer. Inútil. Ele próprio tirou os óculos de John e cobriu o astro com uma jaqueta.

Chapman não saiu correndo nem se matou. Encostado à parede do Dakota, calmamente lia “O Apanhador no Campo de Centeios”, de J.D. Salinger.

Do livro John Lennon – a vida (Philip Norman).

Não, não fuja não

Uma das músicas de Chico que mais aprecio. João e Maria, porque a fantasia também é necessária.

Bod Woodward e “Todos os homens do presidente”

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Em cena Dustin Hoffman (Carl Berstein), Robert Redford (Bob Woodward)

Sábado comprei por acaso num sebo da Augusta o livro “Bush em Guerra”,do jornalista Bob Woodward, parceiro de Carl Berstein na série de reportagens que desmascarou o escândalo de Watergate, responsável pelo impeachment de Richard Nixon. Louco para lê-lo.

Assim me lembrei, claro, do ótimo “Todos os homens do presidente‘, filme de 1976 de Alan Pakula. O longa tem Robert Redford e Dustin Hoffman nos papéis, respectivamente, de Woodward e Berstein. A cena final é esplêndida, esplêndida!

Mas separo aqui trecho em que Woodward se encontra com o Deep Throat, a fonte que mostra onde estão os ovos de ouro dessa história cabeluda. Na cena – os encontros sempre se dão num estacionamento, tarde da noite-, Woooward perde apaciência com os “joguinhos” do Garganta Profunda, que passa as dicas em pílulas.

Reparem na atmosfera angustiante e na tensão da cena, presente no diálogo, nos sinais corporais e na fotografia obscura. Ouve-se até o barulho da saliva que percorre o Garganta Profunda.

Um dos grandes filmes sobre jornalismo. Vencedor de quatro estatuetas do Oscars. Memorável.

O longa mereceu um homenagem bem bacana. Bacana, não: nota dez!

Embalado pela eletrizante “Sabotage”, dos nova-iorquinos do Beast Boys – a música é uma de minhas preferidas da banda -, esse filmete praticamente resume o longa, ou pelo menos faz uma leitura em ritmo de videoclipe da obra. Edição caprichada, alucinada. Vejam:

Exemplo da cultura do fá de que fala Henry Jenkins. No mais alto nível.

4º Mostra de cinema árabe

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“Andarilhos do Silêncio”, da diretora tunisiana Moufida Tlatli

Boa pedida na área: 4º Mostra de Cinema Árabe, projeto capitaneado pelo Instituto da Cultura Árabe em parceria com a Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo, o CineSesc e a Casa Árabe de Madri-Espanha.
Obras de países como Tunísia, Egito, Líbano e Iraque.

Os filmes podem ser vistos até 13 de setembro. Confira a programação e outras informações aqui.

Agradecimento especial ao André Dogon, que fez o ótimo site da Mostra e passou a dica.

“Sueña. Sí se puede”?

A vitória acachapante sobre los hermanos me fez lembrar um comercial da DDB México.
Os argentinos poderiam aproveitar a ideia. Que tal um filme com a seleção brasileira vestindo a camisa da Argentina e o slogan “Sueña. Sí se puede”? Confira.

Cuidado com o sexo digital

Dia do Sexo? Divirta-se, mas cuidado com a webcam.

Sobre John Lennon

O marinheiro Alf e a cantora diletante Julia fizeram amor no chão da cozinha de casa. Foi em algum dia de janeiro de 1940, em plena guerra. A gravidez, inesperada, foi desalentadora para o casal. “Noventa por cento das pessoas da minha geração nascer…am da garrafa de uísque numa noite de sábado, e não havia nenhuma intenção de se ter um filho”, diria muitos anos depois o fruto dessa relação – um homem chamado John Winston Lennon. Na primeira noite após seu nascimento, um mina terrestre explodiu perto da maternidade, e a mãe o colocou debaixo da cama por medida de segurança.

Essas histórias estão no livro “John Lennon – a vida” (Companhias das Letras), de Philip Norman. Vale a pena enfrentar o catatau de 839 páginas.

O mar em torno do mar

Para quando pensarmos, entre um descuido e outro, que é possível traçar todos os passos da vida.

Quando o rock subiu no telhado

Dois exemplos clássicos (seriam os únicos?) de “rooftop concert”.

Há 40 anos, no dia 30 de janeiro de 1969, os Beatles subiam ao terraço do prédio de sua gravadora, a Apple, para aquele que seria o show de despedida da banda.


A histórica apresentação no terraço do prédio da gravadora Apple

Embora as pessoas costumem lembrar dos Beatles quando o assunto é rock no telhado, justiça seja feita: nosso glorioso Robertão realizou a proeza antes dos garotos de Liverpool. Foi em 1968, com o lançamento de “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. O hit foi a sensacional “Quando”. Com direção de Roberto Farias, que também assina o roteiro ao lado de Paulo Mendes, o longa traz Reginaldo Faria e José Lewgoy no elenco.


Cena de “Roberto Carlos em ritmo de aventura”

Devaneios ao som da jukebox de Cat Power

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Show intimista de Cat Power combinou com a noite chuvosa de São Paulo

Sob luzes azuis e roxas, ela subiu ao palco pouco depois das 22h. Nada de telões e fotos com flashes – colocado sobre um dos amplificadores, um incenso espalhava fumaça por entre os instrumentos. Havia um clima intimista e aconchegante no ar.

Enquanto ajeitava o microfone, a saudação tímida e carinhosa. “Oi”, disse baixinho e em português, com um sorriso. Olhava para baixo, como se fora aquela menina nova do colégio com quem trocávamos as primeiras conversas e nos apaixonávamos em seguida. Foram suas únicas palavras dirigidas ao público durante o show.

Vestia calça escura – seria jeans? -, camisa e uma gravatinha preta, afrouxada. Luvas que deixavam os dedos à mostra. Nada de grandes gestos, mas sim a sutileza dos detalhes.


Embora precário, esse vídeo captado por um expectador durante
o show de ontem serve como registro. A música é Metal Heart

Foi imerso nessa atmosfera de introspecção, cuidadosamente desenhada pela produção, que vi o show de Cat Power em São Paulo. E assim tive a sensação – é a minha viagem, nada mais – de que estava ouvindo Robert Johnson ou Bob Dylan na jukebox de um bar vagabundo ou perambulando por aí numa das tantas madrugadas.

Foi tudo um grande blues, posso dizer. Não necessariamente pelas músicas, porque não é apropriado dizer que o repertório de Cat seja feito pelo som do Mississipi ou o folk, embora sejam essas algumas de suas influências. Mas sim pelo espírito, pelo clima pé na lama, pelos gritos e sussurros capazes de aquecer a alma numa noite de frio.

O que mais poderia dizer depois de ouvir Don´t explain, marcada na voz Billie Holiday, ou Metal Heart, ambas presentes em Jukebox, o álbum mais recente de Cat?


E este vídeo aqui, também da lavra de algum fá, mostra a última música do show, Angelitos Negros, e a despedida calorosa da musa indie

A viagem terminou com uma Cat sorridente, feliz, distribuindo rosas brancas para a plateia, que, entregue, a aplaudiu de pé por vários minutos. Nesses instantes, nossa cantora já não estava apenas no canto do palco. Andando de um lado a outro para cumprimentar as pessoas, Cat Power, pelos menos naquele momento, era a perfeita tradução de uma pessoa feliz.